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Tibete e(m) Fátima

Nós alimentamo-nos da força da narrativa que transmitimos uns aos outros por meio dos nossos encontros ou desencontros, assim como da memória que nos impregna. Apercebemo-nos que, por muito estranho que pareça, tudo está interligado e nós somos fios de uma rede imensa que se espraia até ao infinito. E as palavras, embatendo no infinito, regressam com novos rasgos de alimento espiritual, parafraseando o sussurro de um amigo meu que amava profundamente a sua esposa debilitada pela doença e os seus sete filhos, que sofria por não ter quem escutasse os seus lamentos e passava as noites a escrever poemas em folhas soltas que eu guardava escrupulosamente no bolso, depois de mais uma «noite branca». Tudo interligado! É por isso que a minha caminhada, antes do nascer do dia, pela Via Sacra, em direção ao Calvário Húngaro, em Fátima, me transporta para as montanhas tibetanas e para aquele povo que acolhia o estrangeiro, quando eu peregrinava pelas altitudes da imensidão tibetana, pernoitando em grutas, em casas de camponeses, em tendas de seminómadas ou em gompas (templos budistas tibetanos).



Imagem © Adelino Ascenso

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Recordo aquela pequenina aldeia que tinha no seu centro uma gompa, lugar onde pernoitei. Os habitantes do templo eram apenas um monge idoso e um jovem noviço, ainda criança. Deitei-me no meu saco-cama enquanto eles recitavam, repetidamente, «om mani padme hum», e assim adormeci; quando despertei, já eles estavam sentados no mesmo lugar recitando a mesma litania como se não tivessem saído dali nem tivessem interrompido o seu ato piedoso; como se se tivessem, eles próprios, transformado em mensagem. Nascia o dia e eu via o fumo do chá amanteigado a serpentear pela sala, num rodopio que mais parecia uma dança em harmonia com os sons dos cânticos dos dois monges, e sentia o odor a fumo e ranço, tão característico do Tibete. Ali estava um belo encontro; uma bela imagem que se fazia memória. Uma atmosfera sublime com sabor a chamamento e me levava a colocar as mãos em atitude de oração.



Imagem © Adelino Ascenso

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Mas o meu ímpeto de peregrino não me permitia permanecer ali. Recordava as palavras de Maurice Blondel (1861-1949), na sua obra L’Action: Deus não se encontra onde permanecemos, mas sim sempre para além do nosso caminhar. A minha busca não estagnava, pois outros trilhos me atraíam irresistivelmente. Despedi-me e comecei a descer a escadaria íngreme de madeira. Um descuido e um passo em falso foram suficientes para a queda aparatosa. Ainda tive tempo de ver o rosto horrorizado de uma velhinha, como que a adivinhar o que estava para acontecer. Levantei-me imediatamente, ajeitando a mochila sobre os ombros e acenando como se nada tivesse acontecido. O pé torcido ainda não doía verdadeiramente. Foi apenas mais tarde, nesse mesmo dia, que, não aguentando mais as dores, me deitei sobre as pedras e a relva, observando o céu azul, sentindo o sol que já me queimara a testa e o nariz e escavara a pele até fazer ferida. Refletia sobre a razão de eu estar ali, no meio daquelas montanhas pacientes, sozinho e cheio de dores, e as lágrimas teimavam em molhar-me as pálpebras. Porquê? É em tais situações que a pergunta é tão pungente que não há resposta que satisfaça. Que ímpeto me chamava, como se as montanhas fossem um gigantesco íman? O infinito! Ah, sim, o infinito! O tomarmos consciência da nossa insatisfação com o finito deve apontar sempre para o infinito, sentindo Deus como uma ação constante, motor da nossa atividade mais perene e mais verdadeiramente humana: uma atividade livre das teias do comodismo e das peias do indiferentismo.



Imagem © Adelino Ascenso

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Existimos e agimos, mas uma dolorosa distância separa a realidade das nossas esperanças. É essa distância que nos pode fazer «desistir» ou «desafiar» a que sejamos ousados; é a consciência de tal distância que nos deverá levar a lavrarmos terrenos em pousio, sejam eles constituídos por buscadores desesperados, ateus amargurados, crentes desiludidos ou indiferentes resignados. O nosso arado precisa de sulcar esses terrenos, por muito cascalho, muita lama e muito granito vá encontrar no caminho. Poderá dizer-se que já não passeamos descontraídos por terrenos de cristandade. E talvez isso seja bom para a Igreja, pois é nas dificuldades que ela se robustece.



Imagem © Adelino Ascenso

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O ato de lavrar a terra pressupõe aquilo a que o Papa Francisco não se cansa de nos exortar: uma verdadeira saída de nós mesmos e da nossa autorreferencialidade. De facto, a vida é uma saída contínua, que implica movimento, abertura e encontro, muitas vezes no contexto de contornos surpreendentes e gélidos. Tal saída terá de ser audaz, convicta e convincente, baseada no paradigma da escuta e do testemunho. Sim, porque o mergulhar o arado em terrenos obscuros ou inóspitos exige o abandono de nós mesmos. E exige, igualmente, a intimidade com aquele que está nas margens; requer que saiamos da segurança do caminho e nos equilibremos nas escarpas ameaçadoras do desconhecido ou que subamos ao sicómoro, para que aí nos tornemos íntimos com o publicano Zaqueu ou os Zaqueus em redor; impele-nos a que corramos o risco do desassossego no encontro com o diferente e a que aceitemos o calafrio da sua provocação. Sim, porque o diferente provoca-nos, desacomoda-nos, perturba-nos.



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Este movimento de saída encerra em si mesmo uma antecipada atração. «Somos ainda uma Igreja capaz de aquecer o coração?» (Papa Francisco). A Igreja não pode deixar de se sentir atraída pela periferia e de ser enviada para a periferia: ela própria não pode deixar de ser periferia. É no ato de sujar as mãos e os pés na lama da existência que se entenderá as palavras de Henry Nouwen, na sua obra O curador ferido: «A grande ilusão da orientação é pensar que um homem pode ser conduzido para fora do deserto por alguém que nunca lá esteve». A Igreja deixa de ser evangélica quando deixa de ser vulnerável, quando perde o seu estatuto de «periferia».



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Volto a Fátima. O frio de janeiro ajuda-me a sentir de novo o sabor daquelas noites em tendas de seminómadas, dentro do meu saco-cama e envolto em peles, a neve a espreitar por debaixo da lona. O dia já nasceu. A leve camada de geada na relva em redor das oliveiras é apenas um resíduo daquilo que guardo na memória. Tudo interligado, tudo emaranhado numa teia de fios de vida. Também aqui as estrelas são próximas; também aqui é Tibete.



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Adelino Ascenso
Imagens: Adelino Ascenso
Publicado em 06.01.2019

 

 
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