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Cinema: “Uma vida escondida” chega a Portugal

“Uma vida escondida”, filme do realizador Terrence Malick (“A árvore da vida”) baseado num objetor de consciência austríaco que se recusou combater por Hitler na Segunda Guerra Mundial, e por isso foi morto em 1943, vai estrear em Portugal no dia 16 de janeiro.

Leigo, casado e pai, Franz Jägerstätter, beatificado no ano de 2007 em celebração presidida pelo então prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, o cardeal português José Saraiva Martins, é interpretado por August Diehl.

«O beato Franz era um homem do nosso tempo, um homem normal, com alguns defeitos e até por um certo período, com um estilo de vida bastante leviano e mundano. Contudo, seguindo a sua vocação e com a graça de Deus conseguiu colocar a vontade de Deus acima de tudo, chegando, após longas lutas internas a uma vida extraordinária de testemunho cristão. Pelas suas convicções de fé enfrentou a morte», recordou o prelado durante a celebração, ocorrida na cidade austríaca de Linz.

O caminho de Franz Jägerstätter «é um desafio e um encorajamento para todos os cristãos que podem tomar o seu exemplo, para viver com coerência e empenho radical a própria fé, também até às extremas consequências se for necessário. Os beatos e os santos têm dado sempre o exemplo do que significa e representa ser cristão, também em particulares momentos concretos da história», afirmou.



Com o recrutamento obrigatório, a consciência de Franz, até então sacristão na paróquia, impõe-se sobre as suas opções, e por isso recusa ir para a guerra matar. «A atuação de August Diehl é austera, silenciosa, firme, convincente. Ele é a dignidade crente»



«São comovedoras as palavras contidas na última carta enviada à sua esposa Franziska Schwaniger, em especial quando afirma: "Dou graças também ao nosso Salvador porque pude sofrer por Ele. Confio na sua infinita misericórdia; espero que Ele me perdoe tudo e não me abandone na minha última hora... Observai os mandamentos e, com a graça de Deus, ver-nos-emos em breve no Céu!”», lembrou o cardeal.

Para D. José Saraiva Martins, num tempo como o atual, «no qual não faltam os condicionamentos e até a manipulação das consciências e das inteligências, às vezes através de formas sub-reptícias que se servem das modernas e mais avançadas tecnologias, o testemunho do beato Franz, da sua indómita coragem e da sua firme e forte coerência é um importantíssimo exemplo».

«Contada através de cartas reais, escritas durante a guerra, a história descobre um casal em conflito com os habitantes da pequena localidade onde vivem, com a igreja, com as autoridades e até com os amigos. Um conflito que os levará a uma escolha dramatica», lê-se na sinopse do filme estreado em 2019, com a duração de aproximadamente três horas (173 minutos).

“Uma vida escondida” (M/14) foi distinguido pelo júri ecuménico do festival de cinema de Cannes do ano passado: «A alta qualidade cinematográfica, em termos de realização, de cenário e de montagem, permite exprimir e explorar as questões que se colocam à pessoa confrontada com o mal».

«É uma narrativa universal sobre opções que temos de fazer, e que transcendem as preocupações terrestres para seguir a voz da consciência», destacaram os jurados.



De modo a compreender um filme que, entre o acentuar dramático da sucessão de acontecimentos, convida à contemplação, «é necessário deter-se, ir além da epiderme, insistindo nos sentidos: cor, som, símbolo e mensagem»



Para o P. Peio Sánchez, responsável pelo departamento de Cinema da arquidiocese de Barcelona, «a figura crística oculta de Franz Jägerstätter coloca-se no centro do drama cósmico do pecado e da graça, coluna vertebral do cineasta-teólogo» Terence Mallick.

Na primeira parte, o espetador conhece o paraíso das montanhas onde a família de Franz reside, seguindo-se a descida aos infernos, com a consolidação do nazismo.

Com o recrutamento obrigatório, a consciência de Franz, até então sacristão na paróquia, impõe-se sobre as suas opções, e por isso recusa ir para a guerra matar. «A atuação de August Diehl é austera, silenciosa, firme, convincente. Ele é a dignidade crente.»

A «beleza» dos enquadramentos, os diálogos evocados nos monólogos em “off”, nas cartas e orações, bem como na música de compositores sacros contemporâneos, são igualmente destacados pelo sacerdote cinéfilo.

De modo a compreender um filme que, entre o acentuar dramático da sucessão de acontecimentos, convida à contemplação, «é necessário deter-se, ir além da epiderme, insistindo nos sentidos: cor, som, símbolo e mensagem», assinala o P. Sánchez.

«As personagens que não representam Jesus, mas que estão inspiradas pela sua vida, são sempre inquietantes. Agora, a Gelsomina de “A estrada” [Fellini] ou a Walt Kowalski de “Gran Torino” [Eastwood], terá que se acrescentar Franz, um camponês oculto mas transparência de Jesus Cristo», conclui o crítico.








 

Rui Jorge Martins
Imagem: "Uma vida escondida" | D.R.
Publicado em 13.01.2020

 

 
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