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Televisão: “The crown”

Narrativa entre luzes e sombras, privado e público, da monarquia inglesa ao tempo de Isabel II ao longo dos séculos XX e XXI, “The crown”, distinguida no domingo com quatro Globos de Ouro, incluindo o prémio para melhor série dramática, foi exibida em quatro temporadas, de 2016 a 2020, e a Netflix anunciou mais duas, centradas na Casa de Windsor até aos nossos dias. Nesta apreciação detemo-nos na quarta temporada, que fotografia a monarquia britânica e o país desde o final dos anos 70 ao limiar dos anos 90, compreendendo a subida política ao número 10 de Downing Street de Margaret Thatcher.

Ocupando solidamente a cabina de comando está desde o início o genial Peter Morgan, idealizador e produtor, que assina mais uma vez uma das melhores séries em circulação. “The crown” melhora visivelmente temporada após temporada, adquirindo cada vez mais incisividade, fascínio e magnetismo.

Não era fácil encenar a história da realeza e ao mesmo tempo de um país sem tropeçar em produções já vistas (o cinema apresentou não poucas) ou em panfletos didáticos ou soporíferos. Pelo contrário, aqui a narração é muitíssimo bem gerida, com uma qualidade de argumento não menos que excelente: os fios da história do país entretecem-se habilmente com as vicissitudes dos componentes da Casa de Windsor, retratados entre os deveres impostos pela Coroa e os impulsos emocionais de cada um, entre expetativas, amores e frustrações.

Peter Morgan tem sob controlo a máquina narrativa, assegurando uma adesão à história oficial, meticulosa, sem no entanto renunciar a uma reescrita funcional de algumas passagens para garantir “pathos” e ritmo. O resultado é expedito, fluido, fazendo empalidecer outras produções.

A qualidade da encenação dá ainda mais ancoragem e densidade ao todo, entre realismo e instigações fascinantes. Uma reconstrução na perfeição, dos interiores às roupas, dos penteados às cenas públicas. O dinheiro colocado pela Netflix não é pouco (mais de 100 milhões de libras esterlinas), e esse investimento vê-se muito bem.



Se a narrativa em “The crown 4” é absolutamente conseguida e tem grande poder de atração, merecedora de aplauso, não pouca hesitação gera a reflexão do ponto de vista antropológico



E para além da sempre sedutora banda sonora assinada por Martin Phipps (a marca, porém, é a de Hans Zimmer, da primeira temporada), funcionam muito bem as inserções musicais rock e pop do tempo, como por exemplo Elton John ou The Cure – na maior parte das vezes estas passagens são unidas a Lady D, à sua juventude rugidora e vontade de liberdade num palácio de gelo –, que cinzelam a história entre atmosferas vibrantes e nostálgicas.

Outro capítulo fundamental do fenómeno “The crown” é o elenco. Desde a terceira temporada fazem parte Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter e Josh O’Connor; os últimos em ordem de aparição são Gillian Anderson (Dama de Ferro) e Emma Corrin (Lady D), que se uniram àquele grupo de atores muito bem rodados e combinados.

Em conjunto, os atores são como elementos de uma grande orquestra, todos maravilhosamente no seu tempo. E o primeiro violino continua a ser Olivia Colman, que mais uma vez consegue transmitir de maneira surpreendente toda a complexidade da personagem de Isabel II, colhendo silêncios, olhares, gestos da soberana, reelaborando-os com a sua recitação pessoal: não há imitação, não há máscara, mas simplesmente adesão à personagem.

Olivia Colman entrega-nos uma rainha sólida, granítica, a única que parece ter o pulso da situação, fora e dentro do palácio, capaz de seguir as regras do protocolo com um rigor quase desumano. A coroa é a sua vida, é ela própria, bem mais do que a dimensão conjugal, o papel de mãe ou de irmã. Isabel II governa tudo, familiares e cidadãos britânicos, sem aparente hesitação. O seu problema talvez seja o isolamento afetivo, emocional, a que é condenada pela sua função desde jovem: a coroa vem antes de tudo, não existem álibis ou derrogações. Nunca.

Se, portanto, a narrativa em “The crown 4” é absolutamente conseguida e tem grande poder de atração, merecedora de aplauso, não pouca hesitação gera a reflexão do ponto de vista antropológico: a vida destes membros da realeza, assim como nos é proposta, emerge como “pobre”, encastoada num protocolo assético e asfixiante, entre obrigações de aparência e solidões ardentes. E no fundo o país real cada vez mais distante.

A série é uma lição de realização e encenação na narrativa da história inglesa e internacional do século XX, útil para debates que visem também aprofundar as dinâmicas da Casa Real e as relações com a política do seu tempo. Além disso, oferece um perfil da dimensão familiar e das restruições impostas pelas obrigações institucionais.









 

In Commissione Nazionale Valutazione Film (Conferência Episcopal Italiana)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "The crown" | D.R.
Publicado em 03.03.2021

 

 

 
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