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A Bíblia segundo Charlie Brown

Quem haveria de dizer que a mensagem veiculada pelo grupo de crianças da imortal banda desenhada nascida da criatividade de Charles M. Schulz, protagonistas de variadas experiências existenciais num mundo quase nunca povoado de adultos, podia ser reconduzida à mensagem cristã? Uma espécie de teologia pop, ao mesmo tempo fruível e cativante, capaz de tocar as cordas da “Civiltà Cattolica”, a revista na órbita da Santa Sé, a mais próxima do papa Francisco.

A linguagem de Peanuts-Charlie Brown, que continua a publicar-se diariamente em Portugal, é, de resto, imediata, multi-leitura e baseia-se sempre na espontaneidade dos personagens de uma imaginária aldeola americana. As frases nunca banais incluem muitas vezes citações bíblicas capazes de chegar àquelas periferias culturais tão caras ao pontificado de Francisco, que não cessa de encorajar os seus colaboradores a ir buscar não tanto a única ovelha que permaneceu no redil, mas ousar chegar às 99 que estão do lado de fora («faltam-nos noventa e nove ovelhas. É mais fácil ficar em casa com aquela única ovelha e penteá-la, acariciá-la»).

Charlie Brown veicula um dos maiores ensinamentos cristãos , «ama o teu próximo como a ti mesmo». Um princípio imenso sobre o qual se baseia também a última encíclica de Bergoglio, “Fratelli tutti”.

O P. Giancarlo Pani, professor universitário de história do cristianismo, é o redator de um belíssimo ensaio publicado no último número da revista dos Jesuítas. Depois de ter assinado uma obra sobre Paulo, Lutero e Agostinho «nas origens do mundo moderno», o sacerdote aventurou-se agora na senda das fronteiras culturais cristãs, individuando em Charlie Brown, em Lucy Can Pelt, em Schroeder, em Pigpen e nos outros personagens criados por Schulz uma visão do mundo inclusiva e plena de sentimento.

Há já cinquenta anos outro teólogo, Robert Short, deu à estampa, com grande celeuma para a época, um livro em que chegava a uma temerária interpretação teológica de Charlie Brown, o personagem que sofre de solidões existenciais e que é perseguido pelo infortúnio, mas que o aceita, confiando-se à esperança de um amanhã melhor.

Schulz era um cristão convicto, membro da Igreja de Deus, uma das muitas realidades protestantes americanas; consequentemente, as suas criaturas beberam, de alguma maneira, dos valores que lhe estavam no coração.



Imagem D.R.


Schulz foi um dos primeiros desenhadores que nos anos 50 inseriu citações bíblicas nos quadradinhos, fazendo referências a Jeremias, o profeta das “Lamentações”. Linus, ao responder a um adulto, explica: «Jeremias era um profeta … mas deve também ser recordado como primeiro vinhetista político. Não pintou quadro algum, mas as suas ações realçaram certas verdades políticas daquele tempo».

A revista anota que na vida daquelas crianças tão diferentes entre elas se misturam «existências entrelaçadas de alegria e de melancolia, desilusão e maravilhamento, oferecendo um guia para viver num mundo que nunca é fácil, ajudando-se umas às outras».

Outra popularíssima reflexão de Charlie Brown, sempre às voltas com desafios falhados, mitigados por uma infinita determinação e teimosia, é emblemática: «Quando se pensa ter todas as respostas, a vida muda-te todas as perguntas».

O P. Pani aponta uma faixa simbólica: Lucy pergunta a Charlie Brown: «Porque estamos na Terra?», «Para fazer os outros felizes», responde. «Pois, mas não há ninguém que me faça feliz...» E depois dirige-se a ele, furiosíssima: «Há alguém que não está a fazer o seu dever!». Segue-se um trambolhão do amigo.



Imagem D.R.


A seguir, ela confia-se a Linus: «O Charlie Brown diz que estamos aqui na Terra para fazer os outros felizes». Ao que o sábio irmãozinho replica: «É por isso que estamos aqui? É melhor começar a fazer melhor o meu trabalho».

Vários intelectuais têm questionado se efetivamente os Peanuts podem ser considerados uma espécie de Bíblia em banda desenhada. O microcosmo humano feito de crianças, marcado pelo espanto, acaba por esboçar uma espécie de parábola evangélica a declinar de acordo com a sensibilidade do leitor.

Schulz era um cristão convicto, membro da Igreja de Deus, uma das muitas realidades protestantes americanas; consequentemente, as suas criaturas beberam, de alguma maneira, dos valores que lhe estavam no coração.

O artigo observa que o livro “The Peanuts Papers: Charlie Brown, Snoopy & the Gang, and the meaning of life”, de Andrew Blauner (org.), com textos de vários ensaístas, como Umberto Eco, convida a refletir sobre a existência, sobre o nosso desembaraçarmo-nos no mundo, sobre os problemas e as dificuldades da vida, sobre as neuroses da sociedade, essa sociedade que – querendo ou não – somos nós. Onde é fundamental ajudarmo-nos uns aos outros».


 

Franca Giansoldati
In Il Messaggero
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: D.R.
Publicado em 26.07.2021

 

 
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