Perspetivas
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

A incerteza como bem-aventurança

Pergunto-me às vezes se a dúvida é boa companhia para  as minhas procuras ou se não passa dum espinho que se atravessa na tranquilidade da chegada a uma espécie de Tabor onde tudo se vê claro com a luz inquestionável que vem de cima. E que depois se reflete cá por baixo na quietude, no aconchego da amizade, na partilha dos dons, na comunhão com o belo ou na experiência de tantos santos que todos os dias se atravessam no nosso caminho. No silêncio íntimo dum livro, na comunhão duma imagem, ou na vibração de sons sublimes que nos tocam a fibra da vida e nos transpõem a um espaço transcendente que não sabemos definir. Não sei. Penso que no meu percurso, até ao Concilio privilegiava as certezas, as seguranças, os argumentos imbatíveis, as conclusões como que feitas óbvias porque já se tinham instalado antes das premissas e do vai-vem dos que estavam contra e a favor. Com o tempo, que não sei precisar, deu-me mais para ouvir, tentar compreender o outro lado, investigar outros caminhos de lógica, que de mim não fizeram nem herege nem apologista do relativo. Mas não foram poucas as perguntas sobre se andaria no bom caminho. Sabia e sei que não faltavam nem faltam pontos de referência. Mas com o tempo, de João XXIII ao Papa Francisco, fui e vou aprendendo que a certeza não é arrogância intolerante nem dúvida é estado mórbido de intelecto.

Mas nunca o edifício da festa está pronto. Volta o aguilhão da dúvida, escondida em qualquer pergunta ingénua que arrasa o castelo que parecia confortavelmente acabado. Isto diz respeito a quase tudo, até àquilo que pensava adquirido e exposto à contemplação própria e alheia.

Não sei bem onde começa e acaba esta história mas quer parecer-me que está sempre a recomeçar sem qualquer garantia de vir a terminar. Segue-me a cada passo, em cada decisão, em cada poema e até em cada prece .E penso que tudo se deve a este espaço que não deixo de ocupar, esta armadilhada fronteira entre o profano e o sagrado, a paz e a confusão, o tom maior e menor de cada compasso, o sublime inebriante ou o mesquinho desmesurado que debruam cada pequena construção que sou capaz de levantar. Complexa é a vida onde o excesso de certeza é mentira e a solidez de dúvida é uma quase patologia.

Acho que o melhor é arrumar com esta conversa que mais parece de um pagão, empedernido pelas repetições, ressequido de rotinas, insensível à frescura de cada novo momento. Sobretudo estrangulado pelas cordas dolentes das angústias e dos medos, sem perceber os ténues fios de Deus que vão iluminando o trilho do nosso incerto caminhar, segurando as nossas essências e desprendendo as nossas futilidades. Ah, filosofias e filósofos! Por que não nos deixam em paz, com os lírios do campo, as aves do céu, o pão de cada dia, o abraço de um amigo, o gesto fraterno dum afeto e um conjunto inacessível  de palavras doces e sãs como que a compor um quadro de cores simples e linhas essenciais.

Se entro nos terreno da fé, tudo parece claro perante o meu Deus com quem me entendo e falo indefinidamente de banalidades sublimes, do vento, do mar, das crianças e das flores. Mas se quero arrumar as suas verdades no meu ficheiro, logo começam a bater as ondas das dúvidas e perguntas que bem gostaria fossem apenas mistério. Mas são mais que isso. Mesclas do claro e do escuro, do que entendo e do que não é para entender. Só aquieto quando, de joelhos, de preferência, noto que o único lugar certo para arrumar esse amontoado de grandezas e misérias, é o coração. Só aí a fé se recolhe ,em silêncio, e deixa de fazer perguntas.

 

Cón. António Rego
Jornalista, consultor do Conselho Pontíficio das Comunicações Sociais
© SNPC | 19.02.14

Redes sociais, e-mail, imprimir

Nevoeiro

 

Ligações e contactos

 

Artigos relacionados

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página