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Pré-publicação: Via-sacra redigida por Tomáš Halík, “Encontro com Jesus no caminho da cruz”

«Jesus carregou a cruz desde o pátio de Pilatos até ao Calvário. Este itinerário é apenas uma parte de todo o caminho da sua vida. Uma vida que continua na História da sua Igreja, da Humanidade, e na história de cada um de nós. Nas nossas vidas e na nossa história, sempre e de novo, encontramos Jesus que carrega a cruz.

Muitas vezes passamos junto dele e muitas vezes não o reconhecemos. Ele vem ao nosso encontro como fez com os seus discípulos após a sua Ressurreição. Mudou. Porém, mostra-nos as suas feridas. Encontramo-lo naqueles que carregam as cruzes pesadas da perseguição, dos vários géneros de pobreza. Encontramo-lo nas feridas da queles que nós próprios ferimos, encontramo-lo também nas nossas feridas.»

Este é o ponto de partida da “Via Crucis – Encontro com Jesus no caminho da cruz na nossa vida e na nossa história” que o padre checo Tomáš Halík propõe para a Quaresma, e que a Paulinas Editora vai disponibilizar na sua página nos próximos dias.

«Iniciemos agora este caminho na peugada do Crucificado, carregando no coração todos os lugares do nosso mundo onde continua a sua história pascal. Rezemos pelo estabelecimento curativo da nossa história, da nossa memória, da nossa vontade, dos nossos corações e das nossas vidas», conclui o autor na introdução.

Apresentamos um excerto, correspondente às três primeiras estações desta via-sacra, recordando, com o autor, que «Jesus e a sua cruz não são algo de exterior em relação à nossa vida, não são um acontecimento consumado no passado, não devem ser objeto da nossa piedade sentimentalista».

Com efeito, «Jesus não nos convida para o caminho da cruz, para o chorar, mas para mudar a nossa mentalidade e o nosso agir. Quer tomar o nosso coração de pedra e dar-nos um coração de carne, realmente humano, capaz da coragem que o amor exige».

 

Via-sacra
Tomáš Halík
In “Via Crucis – Encontro com Jesus no caminho da cruz na nossa vida e na nossa história”

1.ª estação
Última Ceia

Assim como o pão e o vinho consumidos deixam de ser percetíveis aos sentidos humanos, assim também o Filho do Homem pareceria ter sido anulado.

Mas como o pão e o vinho consumidos, na realidade, não se perdem, antes dão a força ao corpo e a alegria ao coração do ser humano, assim também a morte de Jesus não é uma vã descida ao nada. A vida e a morte de Jesus, de facto, constituem o pão para o caminho do ser humano.

Jesus ceia pela última vez com os seus discípulos, naquela noite, enquanto o povo eleito faz memória da sua saída da terra da escravidão rumo à terra da liberdade. Também Jesus conduz a Humanidade rumo à liberdade e oferece-se a si próprio como alimento, para que também nós não nos detenhamos, exaustos, nem nos voltemos para trás, como fez Israel.

A liberdade que Jesus nos dá, o mundo não a pode dar. Jesus é o caminho rumo à liberdade, a verdade que nos torna livres e a vida que liberta do medo, do pecado e da morte. Quando, juntos, celebramos a Eucaristia, a Ceia do Senhor, abrimo-nos nós mesmos, as nossas vidas, as nossas comunidades e todo o nosso mundo a Cristo libertador.

Oremos por todos os famintos do nosso mundo, por todos aqueles que foram expulsos das mesas postas dos ricos e poderosos.

Oremos por aqueles que têm fome e sede de justiça, de verdade, de amor e da proximidade humana e divina.

Oremos pela Igreja, para que se torne um cenáculo aberto e acolhedor para todos os famintos.

Oremos por todos os ministros da Mesa de Cristo, para que aprendam a dar-se a si próprios e a levar ao cumprimento a sua Lei.

Oremos para que a todos os seres humanos chegue o convite de Cristo para fazerem parte da mesa comum do amor e da fraternidade.

Oremos por todos os cristãos, para que testemunhem solidariedade a todos os outros irmãos e irmãs, porque por todos Cristo carregou a sua cruz.

 

2.ª Estação
A oração da unidade

Jesus diz adeus aos seus discípulos. Estipula com eles um novo pacto que é selado com o próprio sangue.

Entrega-lhes uma nova Lei, a lei do amor: assim como Eu vos amei, assim vos amareis uns aos outros.

O fundamento deixou de ser a lei do «far-te-ei aquilo que tu a mim fizeres», passando a ser «aquilo que Deus faz por mim, eu o faço a ti!». Este mandamento não é fácil, por que temos sempre de aprender a generosidade do amor.

Deus, em Jesus, dá-se-nos a si próprio. Deus quer que também nós ajamos desta maneira. Na nossa sociedade valem outras leis, há os privilégios do poder e da riqueza. Entre vós não seja assim, adverte Jesus aos seus discípulos, antes de os enviar para este longo caminho que atravessa a História. Quem de vós quiser ser o primeiro, seja servo de todos.

Jesus não veio para julgar o mundo, mas para o salvar, e deseja que o mundo acredite. Não pede aos seus discípulos para construírem uma montanha de provas, pede-nos uma única prova, a do amor recíproco que Ele nos mostrou. Este amor devia ser imagem do amor divino, um convite a um amor fervoroso. Ninguém tem amor maior do que aquele que se dá a si próprio.

Jesus deseja que o mundo acredite no seu testemunho da verdade sobre o amor de Deus; este testemunho é verdadeiro porque Ele vive uma perfeita comunhão com Deus. A comunhão dos discípulos deveria ser imagem desta unidade, mas eles não podem estar unidos entre si se não estiverem unidos a Cristo. Devem estar unidos a Jesus como Ele está unido ao seu Pai celeste. Também nós somos chamados a fazer deste desejo de comunhão a meta do nosso agir.

Oremos pelos pastores da Igreja, pelos mestres da fé, para que verdadeiramente desejem e trabalhem com zelo por esta unidade.

Peçamos a bênção para todos aqueles que se esforçam por abater os muros dos preconceitos, por sanar as feridas do passado, para aplanar as trincheiras onde até agora permaneceram as armas enferrujadas das guerras passadas.

Oremos por todos os cristãos, para que se tornem conscientes de que em todos nós circula o mesmo sangue de um mesmo Corpo de que cada um de nós é membro.

Oremos para que sejamos capaz de tomar sobre nós a cruz de Cristo como uma ponte que supera a alienação entre nós e com Deus.

 

3.ª Estação
A escuridão do Getsémani

Deixando a luz do cenáculo, Jesus adentra-se na noite para a escuridão do Getsémani. Consigo leva Pedro, Tiago e João, precisamente aqueles que experimentaram com Ele a luz do Tabor.

No Getsémani, não há uma nuvem luminosa, não se escuta a voz de Deus, não se vê Moisés com Elias. Há momentos, no nosso estar com Jesus, nos quais não desejaríamos estar, em que não quereríamos construir as três tendas, em que não dizemos como é belo estarmos aqui… se dependesse de nós, quereríamos evitá-los ou atravessá-los o mais depressa possível, assim como para os Apóstolos, que estão de tal maneira tristes e exaustos, que adormecem. Jesus desperta-os e convida-os a estarem vigilantes e a orar.

As horas da escuridão e das provações fazem parte do caminho de um cristão, da Igreja e da História, assim como há momentos de alegria em que se experimenta uma luz superabundante e a proximidade de Deus. Se tivermos tido a graça de viver estes momentos de luz, tenhamo-los fixos na nossa memória e invoquemo-los precisamente nos momentos em que vivemos a escuridão.

No caminho pessoal, assim como naquele dramático da História, encontram-se os profundos vales da escuridão, quando sentimos o eclipse de Deus. Mas Deus não está morto, não dorme. Nas noites escuras da ocultação de Deus, é preciso viver uma tríplice paciência: na fé, na esperança e no amor. O amor sem paciência, com efeito, não é verdadeiro amor; a esperança sem paciência não é verdadeira esperança; e a fé sem paciência, quando se vive a hora sombria da provação, não está amadurecida nem é profunda o suficiente. Assim também nós podemos estar na angústia profunda e gritar para que seja afastado de nós o cálice do sofrimento. Só a sinceridade na oração torna a nossa oração uma escola na qual aprendemos a confiança, de maneira a podermos dizer «seja feita a tua vontade, não a minha».

Oremos por todos aqueles que estão a viver o seu Getsémani. Por todos aqueles que na sua vida experimentam a escuridão da cruz, a ansiedade e a dor.

Oremos por todos aqueles que estão deprimidos, pelos doentes, por quem está a morrer e pelas pessoas que estão a perder os seus entes queridos.

Oremos por todos aqueles que se encontram na dor e na tristeza, para que recebam o dom da oração e sejam assim capazes de experimentar força e paz.

Oremos por quem é chamado a viver a paciência no amor. Oremos para sermos libertados da fé superficial e imatura que quer evitar a cruz.

Oremos por todas as pessoas corajosas que aceitam e abraçam a sua cruz.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 16.03.2021

 

 

 
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