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«Vemo-nos junto à cruz»: Para uma teologia do encontro que sublinha a humanidade e atenua as divisões

Digo aos meus estudantes que na teologia cristã o sofrimento tem grande importância. Não porque queremos glorificá-lo ou porque acreditamos num Deus punitivo ou masoquista. Dou três razões essenciais para fazer do sofrimento das pessoas um lugar privilegiado a partir do qual se pode fazer teologia.

Primeiro, é uma experiência universal. A todo o ser humano é garantido sofrimento na sua vida – por vezes profundo, talvez totalmente injusto e imerecido, em alguns casos que facilmente se resolve, noutros absolutamente irremediável. Em todo o caso, faz parte da condição humana.

Segundo, é autêntico. O sofrimento é o lugar onde só podemos ser quem somos. Ao contrário de posar para “selfies” em festas ou amanheceres perfeitamente deslumbrantes – que engrossam a falsidade nas redes sociais –, o sofrimento encontra-nos nus e vulneráveis diante de uma fratura no corpo, no coração, na alma, na mente.

Por fim, o sofrimento humano liga-nos a uma das pretensões centrais da fé cristã: Jesus Cristo, Deus feito homem, sofreu uma morte cruel e injusta na cruz.

Perante as cisões que dilaceram as sociedades, em contextos de política pré e pós-eleitoral, no desporto, no interior de comunidades de fé esquecidas do testemunho dado pelo cristianismo das origens - «vede como eles se amam» -, e em tantas outras divisões, emerge a necessidade – nem por todos sentida e defendida, é verdade – de reconciliação entre pessoas com posições radicalmente diferentes.



Nem todo o sofrimento é igual, mas todo o sofrimento é humano, e muito real. E reconheço que a minha própria humanidade está ligada à maneira como respondo ao sofrimento dos outros



Imagino que as pessoas que estão nos antípodas das minhas perspetivas de vida – de todas, ou de algumas em particular –, como toda a humanidade, experimentaram sofrimentos profundos nas suas vidas. Imagino-me a encontrar-me com elas num grupo de apoio para pais de jovens que se suicidaram, ou no funeral de alguém muito querido. Se eu acredito verdadeiramente que a cruz de Cristo tem significado universal (e acredito), tenho também de acreditar que a dor liga a nossa humanidade.

O sofrimento é o lugar onde as nossas primeiras palavras de encontro devem sempre ser: «Lamento que estejas a passar por isto. Como é que estás?». Nessas situações, as contraposições não se dissolvem necessariamente, mas dão um passo atrás e abrem espaço para a nossa vulnerabilidade partilhada.

Encontrar o outro em espaços de vulnerabilidade partilhada não implica o estabelecimento da amizade. Não cura cortes por vezes demasiado profundos, nem sequer abre espaços para começar a cooperar ou colaborar. Certamente não repara injustiças, nem sugere que passará a haver momentos de amizade baseados na partilha de objetivos pelo bem comum. Estes são alguns dos elementos que o papa Francisco sugere que podem ser os frutos de uma «cultura do encontro» quando aplicada à vida política e civil na sua mais recente encíclica, “Fratelli tutti”.

A minha proposta é muito mais humilde e muito mais vulnerável. É o reconhecimento que o sofrimento humano e momentos de vulnerabilidade partilhada podem abrir a nossa humanidade para o breve, mas ainda assim necessário, encontro que nos diz que o nosso opositor também é humano, e sim, até digno de ser amado. Reconheço que o “sofrimento” é uma categoria que está repleta de iniquidades, muitas vezes carrega as marcas de injustiça ligadas às suas causas. Nem todo o sofrimento é igual, mas todo o sofrimento é humano, e muito real.

Mais importante, reconheço que a minha própria humanidade está ligada à maneira como respondo ao sofrimento dos outros, e nisto o papa Francisco e eu estamos de acordo: «Mais cedo ou mais tarde, todos nós encontraremos uma pessoa que está a sofrer» (“Fratelli tutti”, 69).


 

A partir de texto de M.T. Dávila
In National Catholic Reporter
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Imagem: haraldmuc/Bigstock.com
Publicado em 18.11.2020

 

 
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