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Vida ganha, felicidade reencontrada: Por vezes basta uma palavra, uma carícia, uma ajuda

Final da missa, algumas mulheres aproximam-se do altar, os seus olhos são belos, serenos, sorridentes. Julgo entender, mas tenho medo de iludir-me. É possível? É possível que o milagre tenha acontecido? Aproximo-me, pergunto com o olhar. É mesmo verdade, a Anastácia decidiu. E está feliz. Uma história comum a muitas, a sua. Um filho não esperado que pede para ser acolhido. Um homem que lava as mãos e desaparece.

Problemas, muitos problemas, a começar pelos económicos. E a tentação serpenteia também graças aos conselhos de quem não sabe pesar as palavras e as consequências. Demasiadas pessoas – e desagrada que entre elas haja tantas mulheres – detêm-se no facto de que «o aborto é legal». E hoje, quem pode sustentar o contrário? Esquecendo, porém, que legal não é sinónimo de justo. De quantas ações “legais” a humanidade não cessa de se envergonhar?

Encontrámos a Anastácia. Sentia-se, e estava, realmente sozinha. Sozinha com o seu segredo, com o seu drama; com a esperança, talvez, de encontrar uma mão amiga. Os problemas estavam lá todos, pesados como um penedo. Inútil jogar às escondidas, deixada a si própria, naquelas condições, a Anastácia nunca teria conseguido.

Chegámo-nos à frente. Estaríamos lá para o que fosse preciso. O aborto não diz respeito apenas à fé, mas à razão, à ciência e à consciência. É demasiado fácil, e vil, lavar as mãos e deslocar o eixo do discurso para a livre escolha da mulher. Esquecendo que muitas mulheres não são de facto livres, mas obrigadas por circunstâncias facilmente solucionáveis, a optar por determinada direção. Não há nada pior do que dizer a uma pessoa desencorajada, porque atingida por um mal incurável ou numa gravidez inesperada: é lá contigo, tu é que decides.

Na segunda-feira de manhã sou despertado por uma mensagem: «Padre, não me abandones». «E quem te abandona, João?», respondo, recordando-lhe, sem fingimento, que não será abandonado porque também eu preciso dele. Basta, tantas vezes, uma palavra, uma carícia, uma ajuda concreta, e a vida volta a sorrir. Anastácia decidiu, a criança nascerá. Neste mundo tão grande haverá lugar também para ela. E enquanto fala, com a mão, acaricia a barriga grande repleta de vida, que até há poucos dias lhe fazia medo.

Ninguém se renda nesta tremenda batalha pela vida nascente. «A fraternidade é mais forte do que o fratricídio, a esperança é mais forte que a morte, a paz é mais forte que a guerra», recordou-nos o papa Francisco, Vale sempre. Todos os problemas podem encontrar uma solução, só para as crianças lançadas fora é que não há esperança. E depois é preciso educar os jovens, O ser humano é maior do que aquilo que pode acreditar. E para quem, como nós, acredita no Deus de Jesus Cristo, a confiança na Providência nunca deve faltar.

Estou a terminar de escrever este testemunho quando toca o telefone. Apresenta-se uma voz gentil, diz-me algo da sua vida e informa-me que quer fazer uma doação para as nossas necessidades. Descrevo à senhora aquilo que vos estou a descrever. A senhora está feliz. É segunda-feira, 8 de março, Dia da Mulher. Dou-me conta de que as pessoas envolvidas nesta história são todas mulheres. E estão todas felizes. O milagre da vida, que do nada explode, só pode tornar-nos felizes. Sinto que é para mim um dever fazer saborear também a quem me lê – em particular às mulheres, como presente pela “sua” festa – uma pitada desta crepitante felicidade.


 

Maurizio Patriciello
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kubais/Bigstock.com
Publicado em 09.03.2021

 

 
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