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O diabo – Encontrar-se com o obscuro é um presente

«Jesus, repleto do Espírito Santo, afastou-se do Jordão e deixou-se levar pelo Espírito ao deserto durante quarenta dias, enquanto o diabo o punha à prova» (Lucas 4, 1-2).

Jesus não vai ao deserto por sua própria vontade, mas conduzido pelo Espírito, quer dizer, impelido por uma força maior. Ninguém vai ao deserto porque lhe apetece, ou porque foi convidado a fazer uma experiência. Vai-se porque não se tem outro remédio: há algo poderoso que nos puxa de nós e que, no final, nos fez compreender que temos de parar e pormo-nos, de uma vez por todas a escutar. Que temos de voltar a começar. Ou, simplesmente, começar de verdade, dado que todo o anterior foi um mero preâmbulo.

Este Espírito, a quem Jesus obedece com alegria, está representado no imaginário cristão por uma pomba. Todos temos uma pomba interior que nos guia – ou que, pelo menos, assim o tenta – para o nosso próprio centro. Claro que o caminho para esse centro não é sempre um caminho de rosas: essa pomba nem sempre nos conduz a lugares bonitos e agradáveis – como gostaríamos –, mas também a sítios desagradáveis e até inóspitos que, por alguma razão que inicialmente não compreendemos, nos convêm. É uma pomba da qual é bom fiar-se, ainda que haja ocasiões nas quais nos pesará termos-lhe obedecido.

O deserto, como imagem, é a outra face do jardim. Se aqui, no Éden, tudo é harmonia e prazer, lá, no deserto, é onde o mal costuma apresentara-se. É compreensível: no mundo costuma haver demasiado ruido para que o mal se possa distinguir (o que não significa que não está presente). No mundo todos costumamos ser vítimas inconscientes de espíritos malignos, que brincam connosco, colocando-nos facilmente à sua mercê. No deserto, em contrapartida, ao nele não reinarem as pressas nem a confusão, é onde podemos desmascará-los e até vencê-los, afastando-os de nós durante uma temporada, quase nunca para sempre.



Para não ser distraído por ninguém nem por nada, decide ir só e jejuar. Solidão e sobriedade – pensa – ajudar-me-ão no meu discernimento vital



De maneira que a pomba, que foi quem nos conduziu ao deserto, é a responsável pelo nosso encontro com a sombra. Dito de outra maneira: encontrar-se com o obscuro, identifica-lo, é um presente do Espírito. Nada o imaginaria à partida, mas dar-se conta das trevas que reinam no mundo e no nosso coração é o melhor indício de que o caminho espiritual começou. A nossa biografia da luz começa com a consciência da sombra.

Quem tem uma missão tem também diante de si possíveis e perigosos desvios. Não há nada sem obstáculos. Uma meta sem obstáculo não é uma verdadeira meta. Há sempre algo a conseguir, ainda que seja tão-só a consciência de que não há nada a conseguir. Uma missão dinamiza a pessoa, põe-na em movimento e na positiva tensão do cumprimento.

Seguindo o exemplo do seu primo João, para discernir bem qual é exatamente a sua missão e como realizá-la, Jesus afasta-se de tudo e de todos durante algumas semanas. Para não ser distraído por ninguém nem por nada, decide ir só e jejuar. Solidão e sobriedade – pensa – ajudar-me-ão no meu discernimento vital.

Como esta fase preparatória requereria, decerto, tempo, Jesus partiu sem data de regresso. Todos os retiros deveriam ser assim: ninguém deveria voltar até ter cumprido o propósito que o impeliu a partir. Alguém pode calcular que um discernimento ou uma purificação vão demorar-lhe uma semana, mas pode encontrar-se logo com o que necessita de duas, ou – também é possível – que esse assunto que o levou ao deserto se resolva inesperadamente em poucas horas. O normal, em todo o caso, é que todos necessitemos de bastante tempo para limpar, sobretudo se se trata de um discernimento vocacional.



O candidato deve mostrar a têmpera de que é feito. O corpo coloca-se ao limite precisamente para que o Espírito se manifeste. Porque o vazio de alimento (material) predispõe e reforça o vazio de ideias (mental) e de apegos (afetivo ou sentimental). Todo o trabalho espiritual é sobre o corpo e sobre a mente, não pode ser de outra forma



Para ilustrar a necessária extensão deste tempo de exame ou de prova, a Bíblia utiliza o número quarenta: o dilúvio universal, por exemplo, durou quarenta dias e quarenta noites; Israel passou quatrocentos anos (40 x 10) escravizado pelo Egito, mais outro exemplo. Mas há muitos outros: Jonas pregou em Nínive durante quarenta dias. Cristo, além dos quarenta dias em que se retirou para o deserto, passou entre os seres humanos – segundo os evangelistas – outros quarenta após a sua ressurreição, antes da sua ascensão definitiva. So um tempo prolongado acrisola uma vocação, que para a sua clarificação e fortalecimento deve ser necessariamente colocada à prova.

Quarenta dias com as suas noites – e todos eles sem comer – é, desde logo, um jejum muito longo. Uma verdadeira prova de resistência. O candidato deve mostrar a têmpera de que é feito. O corpo coloca-se ao limite precisamente para que o Espírito se manifeste. Porque o vazio de alimento (material) predispõe e reforça o vazio de ideias (mental) e de apegos (afetivo ou sentimental). Todo o trabalho espiritual é sobre o corpo e sobre a mente, não pode ser de outra forma. Todas as tradições religiosas contemplam o jejum e a meditação como suas práticas espirituais mais benéficas. Os buscadores espirituais de todos os tempos entenderam que treinar-se é a única forma para enfrentar com possibilidade de sucesso o combate contra o obscuro.

Se a natureza do símbolo é unir – como revela a sua etimologia –, a do diabo – que é como a tradição cristã chama ao espírito maligno – é precisamente separar.



O diabo ataca sempre pelo nosso flanco mais fraco. É um inimigo tão mal-intencionado e astuto, que apresenta como atrativo e amável o que no final se revela como dececionante. Dá ao mal aparência de bem. Chama a vida àquilo que só são sucedâneos. E dá em razão de quem é aquele que recebe



O diabo é representado como um ser com chifres e cauda porque gostaríamos de acreditar que é alguém muito diferente de nós e alguém que está fora. Mas isso é fugir à questão. O diabo está dentro (tudo está dentro) e, além disso, parece-se tanto connosco, que qualquer um poderia confundir-se e fazer crer que somos nós. Isto é o mais desconcertante de tudo: que entre o nosso diabo e o nosso anjo a diferença é mínima, embora de consequências gigantes. Os pais e as mães do deserto – a primeira corrente de espiritualidade cristã – refletiram prolixamente sobre a natureza do diabo ou espírito do mal, bem como sobre os seus procedimentos mais habituais. Resumo três dos seus principais ensinamentos.

Primeiro: nunca se convoca o diabo, mas temos de estar preparados para a sua visita, pois virá mais cedo ou mais tarde. Isto é a primeira coisa que convém saber: que o combate deve acontecer e que tu não serás exonerado. Há sempre resistências a vencer, nós a desatar e trevas a atravessar. O caminho nunca é simplesmente reto e plano, mas longo e sinuoso.

Segundo: o diabo ataca sempre pelo nosso flanco mais fraco. É um inimigo tão mal-intencionado e astuto, que apresenta como atrativo e amável o que no final se revela como dececionante. Dá ao mal aparência de bem. Chama a vida àquilo que só são sucedâneos. E dá em razão de quem é aquele que recebe. Assim, por exemplo, se és um intelectual, far-te-á brilhantes raciocínios. Se és um artista, prometer-te-á a glória. Se és político, o poder. Se és um hedonista, evidentemente, o prazer. Se és um espírito cultivado, tentar-te-á com subtileza. Se és um espírito simples, pelo contrário, fá-lo-á com grosseria. O diabo, como leão a rugir – pode ler-se na Bíblia –, ronda sempre, buscando a quem devorar, quer dizer, tratando de tirar o ser humano do seu caminho para si mesmo. A sua missão é tentar. Uma tentação não é outra coisa a não ser uma distração biográfica, assim como uma distração não é senão uma tentação moral.

E terceira e última: ao diabo, como ao anjo, reconhece-se pelos frutos que proporciona. Se o bem gera paz, o mal, em contrapartida, inquietude e insatisfação. O anjo engendra amor, o maligno, isolamento e indiferença. Um, alegria e leveza (é o que simbolizam as asas), o outro, tristeza e pesar. Parece sensato, portanto, escutar as lições dos mestres, se queremos adentrar-nos num deserto e sair vivos dele.


 

Pablo D'Ors
In Biografía de la luz - Una lectura mística del evangelio (Narrativa) | Religión Digital
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Singjai/Bigstock.com
Publicado em 09.02.2021

 

 
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