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Leitura: “Tráfico de seres humanos – Testemunhos e documentos”

«A leitura deste livro incomoda ao colocar-nos perante a realidade sobre a qual é necessário um olhar evangélico.» Talvez não seja este o melhor cartão de visita para uma leitura pacificadora, mas a realidade é também indesmentível, cruel e perturbadora. Por isso, “Tráfico de seres humanos – Testemunhos e documentos” (196 páginas), coordenado por António Silva Soares, o mais recente volume da Editorial Caritas, é uma «denúncia profética» que dá corpo a uma «necessária luta» para que os cristãos não caiam no «reino da indiferença», como sublinha no prefácio o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, o bispo D. José Traquina.

O primeiro capítulo, “Padre Abel Varzim – Na luta de hoje pela dignidade humana”, assinado pelo jornalista e investigador Licínio Lima, começa com a evocação de um episódio: «“E se riscássemos o passado?”… Eis a pergunta desesperada do padre Abel Varzim perante a dificuldade em encontrar ajuda para uma prostitua que desejava ser “mulher como as outras”. Era uma mulher, uma pessoa, mas estava catalogada… Era o que os outros nela viam ser…».

“Tráfico (des)umano”, por Cláudia Pedra, fala de um «crime» que é «complexo e silencioso»: «As pessoas trabalham ou em completa escravatura, sem receber um cêntimo, ou por valores irrisórios, por longas horas e em condições deploráveis. (…) As pessoas são traficadas para exploração laboral, exploração sexual, prática de crimes, mendicidade, adoção ilegal, tráfico de órgãos e servidão doméstica». Dramas que o papa Francisco chamou a atenção em fevereiro, ao dedicar a intenção de oração deste mês ao «acolhimento generoso das vítimas do tráfico de pessoas, da prostituição forçada e da violência». Cláudia Pedra redige um segundo artigo, intitulado “Uma dura realidade escondida”.



No contexto cultural de individualismo, consumismo e indiferença em que vivemos, a leitura deste livro oferece outro registo e outra proposta: um olhar interessado pela realidade humana, uma interpretação personalista cheia de sensibilidade por tudo o que são as 'novas' escravaturas humanas e um desafio a não ficarmos na quietude de uma falsa paz da consciência



A Ir. Gabriela Bottani detém-se no “Tráfico e migrações” que afetam sobretudo os mais novos: «Temos crianças que nascem em contexto de exploração, e no seio de famílias que têm dívidas, que foram traficadas para trabalhar nas minas de ouro (…). O pai e a mãe encontram-se em escravidão por dívidas que contraíram e que têm de pagar, pelo que se encontram em situação de grande dependência. Ou seja, os seus filhos já nascem em situação de dívida dos pais – crianças geradas em contexto de escravidão».

“Mulheres acompanhadas pelas Irmãs Oblatas” (Pura Gonzalez, Helena Fidalgo) começa por recordar a fundação da congregação nascida no ano de 1864, em Madrid, «como resposta à situação em que viviam muitas mulheres excluídas, em consequência do exercício da prostituição», e de seguida apresenta quatro testemunhos de pessoas escravizadas. O último termina assim: «Dói-me muito o passado. Tenho sentimentos mistos de tristeza, culpa, fracasso, frustração, perda de afetos. Quem me dera poder apagar a minha história. Mas, tenho de viver com ela e olhar para o futuro acreditando que se pode viver melhor».

Inês Fontinha, presidente d’O Ninho, fala da instituição particular de solidariedade social, católica, fundada em Portugal em 1967, seguindo o modelo da homóloga francesa. «O Ninho ajuda a consciencializar as pessoas prostituídas da sua situação e faz a reinserção através do trabalho, da escolaridade, de promoção individual e de grupo. (…) Todos os seres humanos querem amar e ser amados, dar-se e não vender-se. Por isso, pensar que a prostituição existiu, existe e existirá sempre é negar ao ser os seus direitos, é negar a dignidade, é desacreditar a possibilidade da liberdade existir.»



A informação que este livro oferece sobre esta grave violação, incomoda-nos não só pela falta de verdade e de humanismo no mundo, mas também pela diversidade de contextos, formas e meios utilizados no tráfico e exploração da pessoa humana



Pedro Vaz Patto reflete sobre “Questões jurídicas do tráfico de pessoas”, enquanto que a Ir. Júlia Barroso recorda excertos das intervenções do papa Francisco sobre o comércio de seres humanos. Na segunda parte, transcrevem-se documentos de organismos católicos sobre o tema do livro.

 

Prefácio
D. José Traquina
In “Tráfico de seres humanos – Testemunhos e documentos”

Felicito o Forum Abel Varzim, pela publicação deste livro sobre o "Tráfico de Seres Humanos", em parceria com a Comissão de Apoio às Vítimas de Tráfico de Pessoas e a Editorial Cáritas. Trata-se, pois, de um assunto grave na sociedade contemporânea em Portugal e no mundo. Estas breves palavras em forma de prefácio, não têm a pretensão de corresponder a uma apresentação exaustiva da obra, mas refletem com verdade o impacto que em mim causou a leitura.

O contributo dos diversos autores deste livro, oferece uma informação importante e preocupante sobre a realidade social no mundo contemporâneo, no que respeita ao tráfico de pessoas humanas. No contexto cultural de individualismo, consumismo e indiferença em que vivemos, a leitura deste livro oferece outro registo e outra proposta: um olhar interessado pela realidade humana, uma interpretação personalista cheia de sensibilidade por tudo o que são as 'novas' escravaturas humanas e um desafio a não ficarmos na quietude de uma falsa paz da consciência.

O Padre Abel Varzim deixou-se transformar ao longo da vida pela Palavra do Evangelho que ele mesmo comunicava. É referência obrigatória de uma sensibilidade que permite ver com outra luz e com outra profundidade; uma sensibilidade que vale a pena conhecer e cultivar. Não era apenas um comunicador. O Padre Abel Varzim era o Evangelho em pessoa vivido no meio de dificuldades diversas, com a consciência de que ninguém transforma coisa alguma neste mundo se primeiro não se transformar a si mesmo. O seu olhar sobre a realidade das mulheres prostitutas no Bairro Alto, em Lisboa, na área geográfica da sua Paróquia onde tinha responsabilidades pastorais, é a continuidade do olhar e da consideração que Jesus teve sobre a mulher pecadora que uns homens apanharam e apresentaram para que Ele a condenasse (cf. Jo 8,1-11).



A maior parte das vítimas têm entre 14 e 26 anos. Muitas vezes a situação acontece à nossa frente e não vemos. Primeiro, porque temos preconceitos. As pessoas acham sempre que as vítimas são ignorantes, muito pobres, ingénuas, vindas de países em desenvolvimento, oriundos de uma aldeia qualquer



"O Tráfico de Seres Humanos (TSH) é uma das mais graves violações dos direitos humanos do século XXI". A informação que este livro oferece sobre esta grave violação, incomoda-nos não só pela falta de verdade e de humanismo no mundo, mas também pela diversidade de contextos, formas e meios utilizados no tráfico e exploração da pessoa humana.

Os traficantes e exploradores de seres humanos, são oportunistas da desgraça que se aproveitam das situações de pessoas em fragilidade, pobreza e insegurança para delas se apropriarem e explorarem. "Na verdade, nunca tivemos tantos marginalizados, tantas pessoas consideradas inúteis que se tornam interessantes para a escravatura - são milhões".

Para os traficantes impera o poder e a ânsia pelo dinheiro, e o meio utilizado é sempre a mentira. Nos últimos anos, segundo informação da Interpol, as verbas conseguidas no tráfico de seres humanos, aumentou e "está cada vez mais próxima dos ganhos com o tráfico de drogas e de armas".

Os diversos testemunhos que a leitura deste livro nos oferece, constituem um interessante conteúdo para reflexão a partilhar em grupo, sem esquecer os jovens a quem não se deve esconder as diversas promessas e seduções utilizadas pelos traficantes e exploradores de seres humanos. "A maior parte das vítimas têm entre 14 e 26 anos. Muitas vezes a situação acontece à nossa frente e não vemos. Primeiro, porque temos preconceitos. As pessoas acham sempre que as vítimas são ignorantes, muito pobres, ingénuas, vindas de países em desenvolvimento, oriundos de uma aldeia qualquer. A verdade é que essas pessoas são traficadas. E tende a aumentar o número de pessoas instruídas apanhadas por essas redes".



A publicação que agora se apresenta é um ato de coragem para desafiar a verdade acerca do tráfico e exploração de seres humanos também na cidade Capital, revelando que Portugal necessita de leis adequadas para defender as pessoas vítimas desta tragédia humana



Uma das consequências do tráfico humano é a situação permanente de medo em que a pessoa traficada se encontra. Medo pelas consequências de represálias na sua própria vida e medo pelas consequentes ameaças aos seus familiares. O medo é diabólico, tolhe a pessoa traficada e escravizada e deixa-a sem capacidade de mudança de estatuto social. Porém, existem exceções, e este livro oferece-nos interessantes testemunhos de quem conseguiu coragem para enfrentar o demónio escravizador da vida.

A realidade humana aqui denunciada oferece também uma leitura sobre o que se passa em Lisboa, continuando a mesma sensibilidade do Padre Abel Varzim que não conseguia ser indiferente à exploração humana. A publicação que agora se apresenta é um ato de coragem para desafiar a verdade acerca do tráfico e exploração de seres humanos também na cidade Capital, revelando que Portugal necessita de leis adequadas para defender as pessoas vítimas desta tragédia humana.

O que faltou na formação de muitas pessoas que continuam a cultivar e a promover a escravatura humana? Porquê assim tanta indiferença? Estamos perante uma leitura que nos é proposta por pessoas responsáveis, com grande sensibilidade de olhar e capacidade para interpretar e decidir profeticamente. Os autores desta obra, além da denúncia profética, revelam também o cuidado pelo outro que é frágil e necessita de um novo olhar, consideração e atenção. Dão um contributo positivo para erradicar aquilo que o Papa Francisco chama a "cultura do descarte".

As várias pessoas e instituições intervenientes com diversos contributos para este livro, constituem um bom testemunho de observação, análise e partilha. Permite-nos abordar o problema em plano global e nacional - "Portugal ocupa o 9° lugar na Europa, com uma estimativa de 12.800 pessoas em situação de escravatura” - e ainda conhecer instituições diretamente envolvidas na libertação de pessoas traficadas e exploradas.



Ver, tecer considerações, emitir pareceres é importante, mas insuficiente se não nos envolver num dinamismo libertador do mal que existe e oprime a humanidade



Concede-nos ainda esta publicação retomar a sensibilidade do Papa Francisco que já há muito se preocupa com o tráfico de seres humanos, definindo-o como "uma verdadeira forma de escravatura que, dolorosamente, se tem difundido cada vez mais, que atinge todos os países, inclusive os mais desenvolvidos, e que afeta as pessoas mais vulneráveis da sociedade: mulheres e jovens, meninos e meninas, deficientes, os mais pobres e as pessoas que vêm de situações de desintegração familiar ou social ( .. ). Não podemos permanecer indiferentes perante o conhecimento de que os seres humanos estão a ser vendidos e comprados como objetos.”

A leitura deste livro incomoda ao colocar-nos perante a realidade sobre a qual é necessário um olhar evangélico, a exemplo do Padre Abel Varzim: "Eu não vim para julgar o mundo mas para salva-lo" ao 12,7). Ver, tecer considerações, emitir pareceres é importante, mas insuficiente se não nos envolver num dinamismo libertador do mal que existe e oprime a humanidade. Está patente uma necessária luta para não nos deixarmos cair no reino da indiferença e um desafio espiritual para nos colocarmos na escuta de um Deus Criador que não desistiu da criatura que é sua imagem e semelhança.

Como afirmava o Padre Abel Varzim, as pessoas não podem ser consideradas como 'escravas de um destino'. Somos criaturas de um Deus que é Pai e nos enviou Jesus para que todos "tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10). Desejo, pois, que esta publicação tenha grande acolhimento e suscite interpelações que iluminem o caminho a seguir.








 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 27.02.2019

 

 

 
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