O Papa já não mora aqui
Passei ontem à tarde junto daquelas duas janelas. Estavam fechadas, com ar de casa desabitada. Todas as noites que passava pela praça de S. Pedro em Roma, olhava-as e percebia se o Papa ainda estava a trabalhar no seu Gabinete .Vi-as fecharem-se com a partida de Bento XVI para Castel Gandolfo há pouco mais de um ano. O Papa já não mora aqui. Está noutra casa onde cheguei a dormir durante alguns trabalhos que fiz em Roma. Esta manhã andei por corredores do Vaticano à procura do local de comentários para a Missa do próximo domingo. E, recolhida a documentação, confirmadas as credenciais, entro na Sala Paulo VI ou Nervi, onde está a Sala de Imprensa para momentos extraordinários. À hora que cheguei, cedinho ainda, pude escolher mesa. Mais de 12 televisores ao longo da sala, o ruído habitual dos jornalistas (felizmente que acabaram as matracas das máquinas de escrever onde ainda me lembro de ouvir um concerto de castanholas metálicas a escrever notícias para todo o mundo). Agora, computadores, ipads, e companhia, vão batendo silenciosamente teclas, enviando fotos, e dizendo em não sei quantos smarts, notícias em todas as línguas. Quase igual ao que aconteceu com a eleição do Papa. Diante de mim dois enormes painéis a preto e branco. Um, com os olhos enormes e vivíssimos de João XXIII, um toque acentuado no esboço do seu sorriso. O outro, da mesma dimensão, de João Paulo II. Nem sei como começar a descrição. O rosto um pouco inclinado, os olhos carregadamente cerrados, as rugas acentuadas, o cajado de pastor, encostado ao rosto, e a mão esquerda a segurá-lo quase violentamente, carregando a expressão de dramatismo. Diríamos que é uma foto retocada que nunca passaria num passaporte ou em qualquer documento identificativo. Mas não precisa de legenda. Ninguém deixaria de identificar João Paulo II quando parece trazer o mundo às costas. Isso mesmo. Tomou sobre si o peso do nosso mundo. Sendo um homem que transmitia alegria, confiança, fé, capacidade de recomeçar, assumia tudo isso como um dever intransmissível e por isso o não descartava nem deixava por contra doutrem.
Acompanhei João Paulo II em muitos momentos, mais de 20 viagens ao estrangeiro, desde Santiago de Compostela até Seul e muitos países de África. Mas lembro aqui uma apenas. A São Tomé. Como sempre, os jornalistas vão à frente (exceto quando vêm no mesmo avião do Papa, como me aconteceu quando visitou a primeira vez a Portugal). O povo foi ao aeroporto de S. Tomé receber João Paulo II. E depois correu apressadamente para uma esplanada, o local da celebração. O Papa chegou primeiro e teve de esperar pelo povo. Quarenta graus. Nem uma sombra. O carro chegou ao recinto, parou e aí esteve não sei quanto tempo à espera que os cristãos chegassem para a celebração. Parecia um Getsemani. João Paulo II tinha o rosto quase coberto com grossas gotas de suor. Lembro-me que andei a filmar à volta do carro. Parei ao lado, bem próximo. Ele olhou para mim como que a dizer: esta cruz é minha. E teve, a seguir, uma expressão semelhante à deste painel alto, mesmo na minha frente na Sala de Imprensa. É a imagem dum homem que assume o nosso peso e o entrega a Deus. Muitas vezes o surpreendi nesta expressão noutros momentos e situações. Tenho até impressão que sendo homem de multidões, não a via, assumia cada um diante daquela mole humana aparentemente impessoal.
Lembro Wojtila desde a Varanda Central, ele que falava 12 línguas, e que pediu desculpa no dia da eleição pelas falhas da sua fala em italiano. O homem que veio do frio, que sacudiu ventos de Leste, que abateu o maior muro do século, que se fez missionário pelo mundo inteiro, que trouxe ao mundo ocidental um recado de rigor, justiça e espiritualidade. Que teve atitudes duras com alguns que, segundo ele, perturbavam o rebanho. Um pastor, um lider, um homem de espiritualidade. Um Beato, segundo Ratzinger, um Santo, segundo o Papa Francisco.
Sala de Imprensa da Santa Sé, onde vai ser acompanhada a canonização dos papas João XXIII (painel à direita) e João Paulo II (painel à esquerda). Foto: Cón. António Rego
Cón. António Rego
Jornalista, consultor do Conselho Pontíficio das Comunicações Sociais
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25.04.14
João Paulo IIFoto: D.R.








