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A criança – O nascimento do espírito

«Estando eles ali [em Belém], chegou a hora do parto e deu à luz ao seu filho primogénito. Envolveu-o em panos e recostou-o numa manjedoura, porque não tinham encontrado lugar na pousada» (Lucas 2, 6-7).

Todos preferimos alojar-nos num grande hotel, com todo o luxo de comodidades, em vez de uma gruta desolada e fria, em cujo interior ninguém sabe com o que nos poderíamos encontrar. Desagrada-nos – e até nos indigna – se por qualquer razão nos recusam e, com frequência, elevamos a voz aos céu se não nos dão o trato que acreditamos merecer. Pois bem, para encontrar a criança que fomos e somos, para recuperar a nossa natureza original, temos de suportar esses atropelos. Toda a busca espiritual comporta incompreensão e até recusa. Neste mundo não há lugar para que possa abrir-se caminho ao eu profundo, que tem sempre de nascer extramuros.

Uma pessoa autêntica é sempre uma ameaça, uma ave rara a quem se poderá admirar ou recusar, mas que, inevitavelmente, se marcará e manterá à parte – não aconteça que outros se contagiem e queiram imitá-la.

O mundo costuma estar enredado em assuntos demasiado importantes – ou assim crê – para prestar atenção a um par de forasteiros que sabe-se lá o que irão fazer por ali, àquelas horas da madrugada. O mundo está no rendimento laboral, nas responsabilidades familiares, nas coisas materiais e tangíveis, no pragmático… Não pode permitir-se perder tempo em sentimentalismos. De maneira que as suas portas sempre se fecharam ao nascimento do espírito. O mais grave, no entanto, é que também se fecharam, provavelmente, as portas do nosso interior: resistências, preconceitos, cautelas, medos… Pressionados pelas nossas supostas e incontáveis “obrigações”, asseguramos que não temos pousada nem para nós mesmos.



Reconhecer-se na mula e no boi – para além da imagem cândida que deles nos transmitiu a cultura e a religião –, compreender que no fundo somos muito parecidos a eles na nossa busca de calor e segurança…, tudo isto já é, certamente, um grande feito



Maria e José empreenderam uma viagem muito grande, sabendo que o seu filho nasceria antes de regressarem, e, por isso, sem garantias de condições adequadas para o parto. A única explicação possível para este ato temerário é a sua confiança em Deus ter sido absoluta. Não duvidavam de que as coisas seriam como tinham de ser, e, em consequência, que onde o seu filho nascesse seria simplesmente o melhor dos lugares possíveis.

Esse lugar foi uma gruta muito escura, só tenuemente iluminada pelas estrelas. Antes de se acomodar entre a palha – para preparar o parto iminente –, Maria e José percebem que não estão de todo sós, no meio daquela escuridão. Junto deles estão a mula e o boi, ainda que os seus olhos tardem em habituar-se às sombras para os poder reconhecer. É de supor que os animais se sobressaltaram um pouco perante esta inesperada visita.

A obscuridade que encontramos na nossa mente quando nos sentamos em silêncio a meditar é muito parecida à que reina nessa gruta de Belém. Não se trata normalmente de uma obscuridade terrorífica, ainda que às vezes a possa impor. É muito mais uma obscuridade na qual há algo que respira. És tu mesmo, com certeza: o animal que há em ti, a vida orgânica, o mais instintivo ou primordial, o que sustém tudo o resto.

No mais profundo da mente, o que nos espera são os nossos animais interiores, que costumam dar-nos muito medo. De facto, há poucas coisas que nos aterrorizem tanto como os nossos instintos. Reconhecer-se na mula e no boi – para além da imagem cândida que deles nos transmitiu a cultura e a religião –, compreender que no fundo somos muito parecidos a eles na nossa busca de calor e segurança…, tudo isto já é, certamente, um grande feito. O animal que temos dentro de nós é o primeiro com que convém familiarizar-se para empreender o caminho espiritual. Todo o intelectual e o emocional desaparece quando se chega a essas profundas cavernas do ser.



O espírito é como a criança, uma torrente de vida imprevisível. Uma criança aparece onde não há nada, e, pequena como é, consegue – mesmo antes de nascer – que tudo gire em seu torno



Os animais foram as primeiras testemunhas do nascimento de Cristo, conhecido como o Messias. O corpo é sempre o primeiro. Se não se entra pelo corpo, não se vai a lado nenhum. Primeiro vêm os animais, só depois os pastores e, por último, no final de tudo, os grandes sábios. O divino, ainda que surpreenda, nasce em nós junto do animal.

Estas são as chaves para que a criança que temos dentro de nós possa nascer. Sem entrar na própria gruta e sem acompanhar a respiração dos animais, não há nada a fazer.

A nossa criança interior nasce também da Virgem e de S. José, seu esposo. Porque todos trazemos dentro de nós uma Virgem: um território interior no qual, todavia e quase inexplicavelmente, subsiste a inocência. Esse ponto virgem está sempre grávido, quer dizer, em processo de gestação, preparando-se para iluminar. O nosso ser originário está destinado a ser o cenário de um nascimento e de uma plenitude. Todos temos dentro de nós uma criatura que quer nascer: um projeto, uma ideia, uma missão… O puro, o oculto e invisível, é fecundo, essa é a mensagem. Esvaziamento e iluminação, virgindade e maternidade, pobreza e beleza…: o cristianismo articula-se nestes e noutros tantos binómios paradoxais.

O anjo da anunciação apenas dá explicações, limita-se a cumprir a sua tarefa de informar. De Maria espera-se que acolha esta insólita notícia e que, sem mais, a incorpore na sua vida, este é aqui o verbo acertado. Porque o papel que Maria teve nesta biografia da luz foi essencialmente corporal: o seu corpo começou a sofrer transformações, tornou-se grávida.



A luz da alma tem a sua correspondente na luz do céu: ambas estão aí para iluminar e irradiar, quer dizer, para servir de guia a outros. Este é o sentido da iluminação da nossa criança interior: colaborar na iluminação geral



O dilema existencial de José foi a própria Maria: um mistério que não entendia e que aprendeu a contemplar. José é, neste sentido, a testemunha, e, por isso, representa-nos a cada um de nós. José é a consciência, chamada sempre a contemplar um mundo que não compreende. Teve de fiar-se no seu inconsciente para que nascesse o Menino, nosso mestre.

De maneira que o espiritual (o Menino) é o inesperado fruto de um trabalho contemplativo com o corpo (Maria) e de um trabalho contemplativo com a mente (José). Maria, José e o Menino são, portanto, o corpo, a mente e o espírito, o que significa que a Sagrada Família é a nossa permanente aventura interior: Maria, a criação; José, a consciência; o Menino, o fruto, a luz.

Mas há duas condições para que a criança possa nascer também em cada um de nós: José e Maria. José: entrar no mais profundo da nossa mente, na nossa gruta interior. E Maria: descobrir, quando vamos dar à luz, que nessa gruta só estão a mula e o boi, isto é, o corpo, o animal. Deste encontro entre mente e corpo nasce o espírito.

O espírito é como a criança, uma torrente de vida imprevisível. Uma criança aparece onde não há nada, e, pequena como é, consegue – mesmo antes de nascer – que tudo gire em seu torno. A criança enche absolutamente tudo com os seus gritos e chamamentos. Queira-se ou não, é sempre centro de atenção. Enche a habitação com a sua voz, preenche de sentido o coração de quem o cria. Desordena a vida dos seus pais, e, ainda que nada o dissesse ao vê-lo dormir, desde que vem a este mundo, pelo menos até crescer, consegue ser o rei.

Entretanto, no céu de Belém, tímida mas visivelmente, começou a brilhar uma estrela. Isto significa que tudo o que nos passa por dentro, por oculto ou modesto que pareça, tem uma repercussão universal. A luz da alma tem a sua correspondente na luz do céu: ambas estão aí para iluminar e irradiar, quer dizer, para servir de guia a outros. Este é o sentido da iluminação da nossa criança interior: colaborar na iluminação geral.


 

Pablo D'Ors
In Biografía de la luz - Una lectura mística del evangelio (Narrativa) | Religión Digital
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: jcdiazhidalgo/Bigstock.com
Publicado em 09.02.2021

 

 
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