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Texto inédito do papa Francisco: O segredo para transformar o mundo

Qual é «o segredo» da «formidável transformação» operada pelo cristianismo ao longo da História?, pergunta o papa Francisco em texto inédito publicado hoje, no volume “O Céu na Terra. Amar e servir para transformar o mundo” (ed. italiana), que abre com o prefácio do secretário-geral da Federação Luterana Mundial, Martin Junge.

O livro repropõe o tema do amor cristão e dos valores a ele ligados através de uma recolha de frases do papa Francisco, que recorda, em particular, a grande «corrente de solidariedade que desde há dois mil anos atravessa a História», e que tem como fonte a graça do amor de Deus.

 

Transformar o mundo
Em “O Céu na Terra”
Papa Francisco

Pode ainda acreditar-se na possibilidade de um mundo novo, mais justo e fraterno? Pode verdadeiramente esperar-se uma transformação das sociedades em que vivemos, onde a dominar não seja a lei do deus dinheiro, mas o respeito pela pessoa e uma lógica de gratuidade? Imagino a expressão no rosto de tantos, diante destas palavras, a estas “ingénuas” perguntas. Um ligeiro franzir dos lábios, curvados num sorriso de ceticismo, ou, no melhor dos casos, de comiseração que nos conduz a viver na sociedade do desencanto.

Devemos, portanto, assumir que o mundo é imodificável, com as suas injustiças que «gritam vingança na presença de Deus»? E a nós, homens de Igreja, resta apenas a tarefa de pregar com passiva resignação ou enunciar com repetitiva obrigação princípios tão verdadeiros quanto abstratos?



As palavras cristãs no nosso tempo muitas vezes evaporam-se, perdem o seu significado. Amor, caridade… vocábulos que hoje evocam um sentimentalismo vago ou uma filantropia melancólica. Para compreender-lhes o sentido cristão temos de pensar precisamente na experiência vivida por Paulo



Nenhuma mente honesta pode negar a força transformadora do cristianismo no devir da história. Todas as vezes que a vida cristã se espalhou na sociedade de maneira autêntica e livre, deixou sempre um traço de humanidade nova no mundo. Desde os primeiros séculos. A maior novidade no plano social foi a consideração dos valores de cada pessoa, sensibilidade que conduzia a não descartar como inúteis os indivíduos imperfeitos, a tratar com respeito os escravos, até sentir como intolerável no tempo o próprio instituto da escravidão, o sentido de repulsa pela crueldade dos jogos de gladiadores e o «espetáculo do sangue», a resiliência praticada pelo monaquismo beneditino ao tempo dos bárbaros perante o abandono dos campos e a perda de memória da cultura greco-latina, a sóbria beleza das igrejas românicas e a orante «assalto ao céu» das catedrais góticas, a recusa severa da usura e o preceito moral da «justa mercê» para o operário, inserido no catecismo. Um mundo novo, que nascia e tomava forma, progressivamente, dentro de um mundo velho em decomposição.

Como acontecia, qual é o segredo desta formidável transformação? E que ensinamento podemos extrair dela hoje, nós, cristãos do século XXI?



Um dos erros mais antigos e sempre recorrentes na História da Igreja é, verdadeiramente, o pelagianismo, um cristianismo sem Graça, a fé reduzida a um moralismo, a um titânico e desastroso esforço de vontade



Um pensador francês dos anos Trinta, Emmanuel Mounier, dizia que o influxo importante do cristianismo na civilização europeia foi mais um «efeito colateral» do testemunho dos primeiros cristãos do que um plano pré-concebido; mais a consequência gratuita de uma fé vivida simplesmente do que o resultado de um programa cultural-político elaborado à secretária: «Há sempre entre o início e os efeitos uma espécie de um percurso oblíquo, parece sempre que o cristianismo produz efeitos na realidade temporal como por excesso, quase às vezes por distração». É quando o cristianismo se radica no Evangelho que dá o melhor de si à civilização: «Com efeito, o cristianismo dá mais ao agir exterior dos homens quando cresce em intensidade espiritual, mais do que quando se perde na tática e na gestão». Esta observação, naturalmente, vale historicamente para o negativo; vimo-lo muitas vezes, infelizmente: o cristianismo perde o melhor de si quando acaba por corromper-se e identificar-se com lógicas e estruturas mundanas.

Deixemos a superfície para ir mais em profundidade; como descer ao coração de uma fonte para descobrir a origem daquela força misteriosa que, de maneira imprevisível, impele os jorros a toda a sua volta, modificando paisagens e territórios próximos. Podemos encontrar esta origem da dinâmica transformação cristã bem exemplificada na experiência do apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso, que o Senhor desestribou no caminho de Damasco com o seu olhar poderoso e misericordioso. «Naquele momento Saulo compreende que a sua salvação não dependia das boas obras realizadas segundo a lei, mas do facto que Jesus tinha morrido também por ele – o perseguidor – e tinha, e está, ressuscitado». Paulo não fez nada para encontrar Jesus, não foi sua a iniciativa. Nada havia que lhe merecesse aquele brusco olhar de amor que Deus dirige inesperadamente a um seu “inimigo político”. Nem sequer «as boas obras realizadas segundo a lei» - diz o papa Bento – lhe podiam valer a salvação. Uma gratuidade absoluta, ao qual o antigo perseguidor não opõe resistência, antes, com liberdade a acolhe até sentir esse acontecimento como a nota dominante da sua vida. A caridade de que Paulo se torna apaixonada testemunha, e que bem conhecemos através das suas cartas, mais não é do que o reflexo misterioso daquela misericórdia experimentada na sua vida.



O primado da Graça não conduz à passividade, pelo contrário, centuplica as energias e acresce a sensibilidade para com as injustiças



As palavras cristãs no nosso tempo muitas vezes evaporam-se, perdem o seu significado. Amor, caridade… vocábulos que hoje evocam um sentimentalismo vago ou uma filantropia melancólica. Para compreender-lhes o sentido cristão temos de pensar precisamente na experiência vivida por Paulo, na transformação que ocorre nele pela iniciativa divina; não altera os traços fortes da sua personalidade, não o faz tornar um sonhador fraco e cheio de veleidades, mas um homem de coração grande, porque seduzido por um Amor maior. O seu hino à caridade, na primeira carta aos Coríntios, permanece o “manifesto” mais sugestivo da revolução que Cristo traz ao mundo.

Um dos erros mais antigos e sempre recorrentes na História da Igreja é, verdadeiramente, o pelagianismo, um cristianismo sem Graça, a fé reduzida a um moralismo, a um titânico e desastroso esforço de vontade. Agostinho, justamente – tão consciente da ferida estrutural que cada alma traz dentro de si – contrariou com todas as forças o erro de Pelágio. O cristianismo, com efeito, não transformou o mundo antigo com táticas mundanas ou voluntarismos éticos, mas unicamente com o poder do Espírito de Jesus ressuscitado.

Todo o rio de obras de caridade pequenas ou grandes, uma corrente de solidariedade que desde há dois mil anos travessa a História, tem esta única fonte. A caridade nasce de uma comoção, de um espanto, de uma Graça.



É diferente também a maneira como o cristão se compromete ao lado dos últimos, que hoje têm o rosto dos idosos sozinhos, dos trabalhadores precários ou a quem não lhes são feitos os descontos para a Segurança Social, dos refugiados, das pessoas com deficiência. Este compromisso não é o enchimento de um vazio de que talvez se procura fugir com um ativismo “entusiasta” que, a longo prazo, não resulta credível



Desde os inícios, historicamente, a caridade dos cristãos torna-se atenção às necessidades das pessoas mais frágeis, as viúvas, os pobres, os escravos, os doentes, os marginalizados… Compaixão, padecer com quem sofre, partilha. Torna-se também denúncia das injustiças e compromisso para se opor a elas na medida das possibilidades. Porque assumir o cuidado de uma pessoa significa abraçar toda a sua condição e ajudá-la a libertar-se daquilo que mais a oprime e nega os seus direitos. O primado da Graça não conduz à passividade, pelo contrário, centuplica as energias e acresce a sensibilidade para com as injustiças.

«Não deves crer que roubar significa apenas despojar o teu próximo dos seus haveres; se vês o teu vizinho que sofre a fome, a sede, a necessidade, que não tem casa, roupa e calçado, e não o ajudas, despoja-lo exatamente como quem rouba o dinheiro de uma bolsa ou do cofre. Tens o dever de ajudá-lo na necessidade. Os teus bens, com efeito, não são teus; apenas és deles administrador, com a tarefa de os distribuir àqueles que deles têm necessidade» (Lutero).

É um olhar novo aquele que nasce da experiência feita na primeira pessoa da gratuidade do amor de Deus. Não atenua, por exemplo, antes aguça o sentido dramático do nosso limite, do nosso ser pecadores. Mas precisamente por isto faz-nos sentir mais forte a necessidade de uma justiça acompanhada pela misericórdia. Escrevia o teólogo norte-americano Reinhold Niebuhr: «Cada justiça que não seja mais que justiça degenera rapidamente em algo menor que a justiça». E Martinho Lutero anotava: «A verdadeira justiça experimenta piedade; a falsa justiça, desdém».



Há outro traço distintivo na ação do cristão para com os últimos. É uma ponta de alegria que permanece sempre, talvez por vezes submersa, inclusive diante das experiências mais negativas e dolorosas. É a companhia de uma Presença que não depende, em última análise, das circunstâncias externas, mas é dada; uma familiaridade com Jesus na qual se progride dia após dia na oração e na leitura do Evangelho



É diferente também a maneira como o cristão se compromete ao lado dos últimos, que hoje têm o rosto dos idosos sozinhos, dos trabalhadores precários ou a quem não lhes são feitos os descontos para a Segurança Social, dos refugiados, das pessoas com deficiência. Este compromisso não é o enchimento de um vazio de que talvez se procura fugir com um ativismo “entusiasta” que, a longo prazo, não resulta credível nem se sustenta no tempo.

Um abismo separa os profissionais do entusiasmo do compromisso que nasce da experiência de um dom recebido. Quando nos aproximamos com sinceridade das pessoas vulneráveis com o desejo de as ajudar, acontece que se é reenviado para as próprias vulnerabilidades. Todos as temos. E todos temos necessidade de cuidado, todos temos necessidade de ser salvos. Motivo pelo qual a caridade sincera aporta sempre à oração, à mendicância da Presença de Deus, a única que pode curar as nossas feridas interiores e as dos outros.

Há outro traço distintivo na ação do cristão para com os últimos. É uma ponta de alegria que permanece sempre, talvez por vezes submersa, inclusive diante das experiências mais negativas e dolorosas. É a companhia de uma Presença que não depende, em última análise, das circunstâncias externas, mas é dada, precisamente; uma familiaridade com Jesus na qual se progride dia após dia na oração e na leitura do Evangelho. Raiz de uma esperança de mudança que Charles Péguy via como a virtude menina que caminha quase oculta entre as saias das duas irmãs maiores (a fé e a caridade), mas que, na realidade, é ela, esta esperança menina, que nos leva pela mão e apoia.

«Para não amarmos o próximo, meu filho, é preciso tapar os olhos e os ouvidos. À multidão dos gritos de infortúnio. (…)

Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto.
Essa sim, é digna de espanto.
Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece
e acreditem que amanhã será melhor.
Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem
que amanhã de manhã será melhor.
Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça.
E isso a mim mesmo me espanta.
Pois é preciso que a minha graça seja em verdade
duma força inacreditável.
E que ela brote duma fonte, como um rio inesgotável.
Desde o primeiro momento e corra para sempre.»


 

In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa da edição italiana | D.R.
Publicado em 24.11.2020

 

 
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