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Vida consagrada: Inquietações e sonhos de um «sim»

Um dia dissemos sim ao Senhor, pusemo-nos a caminho atrás dele. Ao longo da estrada tantas vezes fomos tentados a retomar as nossas coisas deixadas no dia em que decidimos entregar a nossa vida a Deus, outras vezes seguimo-lo sem condições.

É inegável que neste período também nós sentimos uma espécie de perturbação. Muito do nosso quotidiano desorganizou-se, e é-nos difícil reestruturar o tempo de maneira diferente. A história que nos atravessa continua, no entanto, a interpelar-nos, para verificar a fidelidade àquilo que prometemos viver. Há a urgência de pessoas que testemunhem a esperança, a alegria, a compaixão, o dom de si sem condições, a partilha, o serviço gratuito, o respeito por todos, a gratidão, a espoliação - ser livres para... -, a escuta para colocar em prática aquilo que o Espírito continua a dizer às Igrejas, às nossas comunidades, a cada um de nós.

Estamos conscientes de fazer parte desta humanidade que nos interpela, da sociedade que nos interroga também através da indiferença, da Igreja que nos pede para ser sinais segundo o Espírito? Como incarnar o carisma hoje?

Se observarmos o mundo, de que fazemos parte, também nós nos damos conta de que a pandemia está a obrigar todos a tocar os limites da sua existência, a passar dos espaços planetários virtuais àqueles estreitos humanos com os quais tantas vezes perdemos o contacto. Nota-se uma certa confusão na condução da vida, não porque das restrições devidas à pandemia, mas porque deixámos de saber estar com os pés por terra num lugar preciso... Continuamos a agitar-nos na cena deste mundo, sem saber para onde ir. Ao perder o contacto com o Espírito de Deus que nos habita, também nós, por vezes, vagueamos sem meta numa terra de ninguém. Estamos sempre em movimento, pensando que estamos em todo o lado, e na realidade não estamos em lado nenhum, nem mesmo neste tempo em que somos, de alguma forma, obrigados a deter-nos! Com a mente vagueamos para outras metas e, ao mesmo tempo, não permanecemos em contacto com a presença de Deus que está connosco, e não nos damos conta dos outros.



Neste tempo em que acumulamos tudo para sobreviver, é importante que nós, consagrados, nos tornemos continuamente dom para os outros sem condições. Quantas energias perdidas para defender o nosso tempo, as coisas privadas, as relações pessoais, os segredos, os nossos projetos...



Onde estamos na realidade, se pensamos partilhar a condição dos homens e das mulheres do nosso tempo permanecendo paralisados? Que sinal compreensível - de quem ou de que coisa - somos para todas as pessoas que já vivem connosco? Neste período muitos colocam-se perguntas existenciais, outros parecem tomados pelo medo e gostariam de sair o quanto antes desta experiência particular. E nós, que significado estamos a dar ao quotidiano normal, para que a vida, a dor, a morte tenham um sentido? Como é que nesta experiência de pandemia nos estamos a deixar instruir pelos fragmentos de verdade e de beleza presentes na nossa existência, nos outros e na criação?

É urgente colocarmo-nos à escuta de Deus, na obediência da fé, para compreender de que maneira viver este tempo. Quem dá a sua vida totalmente ao Senhor, renova a entrega de si a Ele, momento a momento e publicamente, e compromete-se a tornar visível, através da sua vida, o amor do Pai que ama cada uma das suas criaturas. Vivendo até ao fundo a parábola da existência como dom, em atitude de gratidão, acolhe as luzes e as sombras, as alegrias e os sofrimentos, a experiência do limite e do abandono em Deus. Coloca-se no sulco de Jesus Cristo, que constantemente se pôs à escuta do Pai para fazer a sua vontade.

A obediência vivida com fé é garantia do cuidado do bem comum e certeza da realização do projeto do Pai: as regras são limites para que a pessoa possa colocar-se no caminho do seguimento com paixão. Quando uma torrente transborda totalmente, perde a sua identidade e faz perdê-la aos outros. Como os diques orientam o fluxo e consolidam a identidade do mesmo rio que sacia a sede de tudo aquilo que encontra, assim a pessoa que vive com o estilo obediente tem no coração apenas a incarnação do Evangelho, para que o Senhor seja amado, e o destino da humanidade... O resto tem sentido só se for orientado para este projeto.



Se nos comprometemos com o Senhor a viver constantemente o Evangelho, porque subtraímos tempo à incarnação da Palavra e não nos tornamos testemunhas de uma vida integrada que não precisa de contínuos amparos para sobreviver, porque fundada em Cristo?



Hoje, em nome da independência confundida com a autonomia, muitos pretendem decidir sozinhos em cada questão. Falta a dimensão contemplativa da vida que nos conduz a considerar a comunidade, a autoridade, cada pessoa encontrada, os factos ou os acontecimentos, etc., mensageiros de Deus. Quando temos o coração aberto e não defendemos o nosso quintal, sentimos a necessidade de nos colocarmos à escuta dos outros, desejamos o feedback, para poder viver mais autenticamente o Evangelho.

Neste tempo em que acumulamos tudo para sobreviver, é importante que nós, consagrados, nos tornemos continuamente dom para os outros sem condições. Quantas energias perdidas para defender o nosso tempo, as coisas privadas, as relações pessoais, os segredos, os nossos projetos... Acreditamos que nos libertamos de tudo para nos tornarmos pão partido para quem está ao nosso lado e para cada pessoa que encontramos, e continuamos a reter pedaços de nós ocultos que atrofiam o ímpeto do dom de si na gratuidade.

Se nos comprometemos com o Senhor a viver constantemente o Evangelho, porque subtraímos tempo à incarnação da Palavra e não nos tornamos testemunhas de uma vida integrada que não precisa de contínuos amparos para sobreviver, porque fundada em Cristo? Se Jesus veio à Terra em obediência ao Pai, para realizar o seu projeto de amor através do dom de si até à morte de cruz, que estrada estamos a percorrer para imitar Jesus e testemunharmos, com o nosso próprio ser, com as obras, com as palavras, com os gestos e atitudes o amor do Pai?


 

Diana Papa
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 02.02.2021

 

 
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