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Vencer a batalha entre virtudes e vícios

A capela Scrovegni é um daqueles lugares que devia ser de visita obrigatória para todos, pelo menos uma vez na vida. Encontra-se em Pádua, cidade que há anos pediu que esta pequena joia da arte do início de 1300 seja incluída no Património da Unesco, mas, quer a solicitação seja acolhida ou não, é sem dúvida um espaço de incrível beleza, caracterizado pelos inesquecíveis frescos de Giotto.

Entres estes, em baixo, sobre duas paredes laterais, de frente umas para as outros, catorze figuras alegóricas que representam os vícios e as virtudes: à esquerda os primeiros, ira, desesperação, inconstância, ciúme, infidelidade, injustiça, estultícia; à direita as segundas, prudência, justiça, fortaleza, temperança, fé, esperança, caridade.

É desta contraposição, a partir da pergunta «porque vale a pena refletir sobre as virtudes e os vícios?», que começa a longa entrevista que o papa Francisco deu ao P. Marco Pozza, capelão da prisão “Due Palazzi” de Pádua, e que o canal Discovery vai apresentar em Irália. Porque vale a pena refletir? «Para compreender bem em que direção devemos ir», responde o papa. Ambos existem, ambos entram na nossa maneira de agir, de pensar, de sentir… A virtude é como a vitamina, faz-te crescer e seguir por diante. O vício é essencialmente parasitário, os vícios são parasitas.»

Em síntese, diz Bergoglio, se as virtudes são alimento para cada um de nós, alimento essencial para crescer e tornar-se adulto, os vícios opõem-se a isto, corroem-nos por dentro, devoram-nos, os ossos e a alma. Basta percorrer os dois elencos acima referidos para o compreender: as virtudes enriquecem, os vícios não são mais do que perdas de tempo, e tornam-nos mais pobres, secam-nos.

E hoje, que uma pseudocultura que impele cada vez mais para os extremos considera as virtudes como supérfluas ou até insignificantes, e exalta os vícios, acaba-se por abrir um espaço infinito à superficialidade, e a viver em consequência dessa atitude.

Em setembro de 2009, durante uma audiência geral, Bento XVI sublinhada que diante da «vastidão dos vícios» espalhados na sociedade, o «remédio a propor decididamente» é o de «uma radical mudança de vida, fundada na humildade, na austeridade, no afastamento das coisas efémeras e na adesão às eternas».

Falando de Santo Odão, que foi abade de Cluny no final do primeiro milénio, Ratzinger notou que «apesar do realismo do seu diagnóstico, Odão não cede ao pessimismo». Porque ontem como hoje aquilo que deve estar sempre presente é que «a misericórdia divina está sempre disponível, na medida em que Deus persegue as culpas e todavia protege os pecadores».

Assim, diz hoje Francisco a este respeito, sobretudo neste presente em que parece que «caímos na cultura do adjetivo, esquecemos-nos dos substantivos», ninguém deve alguma esquecer que «és uma pessoa, és um homem, és uma mulher. É mais importante ser homem ou mulher do que não ter estes vícios e virtudes. Deus não ama a adjetivação da pessoa, ama a pessoa, como é. Pecadora, não pecadora, mas como é». Porque a sua misericórdia abraça todos.


 

Salvatore Mazza
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Esperança" (det.) | Giotto | Capela Scrovegni, Pádua, Itália
Publicado em 26.02.2021

 

 
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