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«Toda sois formosa, ó Maria»: A Imaculada glorificada em palavras e partituras

«Tota pulchra es Maria/ Toda sois formosa, ó Maria», «Toda sois bela». Assim começa uma antífona medieval dedicada à Imaculada: «Toda sois formosa, ó Maria / E a mácula original não há em ti». A letra da antífona conjuga inspiração bíblica com a teologia franciscana da Imaculada Conceição.

Nela ecoa a exclamação jubilatória do Amado à Amada, no Cântico dos Cânticos: «És toda bela, minha amada, e não tens um só defeito» (Ct 4,7). Só o amor do amante porque reconhecer a bondade da pessoa amada. Porque o amor sincero dos amantes é elevação recíproca, mútuo engrandecimento e agraciamento. A dimensão sublime do amor dos amantes projeta-se na Imaculada, ela a amada de Deus, a «tota pulchra». Está também presente na antífona o eco da exclamação vitoriosa do povo de Israel pela coragem da jovem Judite que vence o invasor e seu violentador Holofernes. O povo, os sacerdotes e os anciãos cantam: «Tu és a glória de Jerusalém! Tu és o supremo orgulho de Israel! Tu és a grande honra da nossa raça» (Jd 10,9).

A liturgia da Igreja latina canaliza estas exclamações jubilatórias do Antigo Testamento na Virgem Imaculada: «Alegria de Israel», «Honra do nosso povo», «Advogada dos pecadores». E suplica-lhe, em tom filial: «Mãe Clementíssima rogai por nós». Esta prece suplicante dá voz à súplica de cada um de nós e de toda a Igreja que à Vigem Imaculada se confia neste dia, e sempre: «Intercedei por nós a Nosso Senhor Jesus Cristo». Esta oração é expressão da confiança do povo cristão na ternura materna da Mãe do Filho de Deus.










Todas as épocas, com os seus diferentes estilos musicais e recursos técnicos, reinterpretaram o texto da antiga antífona latina, dando nova vida na criatividade da inspiração artística, fazendo da música uma autêntica liturgia de louvor, mesmo quando a mesma perde a sua inserção cultual e se torna espetáculo. Entre a suavidade da melodia gregoriana das vozes masculinas à recente interpretação (de 2009) do compositor contemporâneo inglês, o católico James MacMillan, Tota pulchra es Maria une a diversidade de estilos no mesmo louvor à Virgem. Desde a polifonia do flamengo Orlando de Lassus à solenidade do motteto a quatro vozes do austríaco Antón Bruckner, com o diminuendo e o pianissimo finais. Sem esquecer a melodia intimista e a harmonia expressiva (1840) do prussiano protestante Robert Schumann: a Imaculada Conceição a fazer o seu caminho de diálogo ecuménico pela música germânica do século XIX. Quem diria?! E, claro, com paragem na peça delicada composta em 1783 pelo carioca mulato, descendente de escravos, o P. José Maurício Nunes Pereira. Maravilhamo-nos com a versão à capella do francês Maurice Duruflé, um dos quatro motetos sobre temas gregorianos (1960), unicamente composta para vozes femininas (celebração da Mulher Maria por mulheres sopranos e altos): um louvor feminino à pureza e à inocência da Virgem Imaculada.










Maria, a Virgem Imaculada, é a Virgem de Nazaré surpreendida por um Anjo no espaço de sua casa, na periférica e perdida aldeia de Nazaré, nas montanhas da Galileia. Acompanhando a narrativa de Lucas, podemo-nos imaginar voando nas asas do Anjo Gabriel, descendo das profundezas do Deus em seu mistério de amor ao quotidiano doméstico da jovem noiva: «o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria». E com o Anjo, ajoelhado a seus pés (porque a Serva do Senhor é a Rainha dos Anjos), como imaginou a Catarina, também nós, ajoelhados, a saudamos, com júbilo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».

«Avé, cheia de graça». Em Maria se contempla e se realiza o sonho de Deus querido para a humanidade: uma humanidade que se cumpre, inteiramente, na bondade e na beleza, no acolhimento e no dom, que responde fiel, numa escuta obediente à Palavra do Senhor. Mulher intacta, sem fissuras; nela não há vírus de violência, de ódio, de injustiça, de acusação, de mentira e de falsidade. Inteiramente coração puro, beleza de ser e de responder. O belo e o bom da criação original nela se cumpre, nela se revela, nela responde sem pecado, sem deformação. Ela é a beleza original da criação, querida por Deus, renovada e salva na madrugada da Páscoa de Cristo. Ela é a possibilidade realizada de uma humanidade agraciada, sem pecado, plena de graça. Ela é a pura bondade de ser traduzida em bondade de agir. Porque preservada da cadeia do mal que fere a história humana e a todos debilita. Plenamente agraciada, Maria é a mulher do sim fiel, tão livre e responsável: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».










«Avé, cheia de graça, o Senhor está contigo». Aqui estamos, nós também, para a saudarmos a Imaculada Conceição. Na liturgia de oito de dezembro se proclama que antes do pecado está a graça incontida, abundante, transbordante com que Deus nos agracia e nos plenifica. A história da salvação é uma história de amor gratuito, primeiro e incondicional. O amor que dá vida do Pai vem a nós como pura graça e nos gratifica, nos agracia, nos torna formosos e graciosos. O pecado, por mais dramático que possa ser, é um acidente de percurso. Não temos origem no mal (no pecado) nem estamos destinados a um mal sem fim.

Na Virgem Imaculada contemplamos a nossa origem e o nosso destino, o amor gratuito do Pai que se derrama no Filho feito homem, na fecundidade do Espírito Santo. A «cheia de graça» por nós intercede para que nos cumpramos na graça (do dom do amor gratuito de Deus) e de graça, na dádiva de nós mesmos. Porque viver é um mistério de graça, de receber e dar, na gratuidade do dom que se torna em nós vida que gera vida.










Belas páginas escreveu George Bernanos sobre a Virgem Imaculada na sua obra-prima Diário de um Pároco de Aldeia. Após um frugal jantar apressado regado com mau vinho, o jovem e doente pároco de Ambricourt recebe, contra a sua vontade, a inesperada visita do velho prior de Torcy, paróquia vizinha, apanhando-o, literalmente, com a boca na botija (na garrafa de vinho, que com o susto se quebra no chão...). Há visitas que nos batem à porta quando queremos estar em paz. O diálogo entre o ancião padre e o jovem sacerdote «descamba» para uma conversa aparentemente muito beata: «Costumas rezar à Virgem Maria?...»; «Essa agora!», responde, surpreendido, o jovem padre. «Essa agora!», também diria eu.

Insiste o ancião presbítero: «Mas rezas como deve ser? É a nossa mãe, claro está! É a mãe do género humano, a nova Eva. Mas também é a sua filha. O antigo mundo, o mundo doloroso, o mundo antes da Graça, embalou-a por muito tempo sobre o seu coração desolado – séculos e séculos – ma esperança obscura, incompreensível de uma virgo genetrix. Durante séculos e séculos protegeu com as suas velhas mãos carregadas de crimes, com as suas pesadas mãos, a rapariguinha maravilhosa de quem não sabia sequer o nome. Uma rapariguinha, Rainha dos Anjos». A Virgem filha da esperança da humanidade dilacerada pelo pecado; a rapariguinha que o velho mundo embalou, sem o saber. Maria, Mãe e filha da humanidade.










Continua o velho prior de Torcy, como que a querer convencer o jovem doente padre a rezar, confiadamente, à Virgem Maria: «Ninguém viveu, ninguém sofreu, ninguém morreu tão simplesmente e numa ignorância tão profunda da sua própria dignidade, de uma dignidade que a coloca no entanto acima dos anjos». «A infância corre-lhe sempre das entranhas»; «o olhar da Virgem é o único olhar verdadeiramente infantil, o único olhar de criança que se ergue para fitar a nossa vergonha e a nossa desgraça». Olhar de consolação. «Para rezar à Virgem precisamos de sentir sobre nós esse olhar». Ela, a Virgem que nos olha, a rapariguinha filha da velha humanidade, rasga poeticamente Bernanos, é «mais jovem que o pecado, mais nova que a raça de que proveio, e ainda que Mãe pela graça, Mãe das graças, o benjamim do género humano»: a filha mais nova da humanidade.

E essa imagem da Virgem-Criança surgia ao doente e pobre padre «a todo o momento diante dos seus olhos».

Virgem-Criança, ícone da infância pura, da nossa inocência original, expressão da humanidade saída da vontade amorosa de Deus. Mulher filha da nossa esperança, e Mãe de todos nós, «mais jovem do que pecado», «mais nova que a raça de onde proveio». «Mãe Clementíssima rogai por nós».









Imagem © Duarte Castel-Branco / Catarina Castel-Branco

 

António Martins
Capela do Rato
Imagem: © Duarte Castel-Branco / Catarina Castel-Branco
Publicado em 15.12.2020

 

 
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