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Vacina anti-Covid: Ao que muito tem, muito será dado, ao que não tem, até o que tem será tirado

O jesuíta belga Marcel Rémon, matemático e especialista em estatística e nas questões Norte-Sul, denuncia que alguns países ricos estão a adquirir mais doses de vacinas anti-Covid do que as necessárias, travando assim o acesso das mesmas aos países mais pobres.

 

Lançada na primavera de 2020, para permitir um acesso igual às vacinas contra a CCovid-19, a missão Covax ainda não concretizou as suas promessas.

Pilotada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Fundação Bill e Melinda Gates, esta iniciativa internacional visava assegurar um acesso rápido e equitativo às vacinas contra a Covid-19 para todos os países, independentemente dos seus níveis de rendimento.

O projeto tinha o objetivo de vacinar gratuitamente pelo menos 20% da população dos países pobres antes do fim de 2021, para evitar que os países ricos fizessem uma razia às doses em detrimentos dos outros. A operação foi lançada em abril de 2020, num momento de grande incerteza.

Nessa altura, ninguém sabia se se iria encontrar uma vacina, e em quanto tempo. Uma trintena de laboratórios estava envolvida na investigação. O dispositivo Covax constituiu-se como uma central de compras para 172 países membros da ONU, a fim de permitir a todos ter acesso à vacina. Uma parte do dinheiro dos países mais ricos permitiu apoiar a investigação, a outra parte permitiria comprar vacinas para as redistribuir de maneira equitativa.

 

Qual é a situação atual?

No final de dezembro esperava-se poder vacinar 20% das populações do mundo inteiro. Para esse efeito, a missão Covax precisava de sete mil milhões de dólares. O que representaria 700 milhões de doses. Mas por agora só recolheu 2,5 mil milhões (ou seja, 250 milhões de doses).

A meio de janeiro, 39 milhões de doses tinham sido distribuídas em 49 países ricos, para apenas 25 doses num dos países de rendimentos mais baixos. Os países ricos, que estavam de acordo com o princípio de trabalhar juntos, não participam todos desta maneira.

Eles negoceiam, por um lado com as empresas farmacêuticas, no quadro do Covax, e por outro negoceiam por eles mesmos de maneira bilateral, colocando mais dinheiro no cesto, o que lhes permite agir mais depressa. De facto, esses países aspiram todas as doses disponíveis. Por isso deixa de haver suficientes para os países pobres, que não têm a força política e financeira que lhes permita recuperar as doses pré-adquiridas. O que fez com que os responsáveis da OMS dissessem que estamos à beira de um «fracasso moral catastrófico».

 

Os egoísmos nacionais venceram sobre o princípio da solidariedade internacional?

É difícil ter esse julgamento de valor, porque a questão é também económica e política. Por medo de faltar ou desagradar às suas opiniões públicas, alguns países compram mais vacinas do que realmente precisariam. É a atitude do esquilo: quando há penúria, tenta-se sempre precaver.

Mas ao combater entre eles para obter um máximo de doses, os países ricos esquecem totalmente as suas promessas relativamente aos países mais pobres. Estes deixaram de ser a prioridade. As vacinas suplementares colocadas em reserva não podem ser distribuídas aos que as encomendaram.

Esta questão maior é agravada por outro problema: um continente como a África só dispõe de muito poucas cadeias de produção. Ora, estas vacinas, algumas das quais só se conservem a -80 graus, são muito difíceis de transportar, porque necessitam de equipamentos de ponta, especialmente para respeitar a cadeia de frio.

 

Poder-se-á dizer que a África é o continente mais tocado por esta penúria de vacinas?

Claramente, sim. Que eu saiba, só há uma cadeia de produção na África do Sul e outra em Marrocos, instalada pela China e adaptada às vacinas chinesas. Mas também aí é preciso pessoal competente, locais adaptados e climatizados, material de esterilização, seringas… Muitos equipamentos que tantas vezes faltam em África. A questão não é portanto apenas financeira, mas também industrial. Não serve de nada ter dinheiro se não há dispensários para vacinar as populações, o pessoal cuidador, etc. É todo um sistema de vacinas que está em causa. E deste ponto de vista, a África está extremamente desprovida.

 

Ao denunciar este escândalo, ONG como a Oxfam e a Amnistia Internacional apontam o dedo às consequências do que denominam de «geopolítica vacinal». O que pensa disso?

O exemplo dos chineses que vão para Marrocos com a sua fábrica e as suas vacinas é, desse ponto de vista, muito esclarecedor. Sob o cobertura da solidariedade e da ajuda internacional, implantam-se economicamente nesse país. A maior parte dos países ricos funciona assim, desde há décadas. A ajuda nunca é desinteressada.

Um país como o Brasil recusou durante muito tempo comprar a vacina chinesa, porque o seu governo não queria depender desse país. Por realismo, tiveram de se vergar. Por seu lado, as ONG insistem que a saúde não é um bem, mas um direito que deveria escapar às regras habituais do comércio e da especulação. Elas travam um combate para ampliar a lista dos genéricos, a fim de que os países mais pobres possam ter acesso aos medicamentos.

É por isso que elas se batem para que a vacina anti-Covid seja acessível gratuitamente, ou pelo menos ao preço de custo, nos países mais pobres. Para elas, uma vacina nunca deveria ser objeto de um investimento na bolsa.

 

Em que é que esta crise é reveladora das relações desiguais entre Norte e Sul?

Esta guerra das vacinas evoca claramente uma forma de neocolonialismo. O caso da Amazónia, onde a Covid faz atualmente razias, é esclarecedor. Explorada, arroteada há anos por poderosas multinacionais, esta região para um preço muito elevado face à pandemia.

Não tendo acesso nem à vacina nem aos hospitais, as populações conhecem uma taxa de mortalidade muito significativa. Deixada ao abandono durante anos, a Amazónia não dispõe de nenhuma infraestrutura de saúde digna desse nome. Mas o problema não vem apenas da relação Norte/Sul. Ele diz também alguma coisa da relação entre ricos e pobres. No nosso país, por exemplo, as pessoas não têm facilmente acesso à saúde se vivem na rua, se são migrantes, marginalizados, sem emprego, ou se habitam num deserto médico.

Na lógica da mercantilização, há sempre relações de força, e portanto desigualdades estruturais entre aqueles que estão bem fornecidos e aqueles que são deixados ao deus-dará. Como é que estes vão poder aceder às vacinas? Não arriscarão a ser os últimos servidos?

É assim que interpreto esta palavra do Evangelho que sempre me interpelou, e que deveria questionar-nos sobre a relação entre os ricos e os pobres: «Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado» (Mateus 25,29).


 

Laurent Grzybowski
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Wladimir.B/Bigstock.com
Publicado em 05.02.2021 | Atualizado em 24.02.2021

 

 
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