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«Vou levar-te ao deserto para te falar ao coração»

Ao amanhecer daquele dia, dirigimo-nos para as dunas, com a intenção de saborear a frase: «Vou levar-te ao deserto para te falar ao coração» (Oseias 2,16). Logo de início, percebemos que tínhamos diante de nós várias possibilidades: olhar, escutar, sentir, compreender, caminhar de pés descalços na areia.

Escutámos o vento e sentimo-lo na pele, ameno e próximo. Em alguns lugares das dunas escutámos mesmo o vazio, escutámos o nada. Onde as dunas formavam uma concha, o vento não circulava, e o silêncio do vazio fazia-se ouvir. O nosso olhar estendia-se ao longo das dunas, repousantes e contemplativas. Despíamos o olhar de interesses para podermos contemplar a beleza oferecida por graça.

Em vários momentos, ficámos apenas rodeados pela visão da areia. O deserto é aqui. Em alguns trechos avistávamos o azul do mar, que se estendia do nosso lado direito, e a secura do sertão, do lado esquerdo. Caminhávamos na direção norte. A surpresa das dunas enche o nosso ser de admiração. O chão das dunas é sempre igual e ao mesmo tempo sempre novo.

Escutar, olhar, sentir. Onde existe o nada, a vida concentra-se no interior. A maior riqueza foi descobrir que as dunas são o lugar onde se escuta o coração. Os nossos barulhos internos vão diminuindo, e somos levados a fazer o caminho do centro. Onde não existe nada, aparece a pessoa e a riqueza do coração. O coração fala. E aí, Deus fala. No lugar onde Deus mora, escuta-se a voz de Deus. O coração fala, chora, desanima, renasce, desacredita, desconfia, sente o convite ao amor, descobre Deus, compromete-se com Ele.

Ao longo da nossa vida, chega o momento em que precisamos de perder tudo, para que o coração fale o que tem de mais precioso. Quando ao nosso lado tudo desaparece, faz-se ouvir a voz do coração, a voz da essência da vida. No encontro da pessoa e do nada, faz-se ouvir a voz da essência, a voz do fio da vida, do amor original.

O deserto é um lugar bom para calar a nossa arrogância, a nossa falta de gratidão, para resolver os nossos conflitos, para juntar e integrar o nosso ser partido, para amar o ser, para descobrir e assumir ideais, para saciar o coração. Quando desaparece tudo, o coração volta a ser o lugar sagrado, onde Deus mora.

 

E tinha uma lagoa

A caminhada não tinha sido muito longa, mas alguns já sentiam o cansaço. E, no regresso, os nossos olhos perderam-se numa lagoa de água azul, que despertou uma atração irresistível sobre os jovens. E alguns dispararam na sua direção e entraram na água e mergulharam de corpo inteiro.

Quando chegámos ao Acampamento, uma jovem procurou-me para dizer: «Padre, eu hoje percebi o que é uma tentação. Quando vi a lagoa, despertou uma força dentro de mim e eu fui e mergulhei do jeito que estava. Eu nem pensei o que estava a fazer, se a água era profunda, se havia tempo para mergulhar. Eu vi que não resisti.»

As tentações são sempre coisas que nos atraem como coisas boas. A nossa vida está cheia de «lagoas». Neste caso foi uma «lagoa de prazer» que fascinou os jovens. Mas pode ser a «lagoa do poder», ou a «lagoa do prestígio», ou a «lagoa do enriquecer», ou a «lagoa do aparecer» que exerça fascínio sobre nós. Às vezes sem pensar, e às vezes pensando muito, mergulhamos nas nossas «lagoas».

E de novo percebemos que, no deserto, Deus fala-nos ao coração, revela os nossos ídolos, os nossos falsos amores, as nossas tendências ao fechamento em nós mesmos, a nossa autossuficiência, a nossa falta de rumo, a nossa imaturidade humana e espiritual. O deserto fala-nos ao coração.

 

O coração tem memórias

As saudades do Egito eram a tentação de alguém que não queria caminhar no desprendimento, no risco, na esperança, na fé. Quando nos dispomos a descobrir algo novo e nos pomos a caminho, é muito fácil perceber que somos constituídos por memórias que nos facilitam ou dificultam a experiência do novo que buscamos. Partir em busca de algo novo pressupõe deixar o antigo para trás. E para encontrar o novo do caminho é necessário despirmo-nos de uma série de hábitos e atitudes e conceitos apreendidos anteriormente (pré-conceitos).

No deserto, Deus mostra as memórias do nosso coração, memórias afetivas que nos querem fazer viver em função do passado. Memórias de acontecimentos desagradáveis, traumas, lembranças de pessoas, mágoas, ressentimentos, constituem o nosso mundo interior. E também memórias de acontecimentos felizes, mas que hoje não podem repetir-se como foram antes.

Em função delas, pode acontecer que o nosso hoje não seja hoje, mas uma repetição do passado. Por elas, tantas vezes perdemos a esperança, queimamos projetos, desfazemos alianças, sentimo-nos mal na presença deste e daquela, isolamo-nos, fugimos ou desconfiamos, ou maltratamos pessoas inocentes, ou estabelecemos uma relação idealizada com a realidade. Percebemos que precisamos de curar as nossas memórias para que o agora seja agora, com a beleza e a verdade que ele nos traz. Para curar as nossas memórias há um caminho a fazer: acolher, conhecer, assumir, expressar, compreender, perdoar, reconciliar, integrar. Os traumas de outrora, pelo perdão e reconciliação, tornam-se acontecimentos de graça. É bom sabermos que não conseguimos fazer este processo sozinhos. Precisamos da ação de Deus em nós, para gerar as nossas disposições e a abertura ao crescimento, e para juntar o nosso ser dividido; precisamos do acompanhamento de alguém de fé e na fé; precisamos de trabalhar o nosso ser dia a dia.


 

P. José Luís do Souto Coelho, CSh
In A tua voz no meu silêncio, ed. Paulinas
Imagem: IskanderBarrena/Bigstock.com
Publicado em 07.03.2021

 

 
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