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Francisco: A escandalosa cruz das crianças e o imperativo da gratuidade na saúde

Após a operação a que foi sujeito há uma semana, o papa Francisco voltou a falar e a mostrar-se ao mundo com uma oração do Angelus a partir do hospital: um discurso breve mas rico de sugestões e pedidos, totalmente centrado no sofrimento do corpo e no seu tratamento. Se Wojtyla com a exposição planetária do seu sofrimento recordou a todos que a doença é uma dolorosa experiência que toca cada um de nós, uma experiência que deve ser aceite e acolhida com coragem e verdade, Bergoglio – que está assaz bem – quis apresentar-se rodeado de crianças gravemente sofredoras.

As crianças que sofrem são a manifestação e o símbolo da dor incompreensível, inexplicável, o mais difícil de aceitar: uma dor que não se quereria ver, apenas esquecer. Rodear-se destas crianças é, por isso, um ato forte, uma opção que pretende abrir os nossos olhos para nos fazer recordar que a doença e o sofrimento estão perto de nós, e que temos o dever de intervir para assistir e ajudar: um dever que nunca pode ser esquecido porque é dos mais prementes e importantes. Ajudar – recorda-nos o papa – não significa somente prestar assistência pessoalmente, mas também contribuir para tomar as decisões certas em relação à organização da saúde, para impedir que a assistência gratuita seja estrangulada pela lógica do lucro, pela necessidade da poupança.



Imagem Visita do papa Francisco à Unidade de Oncologia Pediátrica, Policlínica A. Gemelli, Roma | 13.7.2021 | © Sala de Imprensa da Santa Sé


Sobre o sofrimento não deve haver poupanças: a ajuda gratuita aos doentes constitui um dos sinais mais significativos para avaliar a civilização de um país, porque demonstra que os cidadãos aceitam pagar os impostos de maneira que se transformem numa assistência igual e eficaz para todos. Trata-se de um discurso particularmente adaptado a este momento histórico, em que a crise económica agravada pela pandemia está a empurrar muitos países a cortar fundos a instituições, como as de saúde, que não produzem lucro.

Comentando as palavras do papa, pode acrescentar-se que garantir uma boa saúde para todos significa também eliminar os desperdícios e combater a corrupção no plano administrativo, abolir opções terapêuticas que colocam a defesa do médico e do hospital antes das exigências do doente, bloquear a invasão dos interesses das indústrias farmacêuticas. Não basta, por isso, financiar a saúde pública, porque é preciso também fazê-la funcionar bem e vigiar as suas derivas patológicas com um trabalho contínuo de atenção. Nas palavras do papa ressoaram também conhecidas polémicas em relação aos hospitais católicos – entre os quais aquele onde está internado –, que segundo o seu parecer, não respondem com a devida diligência e honestidade a este objetivo.



Imagem Visita do papa Francisco à Unidade de Oncologia Pediátrica, Policlínica A. Gemelli, Roma | 13.7.2021 | © Sala de Imprensa da Santa Sé


Ainda que Francisco pareça, como sempre, privilegiar os temas sociais, no seu discurso está a referência àquele que é um dos mais dramáticos mistérios da existência humana: o da dor inocente. Qual é o sentido e a finalidade da dor dos inocentes, das crianças gravemente doentes? Nem o papa sabe responder a esta pergunta tão dramática, à qual procuramos fugir. Mas a presença dos pequenos doentes à sua volta torna a colocar dramaticamente na ribalta este escândalo, que é o escândalo da cruz. Pode ser somente uma pergunta que dirigimos a Deus, restando-nos apenas aceitar o mistério. É uma pergunta a que só a religião pode responder, só a fé num Deus que é bom apesar deste escândalo, enquanto que para garantir a eficiência de um sistema de saúde pode bastar uma boa segurança social, que é naturalmente possível – e imperiosa – também num país secularizado.


 

Lucetta Scaraffia
In La Stampa
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: Visita do papa Francisco à Unidade de Oncologia Pediátrica, Policlínica A. Gemelli, Roma | 13.7.2021 | © Sala de Imprensa da Santa Sé
Publicado em 13.07.2021

 

 
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