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Que belas parábolas, Snoopy: Último Charlie Brown foi publicado há 20 anos

Charlie Brown, Snoopy, Linus e companhia, protagonistas do evangelho segundo Schulz? A pergunta, que não é recente, adquire especial significado hoje, 13 de fevereiro, 20 anos após a publicação da última banda desenhada dos “Peanuts”, de Charlie Brown, no “New York Times”. Tinha sido desenhada alguns dias antes pelo norte-americano Charles Schulz, como acontecia desde há meio século. Snoopy, como se de um escrivão se tratasse, redigia o adeus do seu criador.

Quando os leitores a viram, Schulz já não estava entre nós. Sabia que estava gravemente doente, e a morte levou-o na noite anterior à publicação daquele adeus, deixando Snoopy a olhar para as nuvens e a recordar o passado: «Caros amigos, foi afortunado por desenhar Charlie Brown e os seus amigos durante quase cinquenta anos. Foi o cumprimento das ambições da minha infância».

«Infelizmente, já não sou capaz de respeitar a cadência de uma faixa diária. A minha família não deseja que os Peanuts possam continuar nas mãos de outro, por isso anuncio o meu retiro. Estou grato aos meus editores pela fidelidade que me demonstraram em tantos anos, e aos fãs das minhas bandas desenhadas pelo maravilhoso apoio e amor que me expressaram. Charlie Brown, Snoopy, Linus, Lucy… como poderei alguma vez esquecê-los…».



Imagem D.R.


O que tem de distinto esta banda desenhada que narra um microcosmo humano feito de crianças com um beagle por companhia? Há algo que não diz respeito à indiscutível habilidade do autor em unir poesia à comicidade, algo que escapa às análises estilísticas ou sociológicas. Mas daí a ler as bandas desenhadas de Schulz como uma espécie de “evangelho apócrifo” vai uma diferença.

Todavia, alguém, no já longínquo 1965, arriscou a aproximação dos “Peanuts” ao Evangelho. Foi um teólogo americano, Robert Short, autor de “O Evangelho segundo Charlie Brown”, em que, pela primeira vez, se tentava uma corajosa interpretação teológica das histórias. O que defende o investigador? Que as faixas de Schulz «assumem muitas vezes a forma de uma parábola cristã dos nossos dias», e que nelas se ocultam lições evangélicas a aprender, ainda que por vezes, tal como acontece nas parábolas, não se está seguro de que lições são.

Por outras palavras, Schulz, cristão convicto, membro da Igreja de Deus, uma das muitas denominações protestantes norte-americanas, teria transmitido nos “Peanuts” uma conceção de ser humano, do mundo, da história e da sociedade embebida nos valores cristãos que ele levava a peito.

Um exemplo, segundo o teólogo, é a ausência de perceção do «pecado original» na nossa sociedade, a fragilidade oculta da natureza humana, até se chegar a uma escravidão que condiciona a vontade, impedindo-a, só por si, de mudar, encontra-se, segundo Short, quando Lucy, dirigindo-se a Charlie Brown, lhe recorda, com pouca cortesia, o seu «problema de fundo». «Sabes qual é o teu problema de fundo, Charlie Brown?»; «não, e não quero saber; deixa-me em paz!», responde ele. E vai-se embora. Então, Lucy grita-lhe: «O teu problema de fundo é que não queres estar a ouvir qual é o teu problema de fundo!». Noutra vez, atira-lhe: «O teu problema de fundo é que não compreendes o significado da vida». A graça divina e a atração pelos ídolos são outros temas que o investigador identifica.



Imagem D.R.


As bandas desenhadas de Charlie Brown, enquanto «crónicas ilustradas das heresias do nosso tempo, parecem verdadeiramente percorrer toda a série», escreve Short. Os caminhos para a salvação apontados pela fé são substituídos por pseudo-salvações, como o «socorro psiquiátrico» de Lucy. A heresia religiosa retratada por Schultz é a Grande Abóbora, que substitui, pra Linus, o Pai Natal. Para não falar das fobias modernas, que substituíram o medo do inferno pelo do “nada”. Mais do que uma vez Schulz sorri de quem leva a sérios os «novos medos» e os seus sintomas nevróticos, porque não se dá conta de que são só sinais de um mal-estar mais profundo, ontológico, que se refere à morte de Deus.

A chuva ou a árvore, ou até Snoopy, para Short, sãoportadores de uma carga simbólica: a chuva é a graça que chega inesperadamente s salva. Charlie Brown declara, desolado, que «chove sempre em cima dos abandonados», mas é salvo da enésima derrota no basebol precisamente por causa da chuva que causa a anulação do jogo. A graça de Deus chega quando menos se espera. Snoopy está a morrer de sede porque a torneira se avariou. Chega o temporal que lhe enche a tigela. E medita: «Esta é uma coisa em que devo pensar durante algum tempo!».

Também a árvore desenhada por Schulz, para o teólogo, representa a «natureza paradoxal do amor de Deus»: como a cruz cristã, torna-se pedra de tropeço, mas também apoio supremo. Os papagaios de Charlie Brown despenham-se sempre em cima da árvore, mas outras vezes, quando a vida parece correr mal, torna-se um excelente apoio, como Lucy procura ensinar a Linus. E Charlie Brown apoia a sua cabeça no tronco de um carvalho.

Atenção, isto não significa que cada faixa tenha um determinado significado teológico, ou qualquer intenção apologética ou mística. Mas, como recorda Short no seu livro, o próprio Schulz afirmava: «Se tu não dizes nada numa banda desenhada, melhor seria não a teres desenhado». É por isso que os “Peanuts” nos fazem tanta falta. E falta-nos alguém que nos recorde que, no fim de contas, «viver é dançar!».


 

Alberto Laggia, Elisa Chiari
In Famiglia Cristiana
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: "Peanuts" | D.R.
Publicado em 13.02.2020

 

 
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