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Uma leitura bíblico-espiritual da pandemia: Pistas para acompanhar anúncio, testemunho e catequese

«A dado ponto – não sei dizer como – vi-me com o meu marido e os meus filhos em casa, sem poder sair como antes. E tive de me inventar como professora, cozinheira, catequista…» (V.D., empregada).

«A coluna militar, que levavam os caixões durante a noite? Quem poderá alguma vez esquecê-la? Para mim não há dúvida: aquela é a imagem da vitória da morte» (L.P., estudante),

«Chego-me à janela e olho o parque. E vem-me sempre a vontade de descer para jogar à bola com os meus amigos» (M.B., criança).

«Gostaria simplesmente de ter saudado o meu pai no último instante da sua vida. Gostaria de, ao menos, ter-lhe dito “obrigado”, ou “perdoa-me”, ou “fica tranquilo, um dia voltaremos a ver-nos”. E, em vez disso, nada disso» (S.F., advogado).

«Sim, faz-me falta poder celebrar a cada dia a missa com as pessoas. Mas, sabe? Faltou-me mais poder dizer uma palavra de conforto aos moribundos e poder celebrar o funeral com os seus familiares» (G.F., capelão).

«Enquanto punha a máscara e as luvas, pensava na minha mulher e nos meus dois filhos em casa. Mas dizia-me: “És um médico; aqueles pacientes esperam-te, o teu profissionalismo e a tua humanidade”» (S.R., médico).

«“Oração” é uma palavra forte, quando estás em casa com três crianças pequenas e uma pessoa idosa a quem cuidar. Digamos que às 7, quando ainda todos dormiam, via a missa do papa na televisão, e que à noite, com a minha mãe, recitávamos o terço. Está bem assim?» (C.L., dona de casa).

«Todos os dias ao ecrã do computador com amigos e companheiros. Mesmo que estejamos sempre juntos, posso dizer que me faltam?» (I.P., adolescente).

«Padre, mudou tudo: aconteceu algo de desmedido. Vós, padres, destes-vos conta? Se voltardes a dizer as mesmas coisas, e sempre da mesma maneira, verdadeiramente desta vez não haverá mais ninguém que vos escute» (S.C., secretária).

«Como mudarão as coisas? Como seremos? O futuro será marcado ainda por hábitos reiterados? Como será a consciência pessoal e coletiva? O que nos pede o Senhor neste tempo? Porque é que um Deus bom permite tudo isto aos seus filhos? Nas perguntas dos bispos emergiu a necessidade de uma leitura espiritual e bíblica daquilo que está a acontecer» (Conselho Permanente da Conferência Episcopal Italiana).



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O tempo da escuta

«As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (“Gaudium et spes", 1).

Assim nos ensinou o Concílio. E é com este espírito, com abertura de coração, que queremos deixar-nos interrogar pelas consequências que marcam o nosso país – e não só – no seguimento da pandemia do Coronavírus.

Dirigindo-nos idealmente quer aos crentes quer aos não crentes, como pastores queremos propor uma “leitura espiritual e bíblica” desta experiência, que nos diz respeito a todos em primeiro lugar como pessoas humanas.

Para nós, cristãos, em particular, o olhar sobre cada acontecimento da vida passa através da lente do mistério pascal, que culmina no anúncio que Cristo «ressuscitou ao terceiro dia» (1 Coríntios 15,4). Estas poucas palavras exprimem o núcleo da fé da comunidade crente, a confiança numa graça que nos foi dada, e que continua a expandir-se no espaço e no tempo. Aí para nós, o tempo dos seres humanos e a eternidade de Deus encontraram-se, tornando-se o centro da história, o critério fundamental, a chave interpretativa de toda a realidade.

É tempo de escutarmos juntos a voz do Espírito, que Jesus nos entregou sobre a cruz (cf. João 19,30) e no cenáculo (cf. João 20,22). A tarefa do Espírito é de fazer aprofundar a verdade de quanto acontece (cf. João 16,13).

Tentaremos, por isso, aproximar a nossa realidade, deixando-nos guiar pela sua voz, fazendo tesouro antes de tudo das páginas da Bíblia, que narram as últimas horas da experiência terrena de Jesus: nessas páginas está reservado um espaço aberto, em que os crentes podem encontrar novamente o Senhor, ao passo que os não crentes podem sentir acolhidas e guardadas as suas perguntas.



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O drama da Sexta-feira

«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mateus 27,46). Na narrativa evangélica o grito saído do coração de Jesus crucificado permanece momentaneamente sem resposta. Podemos imaginar que também os familiares de Jesus ou os seus amigos, quem lhe tinha ficado próximo ou quem se tinha afastado, terão feito suas aquelas palavras: «Nosso Deus, porque nos abandonaste?».

Nestes meses de pandemia, todos nos perguntámos pelo sentido de uma experiência tão imprevisível e trágica. «Fez-se escuro sobre toda a Terra» (Mateus 27,45): é como se aquelas três horas, do meio-dia às três da tarde de Sexta-feira, se tivessem agora dilatado, envolvendo o nossos mundo com as trevas do sofrimento e da morte.

A pandemia revelou a dor do mundo: produziu-a e produzi-la-á também no futuro, com consequências económicas e sociais vastas e persistentes. Trata-se de sofrimentos profundos: como a morte de pessoas queridas, sobretudo de idosos, sem a proximidade do afeto familiar, o senso de impotência de médicos e enfermeiros, a perturbação das instituições, as dúvidas e as crises de fé, a redução ou a perda do trabalho, a limitação das relações sociais.

A pandemia também despertou bruscamente quem pensava que podia dormir em segurança na cama das injustiças e das violências, da fome e da pobreza, das guerras e das doenças: desastres causados, em boa parte, por um sistema económico-financeiro fundado no lucro, que não consegue integrar a fraternidade nas relações sociais e a proteção da criação. O Coronavírus sacudiu a superficialidade e a despreocupação, e denunciou uma outra pandemia, não menos grave, muitas vezes recordada pelo papa Francisco: a da indiferença. A imagem do mundo, tintado a vermelho com base na difusão do vírus, faz pensar na imagem bíblica da terra «vermelha», porque banhada pelo sangue do irmão que «grita» a Deus (cf. Génesis 4,10).

Tudo isto é como que reassumido pelo grito de dor lançado do crucifixo para o Céu, quase uma acusação a Deus, uma dramática pergunta de sentido posta perante a morte: porquê tanto sofrimento no mundo? É uma interrogação que ressoa no coração de todos, crentes e não crentes, e que pede para ser recolhida.

No calvário, porém, há mais. Nas proximidades da cruz há algumas mulheres, o discípulo amado, o centurião, Nicodemos, José de Arimateia: poucas pessoas, é verdade, mas representantes de um resto de humanidade capaz de “estar de pé” sob a cruz (cf. João 19,25) para fazer companhia a Jesus, para o acompanhar à morte, para lhe garantir uma sepultura digna. Aquela Sexta-feira revela-se, assim, um dia não só de violência e morte, mas também de piedade e partilha.

Se olharmos o presente à luz desta cena, não podemos não reconhecer que antes de tudo os médicos, os enfermeiros, os técnicos de saúde “estiverem de pé” sob a cruz das pessoas contagiadas. Os ministros das comunidades, os colaboradores pastorais e os voluntários, os catequistas e os operadores das Cáritas aliviaram as pobrezas materiais, psicológicas e espirituais.

Os jornalistas levaram imagens e palavras de esperança às casas, aos hospitais, aos centros para idosos e às estruturas de detenção. As forças da ordem e muitos voluntários prestaram o seu serviço à coletividade com coragem e dedicação. Às normas restritivas ditadas pelas instituições nacionais e locais, os cidadãos responderam substancialmente com grande sentido de responsabilidade.

Ainda que, por vezes, não tenham faltado as dificuldades, as famílias revelaram-se espaços de relações novas, verdadeiras “Igrejas domésticas”, nas quais floresceu a oração, a celebração no tempo da Páscoa, a reflexão e as obras de caridade. Também assim se redescobriram  aquele “sacerdócio batismal” e aquele “culto espiritual”, que nem sempre recebem o espaço adequado nas vidas das nossas paróquias.

As confissões cristãs encontraram-se para alguns momentos de oração, aprofundando os tradicionais laços ecuménicos; e algumas comunidades muçulmanas e de outras religiões expressaram proximidade e solidariedade.

Vendo bem, a Sexta-feira Santa da história humana traz consigo o abismo da dor, mas também gestos novos de fé e de caridade, que aderem à fragilidade e estão atentos às relações pessoais. Nunca como agora os apelos do papa Francisco na “Evangelium gaudium” soam como um verdadeiro programa pastoral: «A realidade é superior à ideia» (n. 231); «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e suja por ter saído pelos caminhos, do que uma Igreja doente por causa do fechamento e a comodidade de se agarrar às suas seguranças» (n. 49); «devemos dar ao nosso caminho o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e pleno de compaixão, mas que ao mesmo tempo sane, liberte e encoraje a amadurecer na vida cristã» (n. 169).



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O silêncio do Sábado

«E foi sepultado» (1 Coríntios 15,4). Após a morte, Jesus deixou-se depor da cruz, estender por terra, envolver-se nas toalhas, pôr-se dentro do sepulcro, obscurecer por uma grande pedra. Aquela que o corpo de Jesus sofre é uma passividade preciosa, que revela a nossa própria passividade: viemos ao mundo porque queridos e acolhidos por outros, somos saciados, nutridos e vestidos por outros, e, no fim, já não seremos donos do nosso corpo, entregue aos outros e à terra.

Quer o queiramos ou não, somos “dependentes”, somos limitados.

O vírus desferiu um golpe fatal no delírio da omnipotência, no cientismo autossuficiente, na tendência prometeica do ser humano contemporâneo. Criou uma profunda inquietação, quase um trauma planetário, especialmente nas regiões ricas e industrializadas da Terra; um esvaecimento especular em relação ao sentido de segurança que facilmente se tornava arrogância. Inesperadamente, também esta parte da humanidade teve de acertar as contas com o limite, com a entrega de si nas mãos de outro, com uma grande pedra à entrada do sepulcro.

E assim nos demos conta, como recordou o papa Francisco, que «estamos no mesmo barco» (27 de março de 2020): não existem navios seguros e jangadas quebradas, mas uma única grande barcaça na qual poucos acreditavam poder reservar-se compartimentos privilegiados. Agora – poder-se-ia dizer – “estamos no mesmo sepulcro”: partilhamos medo e morte, ansiedade e pobreza. Todos, sem distinção, temos pressa de sair do sepulcro. Queremos ressuscitar logo após o Gólgota. Mas nesta pressa oculta-se uma tentação: a de considerar a pandemia um parêntesis mau, em vez de uma prova para crescer; um “chrónos” do qual escapar o mais depressa possível, em vez de um “kairós” a colher e pelo qual se deixar instruir.

O dia após a morte de Jesus é marcado pelo silêncio. Não um silêncio vazio, mas repleto da expetativa e da partilha.

Jesus «aprendeu a obediência das coisas que padeceu» (Hebreus 5,8). O sofrimento, que enquanto tal nunca é buscado e procurado, pode tornar-se uma escola. Nos acontecimentos dramáticos de um evento que não escolhemos, é-nos dada a possibilidade de entrar com humildade para purificar o nosso olhar e a nossa própria fé.

Nestes meses, infelizmente, foram também relançadas interpretações teológicas enganadoras sobre as origens da pandemia, apresentada como punição ou flagelo de Deus pelos pecados dos seres humanos. São interpretações que têm o sabor amargo das palavras dos amigos de Job, que, presumindo dar uma explicação “lógica”, acabam por não sentir a dor dos sofredores, e por isso não pensam segundo o Deus da Bíblia.

No silêncio do Sábado emergiu uma outra atitude incorreta: a tentação do milagre. Alguns gestos, que pouco têm a ver com a humilde pureza da liturgia, revelam sobretudo a dificuldade de permanecer no sepulcro, partilhando as perguntas e as ansiedades de cada pessoa perante a morte, aceitando dirigir-se com maturidade e atitudes humildes ao Deus que é omnipotente no amor.

A experiência deste tempo repropôs com força um outro aspeto importante próprio do Sábado Santo: o jejum eucarístico. Emergiu um sincero apego de muitos presbíteros e fiéis à liturgia da missa e à Comunhão. O laço estreito entre o Corpo Eucarístico e o corpo eclesial – daqui a célebre expressão «a Eucaristia faz a Igreja» - mostrou-se mais uma vez verdadeiro, ainda que vivido na forma da ausência. Mas a cena era insólita: de um lado, o Corpo Eucarístico era representando no altar pelos presbíteros; por outro, o corpo eclesial, na sua forma de assembleia, era obrigado a permanecer longe do altar, da mesa e da comunidade.

Tratava-se de uma separação inatural, por muito que as transmissões televisivas pudessem em parte suprir, integradas pelas celebrações domésticas. Todavia, também o jejum eucarístico prolongado pertence à experiência de permanecer no sepulcro na expetativa da ressurreição.  Da partilha das situações a que tantas comunidades cristãs espalhadas pelo mundo são forçadas, por causa da perseguição ou da escassez de sacerdotes, pode aprender-se a apreciar mais a celebração eucarística e o mandato de caridade que nos entrega: a comunhão eucarística é orientada, com efeito, para a comunhão eclesial e para o serviço prestado aos irmãos (cf. 1 Coríntios 11,17-29).

Permanecer em paz e com coragem no sepulcro não é de todo fácil: é, no entanto, uma passagem necessária para a escuta atenta dos irmãos, para uma partilha profunda da fragilidade, para a recuperação de um silêncio orante, para um autêntico confiar-se ao Senhor.



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A esperança do Domingo

«Ressuscitou… e apareceu» (1 Coríntios 15,5). O anúncio do “terceiro dia”, lançado por S. Paulo no “kérygma” [anúncio] da Carta aos Coríntios, ressoa nas formas dos hinos e das narrações ao longo de todo o Novo Testamento: as denominadas “aparições” são experiências únicas, capazes de renovar a vida em profundidade. Ao atravessar a morte, Jesus, com efeito, mudou a direção da história. Não se trata de um seu privilégio exclusivo: Ele ressuscitou como «primícia daqueles que morreram» (1 Coríntios 15,20), como «primogénito dos mortos» (Apocalipse 1,5), como o primeiro de todos, porque escancara o sepulcro de cada um de nós.

Jesus ressurge só ao terceiro dia, quando a morte já parecia tê-lo engolido para sempre, quando a pedra parecia tê-lo tumulado definitivamente. Só ao terceiro dia, porque a ressurreição é verdadeira e credível quando abraça a morte e a sepultura: o corpo de Jesus ressuscitado é plenamente “transfigurado”, porque precedentemente tinha aceitado ser completamente “desfigurado”. A sua glória resplandece, porque passou através de uma plena solidariedade com os seres humanos: recolheu todo o humano, inclusive nos seus aspetos mais horríveis.

A pandemia pôs à prova o anúncio da esperança cristã, a «feliz esperança» de que fala a liturgia. Talvez tenha desvelado também os limites de uma pregação demasiado abstrata sobre a vida eterna, apressadamente preocupada, quando não simplesmente silente, de se referir ao além sem permanecer o tempo adequado no Gólgota e no sepulcro. Apesar das tentativas de renovar o anúncio da esperança cristã (cf. Bento XVI, “Spe salvi”), permanecemos ancorados a uma conceção segundo a qual a imortalidade e a ressurreição são temas do “pós”: isto é, dizem respeito apenas àquilo que seremos após a morte. Na cultura ocidental, temas como o fim e o além foram em grande parte eliminados. A morte, embaraçante e fastidiosa, sofreu duas tentativas de neutralização: com o silêncio, ou, ao contrário, com a espectacularização. A vida eterna, com todos os seus aspetos – juízo, paraíso, purgatório, inferno, ressurreição – é banalizada ou relegada para a prateleira da evocação simbólica: duas tentativas de a excluir do horizonte terreno, das coisas humanas para as quais vale a pena apontar.

Para nós, cristãos, trata-se de uma questão de linguagem, mas é sobretudo uma questão de experiência e testemunho. A linguagem deve ser, certamente, atualizada, não só a nível teológico, mas também das práticas pastorais e da pregação; mas é sobretudo necessário saber colher os sinais da vida eterna dentro da vida terrena de cada dia.

O Evangelho de João anuncia muitas vezes q vida eterna e a ressurreição ao presente, por exemplo com as lapidares palavras de Jesus a Marta: «Eu sou a ressurreição e a vida» (João 11,25). Quem caminha para uma meta desejável aceita também as dificuldades do percurso sem perder o ânimo; quem caminha na esperança da vida eterna encontra traços de eternidade inclusive no gesto de dar um copo de água a um pequeno (cf. Mateus 10,42). Com o Evangelho na mão, o enunciado do exame final será muito simples: «Assististe-me quando tive fome e sede, estava nu e pobre, era estrangeiro, doente e recluso?» (cf. Mateus 25,31-46). Definitivamente, «no entardecer da vida seremos julgados pelo amor» (S. João da Cruz).

O anúncio da esperança cristã (cf. Romanos 5,5) é tudo menos alternativo à esperança humana: o tê-lo apresentado, por vezes, como uma recolha de verdades abstratas, desligadas da existência terrena e das suas expetativas, deu o flanco à acusação de alienação, ilusão ou fantasia compensadora. A escatologia cristã é, na realidade, uma antropologia que reclama plenitude, uma caridade que começa a tomar corpo no presente e que se orienta para o seu cumprimento. Sem este horizonte, cada gérmen de amor, cada projeto, cada desejo e sonho, romper-se-ão inexoravelmente: seria verdadeiramente uma farsa a nossa vida na Terra se bastasse um vírus ou um terramoto, uma distração ao volante ou um momento de desespero, para que tudo acabe, para sempre.

A esperança cristã funda-se na experiência que a comunidade crente faz do Ressuscitado. Oito dias após a ressurreição de Jesus, com efeito, os discípulos encontram-se no cenáculo, numa casa, de portas fechadas (cf. João 20,19). Têm uma perceção angustiosa do risco que correm fora daquele ambiente, que agora sentem como seguro, mas que a longo prazo sabem que é demasiado estreito. O Ressuscitado vai até eles no ambiente fechado em que se refugiaram: o encontro acontece antes de tudo no primeiro dia após o “shabbat”, ou seja, o primeiro dia de trabalho após o do repouso e da festa. O Ressuscitado vem para ativar processos de vida evangélica no tempo quotidiano dos discípulos.

Não se diz quanto tempo esteve com os discípulos: pode presumir-se que tenha estado o tempo necessário para os serenar, para lhes fazer uma catequese sobre os mistérios da fé, e para os motivar a um novo estilo de vida.

Se, por um lado, o trauma da morte violenta de Jesus tinha desorientado os discípulos e os tinha feito enclausurar-se em si próprios, por outro tinha, paradoxalmente, suscitado perguntas, como a de Tomé – «se não vir nas suas mãos o sinal das chagas, e não meter o meu dedo na marca das chagas, e não meter a minha mão no seu lado, não acredito» (João 20,25) –, que encontram agora resposta uma resposta no Ressuscitado.

O acontecimento da ressurreição de Jesus coloca o nosso desejo de vida num horizonte de possibilidade real. A sua ressurreição comporta a definitiva transfiguração do corpo, a entrada da carne na dimensão divina. O seu corpo terreno foi investido pelo Espírito e glorificado, antecipando a ressurreição final de cada um de nós: «A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas vezes parece que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e crueldades que não cedem.

Mas também é certo que, no meio da obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invencível. Haverá muitas coisas más, mas o bem sempre tende a reaparecer e espalhar-se. Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada através dos dramas da história. Os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis. Esta é a força da ressurreição, e cada evangelizador é um instrumento deste dinamismo» (“Evangelii gaudium”, 276).



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Por um caminho criativo

Uma leitura pascal da experiência da pandemia não pode perspetivar o simples regresso à situação de antes, fazendo votos para retomar o arado onde se fora obrigado a deixá-lo.

A experiência da Sexta-feira e do Sábado Santos – a permanência na cruz e no sepulcro – não pode continuar a ser vivida pelos cristãos como um parêntesis a fechar o mais depressa possível; deve, antes, tornar-se uma parénese, isto é, uma exortação, um convite a amadurecer uma existência diferente. Ressoam ainda as palavras do papa Francisco: «A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades» (Evangelii gaudium, 33).

A cruz e o sepulcro podem tornar-se cátedras que ensinam todos a mudar, a converter-se, a prestar ouvidos e corações aos dramas causados pela injustice e pela violência, a encontrar a coragem de pôr gestos divinos nas relações humanas: paz, equidade, mansidão, caridade. São estes os gérmenes de ressurreição, as candeias do Domingo, que tornam concreto e credível o anúncio da vida eternal.

Se tivermos aprendido que tudo é dom, se daqui surgir um novo estilo pessoal e comunitário, que renuncia à lamentação e à arrogância, e adota a partilha, o agradecimento e o louvor, então a pandemia ter-nos-á ensinado algo de importante. Tê-la-emos vivido, lido e elaborado escutando o Espírito e participando no mistério da Pascoa de Jesus, crucificado e ressuscitado.

Voltemos a partir, então, como comunidade eclesial, seguindo os passos dos seres humanos do nosso tempo, animados pela ternura e compreensão, por uma esperança que não desilude.

 

Texto e imagens: Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, Anúncio e Catequese da Conferência Episcopal Italiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 25.06.2020

 

 
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