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Uma imagem “sagrada” em tempo de pandemia

Uma imagem, que na sua imediatez diz aquilo que mil palavras teriam dificuldade em dizer, vai ficar, provavelmente, entre aquelas que levaremos connosco até ao fim (e para além) deste tempo sombrio, a partir do qual esperamos ser restituídos à nossa normalidade.

Um bebé de sete meses está na sua cama, na reanimação pediátrica de um hospital italiano; junto dele aninha-se uma figura equipada como um astronauta, uma das muitas que aprendemos a reconhecer nestes meses como estando na primeira linha na trincheira do Covid-19, que o sossega o acaricia.

Não tem rosto, está oculta pelas proteções, a imagem não diz sequer se é homem ou mulher, ainda que surja com naturalidade a associação de ideias com o instinto materno. Na mão esquerda uma chupeta, a direita acaricia.

Por trás dos óculos e da viseira cruzam-se os olhares. O bebé está tranquilo; uma voz calma que não podemos ouvir sossega-o. A sua mãe, naquele momento em isolamento, como ele, não pode estar onde deveria. Mas o bebé não está só.

Não há nenhum contrato de trabalho que contemple a obrigatoriedade de aninhar-se na cama de uma criança que não seja a sua, nenhum contrato prevê uma “maternidade” deste género.

Mas esta imagem diz que o trabalho espelha aquilo que se é, diz que esta trágica doença está a pôr-nos à prova e nos expõe no que temos de mais profundo. Mostra-nos, à semelhança de todas as experiências extremas, no bem e no mal, o lado mais verdadeiro e menos vigiado de nós.

Por vezes acontece que uma fotografia imprevista, como é o caso, mostra o nosso lado melhor sem que disso nos demos conta. Seguramente que aquela enfermeira sem rosto (hoje sabemos quem é, mas talvez seja mais importante que permanece um símbolo) não imaginava que alguém (um anestesista como um telemóvel, não diretamente, mas através do monitor de controlo) tivesse obtido aquele instante.

Ela simplesmente fez aquilo que o instinto e a experiência lhe impeliram a fazer para aliviar um momento de solidão a um pequenino demasiado pequenino para dar voz à sua desorientação. Quem sabe quantas outras vezes, na sombra dos anos de trabalho, sem que ninguém o tivesse notado, fez o mesmo. Quem sabe quantos outros, nestas horas, o estão a fazer.

Para quem acredita em Deus, esta imagem tem o poder da misericórdia evangélica, a força icónica de uma imagem sagrada: «Aquilo que fizestes a algum destes pequeninos, a mim o fizestes». Para quem acredita e não acredita, é um poderosíssimo e inequívoco ato de dedicação à causa da humanidade. A substância é a mesma. O valor é igualmente universal.

P.S.: Sabemos que esta história obtida quase por acaso acabou bem, que o bebé está agora em casa e está bem, e que a sua mãe partilhou a imagem para agradecer a quem se ocupou dele.


 

Elisa Chiari
In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 30.03.2021

 

 
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