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Leitura: “Teologia como resistência”

A Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP) pediu aos jornalistas António Marujo e António Pedro Ferreira para falarem com quatro dezenas de antigos e atuais alunos e professores, no contexto dos 50 anos da sua fundação, assinalados em 2019.

Os entrevistados «falam do percurso individual e das encruzilhadas em que a Teologia se encontra»: «Ou presta atenção à ética e às expressões culturais como o cinema, a poesia, a literatura e as artes, ou corre o risco de ficar a alucinar sozinha; ou se assume como uma ciência à flor da pele, ou deixará de entender os lugares das feridas humanas e dos toques que salvam», aponta a nota de apresentação.

O cardeal-patriarca de Lisboa acentua que a cultura portuguesa «está cheia de referências teológicas, em sinais, alusões e decorrências», consolidadas ao longo de séculos «em que os púlpitos eram quase toda a oratória e os sermões provinham de casas onde se estudava teologia. Na Universidade, desde o século XV, mas antes e depois em mosteiros e conventos».

«Tudo foi confiscado, disperso ou perdido a partir daquele abrupto maio de 1834, com a extinção dos institutos religiosos masculinos», recorda D. Manuel Clemente no texto introdutório, acrescentando que esse acontecimento traduziu-se numa «tragédia cultural» de que Portugal nunca mais se recompôs, e que «“explica” em grandíssima medida o débito cultural católico a partir de então».

O magno chanceler da UCP, historiador e antigo professor da Faculdade de Teologia está convicto de que daquele «naufrágio do património livreiro português», nas palavras de Alexandre Herculano, «jamais se conseguiu a relação universal e direta entre culto e cultura que existira antes».

«Hoje e em Portugal só não obtém conhecimento seguro sobre algum tema teológico quem não o queira ter, porque não sabe ou não quer saber. Nem sempre foi assim, como vimos. Em Braga, Lisboa ou Porto e em todo o tempo e lugar via internet, a Faculdade de Teologia aí está, franca e disponível, para servir a Igreja e para que a Igreja sirva qualificadamente a sociedade e a cultura portuguesas», conclui D. Manuel Clemente.

 

Incapaz de mexer uma palha, capaz de revolucionar o mundo
In “Teologia como resistência”
António Marujo

Comecemos pelo fim: «Em suma, a Teologia é incapaz de mover uma palha, mas é capaz de revolucionar o mundo», conclui Alexandre Palma.

De que se fala, quando se fala de Teologia? De um «fator de resistência», diz José Rui Teixeira. De «resistência do humano, contra a tentação das ciências humanas em resvalar para a zoologia», explica o responsável da Cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner, com sede no núcleo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Fala-se também da contínua «interpretação de uma tradição, através dos profetas, santos e místicos, e da própria evolução do povo de Deus» - interpretação que, se não for feita, levará ao «dogmatismo», acrescenta Arnaldo de Pinho, antigo diretor do extinto Centro de Estudos do Pensamento Português da UCP.

A Teologia é «uma experiência inquieta, muito pouco segura, muito arriscada». E, ao contrário do que supõem alguns crentes e ateus, não permite o descanso ou a tranquilidade, diz José Pedro Serra, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e diretor da sua Biblioteca. Nem «é uma espécie de certificado de seguro acerca de certezas paradisíacas do outro mundo; pelo contrário: provoca muitas dúvidas, muitas questões...». E talvez se possa falar, acrescenta Alexandre Palma, vice-diretor da FT-UCP, de «ler a vida à luz de Deus e, ao mesmo tempo, um ler Deus à luz da vida - as duas coisas, numa circularidade sem­pre inconclusa».

De mistérios, paradoxos, desejos e encontros se fará esta conversa: Prabesh Jacob, padre indiano a trabalhar na diocese do Porto, vê que a Teologia pode ser, afinal, um percurso acerca da impossibilidade de abarcar Deus. Abel Canavarro, originário de Vila Real e diretor-adjunto da FT no núcleo do Porto, olha para ela como «uma reflexão sobre o mistério, ao qual não se chega só com o coração nem só com a razão», mas com ambas. Mais que um saber, é um desejo profundo de conhecer Deus e o seu mistério, colocando-o ao serviço de outros.

Uma ciência, também, trabalhada em liberdade, que pretende «repensar a questão de Deus», formula Patrícia Sangreman, professora do ensino básico e, desde 2009, de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC); como forma de «compreender racionalmente o dado da fé»; e que pretende fazer uma «reflexão sistemática e científica sobre a leitura cristã do mundo», na expressão de João Manuel Duque, professor na área de Teologia Fundamental no núcleo de Braga da FT.

 

Um caminho de liberdade, uma longa conversa

Objeto de estudo, forma de aprofundar a fé (cristã, neste caso, mas poderia falar-se de teologia islâmica ou judaica, por exemplo), modo de dar sentido ao quotidiano e à vida, ciência e propósito de investigação, a Teologia pode ser olhada nos muitos prismas de um poliedro. Ensinada nas faculdades de Teologia ou seminários, ela pode reduzir-se a um saber escolástico - foi assim muitas vezes, nos séculos passados ­ou converter-se numa proposta de relação ou busca de sentido...

A Teologia pode ainda ser descrita como «um fa­lar responsável sobre Deus, como diz Walter Kasper, se não erro», diz Alexandre Palma. «Responsável», para afastar «todo o discurso fácil, ora prosélito ou feito só de clichés», um «fantasma demasiado presente»: «Desconfio da Teologia fácil, tendo a levar a sério uma 'teologia sofrida'. 'Responsabilidade' é saber pensar Deus a partir das grandes questões que nos assaltam e perturbam ou dos acontecimentos.» Mas também pode ser «um calar-se responsável sobre Deus, pelas circunstâncias dramáticas da vida, pelo próprio Deus, que não será apenas uma máquina de discursos, por tudo».

«Talvez devesse começar por dizer que não há Teologia, mas sempre Teologias. E neste sentido ela pode e deve ser muitas coisas diferentes», acrescenta o vice-diretor da FT.

«No trabalho teológico está pressuposta a ideia de que não basta ao crente ter fé; é preciso que esta seja inteligente», afirma Domingos Terra, professor da FT, membro da sua direção desde 2018, onde coordena o Sistema de Qualidade e a formação não graduada. Compreender aquilo que se crê é uma necessidade maior no mundo de hoje e a Teologia «quer entrar na conversa entre os diversos ramos do saber e os diferentes campos da expressão humana», explica.

Sérgio Soares, que terminou o Mestrado Integrado em Teologia na FT, timorense e membro da Ordem dos Frades Menores (franciscanos) traduz esta conversa para a sua língua pessoal: a Teologia é um «encontro» com o próprio Cristo, que dá «um novo sentido à existência do ser humano e se torna decisivo». E explica: «Eu pensava que estudar Teologia era para ser padre e ser santo. Era um sentido estreito, uma visão fechada. Estudar Teologia é uma abertura, ela existe para todos e hoje dá sentido à minha fé, ao meu pensamento, ao meu relacionamento com o mundo...»

Busca que a fé cristã empreende «com vista à compreensão de si mesma» e daquilo em que se crê, a Teologia deve «entrar na conversa entre os diversos ramos do saber e os diferentes campos da expressão humana», acrescenta Domingos Terra, padre jesuíta. José Lima, diretor do Plano Nacional de Ética no Desporto, que foi padre dos Missionários Claretianos, diz que a Teologia, para si, não é apenas «algo que está no transcendente: ela abriu-me quer na dimensão religiosa, quer para descobrir o que é a pessoa, vendo-a como imagem de Deus e valorizando muito essa descoberta do que é ser humano».

Luís Martins, aluno de Ciências Religiosas e gestor na empresa Barraqueiro (e já veremos no capítulo 3 se a Teologia pode ajudar a conduzir autocarros), diz que, do ponto de vista científico, a Teologia é o discurso sobre Deus. Mas acrescenta: «É muito mais: é uma forma que tive e tenho de encontrar um rumo mais sólido e claro para a minha vida. Para lá de várias matérias interessantes, a Teologia levou-me a reequacionar o meu papel de cristão», até perante o fenómeno dos «crentes sem religião», pessoas que «descreern das religiões», refugiando-se no individualismo ou em processos de autoajuda.

Caminho de liberdade, finalmente, a Teologia é um saber que pode ter andado também «fora da ortodoxia e da Igreja», como nota Jorge Teixeira da Cunha, professor da área de Ética do núcleo do Porto, em relação à realidade do último século na cidade. Ela leva «ao encontro de um Deus que se revela no tempo e na história». E é uma «marca de água» pessoal, que tem formado um modo de ser na vida de António Madureira, originário de Vila Real e agora responsável do Secretariado Diocesano do Porto para o Ensino da Igreja nas Escolas.

 

As perguntas do século XX

Teologia, para que serve? A questão da utilidade coloca-se, em cada momento, na vida, no trabalho, no que se faz... Faz sentido formular esta pergunta acerca de algo cujo objeto de estudo não é tangível, visível ou, sequer, objetivável? Faz sentido equacionar uma cultura que tem esvaziado a área de conhecimento das ciências humanas como algo com pouca utilidade?

Diante de uma tal interrogação, José Pedro Serra subverte a ordem: a Teologia serve para tanto como a pergunta acerca da sua utilidade. Ou seja, para nada.

«A questão central deve ser: qual é a cultura que criamos, desenvolvemos, cultivamos e cujas manifestações exteriores parecem concretizar-se no afastamento da Teologia, da Filosofia, das Humanidades?...» A própria pergunta sobre o «para que serve» a Teologia, diz, «parece já ser um florescimento de uma razão meramente calculadora e de eficácia que obedece a princípios impensados a que ela própria está sujeita».

O professor da Faculdade de Letras e antigo docente da UCP acrescenta: «Perante a devastação do século XX, poderíamos perguntar: e qual é a utilidade da vida? É uma pergunta a que o século XX teria dificuldade em responder, porque qualquer que fosse a resposta, diríamos: para acabar nas trincheiras? Para acabar nos campos de concentração? Para vivermos a experiência do sem sentido e do absurdo que foi um dos traços dominantes do século XX? Não sei se isso terá alguma resposta ao nível do "para que serve"...»

«Não serve para nada, mas é um caminho e uma busca, que não está disponível e feito» e pode ser «companheira no peregrinar» de cada pessoa, responderá Isabel Varanda, uma das 22 mulheres a lecionar atualmente na FT (nas áreas de Teologia, Filosofia e Ciências da Educação), das quais 13 em Lisboa, cinco em Braga e quatro no Porto. Há quem arrisque, mesmo assim, responder à pergunta: como tarefa específica para dentro da Igreja, a reflexão teológica deve colocar o problema do humano ou critérios de rigor, por exemplo na ação política? E criar «um sentido crítico» perante a realidade. Enfim, não serve mesmo para nada. Mas «produz um vastíssimo conhecimento humano».

 

Inútil e indispensável, um «teologar» que frequente o futuro

Sim, pode ser «totalmente inútil e indispensável ao mesmo tempo», diz Alexandre Palma. «Não é útil como solução imediata para muitos problemas com que somos confrontados: não põe comida na mesa, não cura nem uma gripe, pertence àquele terreno do ócio que, na antiga Grécia, foi já o jardim donde brotou a Filosofia» - que era Filosofia e Teologia. «Pessoalmente, não me repugna este lado inútil da Teologia», que assim «é uma profetiza contra o afã da produtividade» e da solução de problemas - ou seja, uma «amiga da poesia», exercitada «mais na contemplação ou na diletante arte e gozo de pensar».

Indispensável, «porque mantém viva a pergunta pela transcendência: será que a pessoa é tudo?» E também porque mantém viva a pergunta de Leibniz pela imanência: «Por que existe algo e não o nada?» Perplexidades como estas, que constituem «o tutano da Teologia, são imprescindíveis para que o Homem continue a ser Homem» e para que permaneça um «humanismo que seja plenamente humano». Esta leitura do mundo «sob o ângulo da possibilidade ou da efetividade do divino, se não for ela a fazê-lo, mais nada nem ninguém o fará, e esta ótica vem faltando nas nossas sociedades e espaço público».

José Tolentino Mendonça, ex-professor e ex-diretor da FT, costumava brincar com os seus alunos, dizendo-lhes que não se percebe a Teologia se a reduzirmos a um substantivo. «Claro que ela é um substantivo: produz um discurso específico, há sistemas teológicos, há uma história da Teologia que é preciso revisitar, há uma tradição de pensamento e de doutrina. Mas ela não é só um substantivo. A Teologia é um "teologar", um modo de interrogar o mistério do mundo e o silêncio de Deus.»

Pensar na Teologia como verbo coloca o acento na investigação, na dimensão laboratorial e na tarefa em aberto que nos cabe, acrescenta o agora cardeal e bibliotecário da Santa Sé, que foi muito marcado pelo texto da Constituição conciliar do Vaticano II, Gaudium et Spes (62): «Os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo; porque uma coisa é o depósito da fé ou as suas verdades, outra o modo como elas se enunciam, sempre, porém, com o mesmo sentido e significado.»

Nascido em 1965, Tolentino Mendonça doutorou-se com uma tese acerca do texto do Evangelho de Lucas (7, 36-50) que conta a história da mulher que chora aos pés de Jesus, publicada com o título A Construção de Jesus (ed. Paulinas). E diz que acredita muito na «natureza dialógica do pensamento teológico». «E, claro, que a Filosofia continuará um interlocutor privilegiado, mas não exclusivo, para o fazer da Teologia.» Neste campo, a modernidade oferece um mundo de possibilidades que a Teologia não pode deixar de aproveitar. «Pode tomar como parceiras do seu diálogo a ciência, a antropologia, a literatura, as artes, etc. Isso constitui um grande enriquecimento para a Teologia e permite-lhe concretizar a frase que o romancista Antonio Tabucchi escreveu e que o Papa Francisco ama citar: "é preciso frequentar o futuro". Precisamos de uma Teologia que não se volte apenas para o passado, mas que arrisque frequentar o futuro.»

 

Lutar contra a opacidade do universo

Como deve ser a Teologia? E a que é ela chamada? «Que não seja apenas confessional, para formar seminaristas, mas para formar seres humanos, para iluminar», propõe Jorge Teixeira da Cunha. Ela parte de uma palavra de revelação e, à luz desta palavra, é chamada a ler todas as realidades da pessoa enquanto indivíduo». Tem de «sair dos claustros» e «estender o olhar» a todos os horizontes, incluindo ao cosmos, su­gere ainda Isabel Varanda.

Uma disciplina como esta foi a mãe da universidade, pela reflexão mais especulativa, mais mística (de relação do humano com a sua transcendência) ou mais missionária que foi sendo capaz de fazer ao longo de vários séculos. Essa área de estudo e conhecimento ficaria depois reduzida, durante muito tempo, à ideia de preparar pessoas para serem padres.

Lentamente, muito lentamente, só nas últimas décadas a Teologia tem começado a sair desse aprisionamento em que ela própria se acantonara. Tal movimento deveu-se também ao papel que grandes vultos contemporâneos tiveram na elaboração de uma reflexão que tem vindo a colocar de novo o cristianismo em debate com a sua contemporaneidade.

No campo católico, esse movimento foi protagonizado, entre muitos outros, por nomes como os de Karl Rahner, Hans Urs von Balthasar, Yves Congar, Marie-Dominique Chenu, Johann Baptist Metz, Gustavo Gutiérrez, Joseph Ratzinger, Hans Küng, Walter Kasper... Todos eles ajudaram a preparar ou a pôr em prática o II Concílio do Vaticano, outro fator essencial da renovação do pensamento católico. O protestantismo teve expoentes como Karl Barth ou Jürgen Moltmann. E no cristianismo oriental e ortodoxo destacaram-se teólogos como Olivier Clément e Alexander Men.

Este caminho, consolidado sobretudo no pós-II Guerra Mundial, traduziu uma outra realidade: pela primeira vez depois das grandes ruturas históricas sobretudo as dos séculos XI, entre o cristianismo ocidental e o oriental, e XVI, entre catolicismo e protestantismo -, a Teologia já não se encerra em guetos, mas faz uma reflexão partilhada, assumida, debatida em diferentes igrejas ou comunidades, para lá da proveniência dos seus autores. Mas predomina nela uma «linguagem hermética, [que] deveria ser diferente», observa António Madureira. Tem de ser capaz de integrar mais leigos e mulheres na produção de um pensamento que dialoga ainda muito pouco com a arte e a literatura, e tem de perceber que os grandes escritores ou artistas têm o papel dos profetas bíblicos do Antigo Testamento, como recordará José Rui Teixeira.

Apesar desse reinício, que significa também uma busca por intuições originais que entretanto tinham sido esquecidas ou escondidas, a Teologia, que foi já chamada «rainha das ciências», precisa ainda de reconquistar o estatuto de área de conhecimento, perante o discurso dominante na academia que reduz o conceito de ciências às designadas ciências positivas, recorda Peter Stilwell, que foi diretor da FT (2002-2012) e desempenha o cargo de reitor da Universidade de São José, em Macau (desde 2012).

«Todos os saberes, sejam eles das ciências exatas, sociais ou humanas, radicam em última análise num ato de confiança ou de fé primordial, ou seja, na afirmação de que o universo é inteligível, de que vale a pena lutar com a sua opacidade, lançando mão de metodologias diversas» na busca de «uma maior compreensão do real». O que a Teologia faz é refletir «sobre a justificação dessa confiança: porque confiamos? O mundo e a história e a vida têm sentido?»

o modo de abordagem é a diferença, diz, porque a Teologia se «aproxima mais do que é a literatura ou a poesia». O que nos revelam elas sobre a natureza humana? «Revelam coisas que as ciências não revelam acerca da relação humana. E é isso que a Teologia está a fazer: analisar uma pessoa - no caso da Teologia cristã, Jesus Cristo e a sua relação com as pessoas.» O erro de uma certa Teologia «é tentar extrair dos textos uma espécie de sumo racional sobre o divino, em vez de se apreciar a qualidade humana das relações...». alerta.

 

A luz da fé, a espessura humana

De um lado deve estar a luz da fé, do outro a história do mundo na sua espessura humana, define o bispo de Leiria-Fátima, cardeal António Marto, que foi professor no núcleo do Porto da FT da Católica desde 1988 (e do Instituto de Ciências Humanas e Teológicas, que antecedeu a Faculdade, desde 1984), onde ensinou várias cadeiras.

«A Teologia cristã parte de uma palavra da revelação, da palavra de Deus aos homens e do seu desígnio amoroso e da luz da fé. À luz dessa palavra, é chamada a ler todas as realidades da pessoa enquanto indivíduo, da sociedade, da Igreja, do mundo, nas várias situações e contextos históricos. Tem sempre esses dois polos de referência: de um lado, a luz da fé, do outro a história e o mundo, na sua espessura humana.»

Nesta forma de ver, admite o bispo de Leiria-Fátima, o seu inspirador foi o teólogo Johann Baptist Metz, que tinha «uma visão muito serena da secularização, que é fruto do cristianismo», e que o leva a dizer que «não se pode olhar para o mundo de forma maniqueísta».

O percurso de António Marto teve uma fase decisiva em Roma, entre 1970-77, onde fez a licenciatura e preparou o currículo para o doutoramento e a investigação. Foi «todo um novo mundo de descoberta da Teologia, sobretudo na relação com a cultura, as fontes bíblicas e patrísticas», dos teólogos dos primeiros séculos do cristianismo. Bem como «dos grandes teólogos que fizeram a viragem» da «escolástica decadente» para uma linguagem teológica modernizada, como foi o caso do jesuíta Karl Rahner.

«Tenho a obra toda dele, é a minha referência principal, porque fez a renovação de toda a Teologia católica» e pode ser colocado num patamar semelhante a Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino. Para a tese, apareceram outras referências importantes: o alemão Walter Kasper, hoje cardeal e então um jovem teólogo, bem como o suíço Hans Urs von Balthasar. Este último, recorda, dizia que «Deus é o céu e nós somos o céu, o amor purificador de Deus é o que chamamos purgatório e a perda de Deus é o que chamamos inferno».

Maria Manuela de Carvalho, a primeira mulher doutorada em Teologia a lecionar na FT, vai buscar a mesma citação daquele que é a sua grande referência no trabalho teológico: Von Balthasar foi o objeto da sua tese e o centro do seu trabalho durante largos anos. «A Teologia não é só um saber, é um desejo profundo de conhecer Deus e o seu mistério, colocando-o ao serviço de outras pessoas.»

Não é de cor que a discípula de Balthasar, que fa­zia uma «Teologia de muita ternura», fala da dimensão do serviço: tendo frequentado o primeiro ano do curso de serviço social do Instituto de Cultura Superior Católica, trabalharia depois nos bairros sociais da Musgueira e Padre Cruz, ambos em Lisboa. «Os bairros eram um dormitório, ao fim da tarde é que começava a haver pessoas para atender.»

 

Drama, gramática da plenitude, infinita liberdade

Para trás ficara a vontade do pai de que Manuela fosse para Direito. «Eu não gostava, imaginava-me em tribunal a mentir e a ouvir mentiras. Eu ainda atirava com alguma coisa e acabava a ser acusada...», ri. Recorda que a par da tradição familiar de fazer de Nossa Senhora a madrinha das crianças, o pai foi quem melhor lhe falou de Deus: «Ele não era propriamente um praticante, mas ninguém nunca me falou de Deus como ele - não me admira eu querer estudar Teologia, está nos genes.»

Depois, viera a hipótese de frequentar Letras, mas havia um tio médico que decretava: «Letras são tretas». Ganhou o serviço social. Mas, como Auxiliar de Apostolado - mulheres celibatárias, que se disponibilizam para o serviço da Igreja onde ele é necessário -, surgiu a hipótese de ir para o Vietname, para trabalhar na evangelização, já na perspetiva da unificação do país e do receio dos bispos de que houvesse perseguição religiosa, como acabaria por acontecer.

Entre junho de 1966 e abril de 1967, Manuela encontrou o país no auge da guerra. O povo era «muito interessante e acolhedor». No início, a portuguesa era a «menina americana» e atiravam-lhe pedras. «Comecei a vestir-me à maneira deles e isso mudou.» Apesar da guerra, sentiu-se bem no país que tinha também nomes portugueses na sua primeira evangelização, no século XVIII, entre os quais o jesuíta Diogo de Carvalho. Teve de regressar a Portugal mais cedo do que pensava por ter contraído amebíase, uma doença tropical grave que provoca hemorragias internas.

Encontrou, também, uma experiência de «caridade impressionante» da parte dos cristãos: quem tem arroz, alimento com a mesma carga simbólica que o pão tem em outras culturas, guarda diariamente um punhado e no fim da semana distribui por quem precisa.

Quando regressou, e depois de um período para recuperar, quis inscrever-se no curso da Católica. «Eu queria mesmo saber Teologia, queria saber tudo, precisava de tudo», diz. «A Teologia é aprender sobretudo o mistério da cruz, que é amar com os outros. Por isso, toda a minha Teologia anda à volta do mistério pascal, porque tudo partiu da entrega de Cristo» à humanidade. «Quando falo do mistério de Deus, não é um domínio cognitivo, é uma questão prática, centrada na "gramática da plenitude"», diz.

A ideia de Balthasar já citada serve para completar a reflexão: «O que é o céu? É Deus. O que é a purificação? É Deus, para quem por ele se deixa purificar. E o julgamento? É Deus, para quem por ele se deixa julgar. Não me perguntem se há labaredas ou fogo no inferno. O inferno é Deus para quem o nega, porque a pessoa não foi feita para estar só, mas para a comunhão.» A sua tese, aliás, defendida em 1978, foi sobre o Purgatório.

Balthasar, diz Manuela de Carvalho, continua a ser pertinente para o século XXI: «Ele baseia a sua Teologia num Deus que começa por manifestar-se através da beleza - essa é a primeira forma de Deus nos atrair.» E compara com o bom teatro, para dizer que faltou «drama a toda a Filosofia anterior ao século XX, limitando-se a coisas meramente especulativas». Para o cristão, no entanto, o importante é «entrar na ação de Deus em Jesus Cristo - isso é a santidade, que se deve viver na relação entre a infinita liberdade de Deus e a liberdade finita da pessoa: ser santo é ser livre, mesmo se dizemos que o santo está preso à verdade e a Deus».

 

Vida a implodir, reconstruir a vida

Antes da experiência e dos estudos em Roma, o então ainda seminarista António Marto quis passar por uma experiência atípica: foi fazer o ano de estágio a trabalhar numa fábrica de metalurgia do Porto. «Quis perceber o que a vida e o trabalho tinham que ver com o que aprendera, o que significava a Teologia do trabalho, a ideia da pessoa como colaboradora de Deus, e o que são os direitos dos trabalhadores.»

A ideia não teve a concordância do então bispo de Vila Real, de cuja diocese vinha o seminarista Marto. António Cardoso da Cunha, no entanto, permitiu que três dos estudantes fizessem essa experiência em 1969/70. Tal como a doença vietnamita de Manuela Carvalho, a experiência deixaria uma marca em carne viva no agora cardeal: ao ensinar outro operário a trabalhar com uma máquina, este ligou-a sem querer e a máquina apanhou o polegar direito de António Marto. Hoje, «dá para escrever», mas não consegue mexer o dedo em condições...

Nessa altura, o agora cardeal não «pensava que iria ensinar Teologia». Antes queria experimentar a «Teologia viva», para não ficar pela de «laboratório». «Gostava muito de estudar a doutrina social da Igreja», área em que teve um mestre: o professor Narciso Rodrigues. Na área da Teologia Sistemática, defendeu em dezembro de 1978 a tese sobre Teologia da Esperança. A partir de 1988, já na FT, lecionou Antropologia Teológica, Sacramentologia, Teologia do Mundo, Evangelho e Modernidade ou Escatologia.

Marcas físicas, percursos, histórias que se cruzam com as ideias, as memórias e as experiências pessoais: foi como aluno do atual bispo de Leiria-Fátima que Henrique Manuel Pereira, agora professor na Escola das Artes no centro do Porto da UCP, decidiu fazer uma tese de licenciatura. Escolheu o seu professor de Escatologia como orientador. O tema pelo qual optou tinha todos os ingredientes para deixar algumas pessoas, no mínimo, a fazer perguntas: reencarnação. Um assunto olhado de lado pelo cristianismo, mesmo a partir da ideia de ressurreição, o dogma central da fé cristã.

«A escolha do tema coincidiu com a morte do meu pai», recorda Henrique Manuel Pereira. «Senti-me a implodir e precisei de me reconstruir. Tinha umas luzes sobre a ressurreição, mas isso não chegava. Ao mesmo tempo, um irmão meu que estava no Brasil e andava pelo espiritismo, veio a Portugal e conversámos muito sobre reencarnação, com argumentos que não me convenciam. Nem os meus a ele. A tese foi uma tentativa de procurar respostas. Dediquei-a ao meu irmão.» A escolha do professor de Escatologia para orientar a tese teve uma outra razão pessoal: «Conhecera-o no momento em que ele soube da morte do pai. Vi-o levantar-se a chorar e percebi...»

O pequeno escândalo confirmou-se: Henrique estava então no seminário, usado durante as férias dos estudantes para encontros de grupos. Um padre que ficou alojado no quarto dele viu os livros do jovem seminarista. Foi ter com o então reitor, António Taipa, hoje bispo auxiliar do Porto, e perguntou-lhe que leituras eram aquelas. Não terá sido sobretudo por causa de Hermann Hesse, Marguerite Yourcenar ou Graham Greene, alguns dos nomes que Henrique Pereira frequentava. «Os livros de Teologia e religião é que o escandalizaram: andava a ler todo o Alan Kardec [guru do espiritismo brasileiro], tinha os Vedas e Upanishadas [livros sagrados do hinduísmo] obras dos cátaros, Hans Küng...»

 

Nem assética, nem pura, nem destilada

Voltemos ao caminho que levava o atual bispo de Leiria-Fátima. Professor no Porto, António Marto orientou também vários seminários sobre o II Concílio do Vaticano, História e Teologia, Religião Popular e Doutrina Social da Igreja. Já nas aulas que lecionava, Marto falava dos textos mais importantes vindos de Roma. «Era a maneira de os alunos lerem as encíclicas dos papas», lembra, sobre esta última área.

«A Teologia, se não quer ser assética, pura ou destilada, como diz o Papa Francisco, tem de estar em diálogo com as grandes questões da vida do mundo, da sociedade, do presente e do futuro.» Incluindo a questão do trabalho, mesmo num contexto diferente, e na fase de transição cultural, social e política, isso também se reflete no pensamento teológico: «Andamos todos à busca de uma compreensão global dos novos problemas, para os quais não temos resposta imediata.»

E, afinal, pode aprender-se muito com a Idade Média, tantas vezes menosprezada no senso comum: num discurso na Universidade de Nápoles, em 21 de junho de 2019, o Papa Francisco referiu as «questões disputadas» de que falava Tomás de Aquino, no século XIII. «Eram tratadas na universidade, às quais se dava tempo num diálogo interdisciplinar, até encontrar resposta. A Idade Média foi inovadora», sublinha o bispo Marto. Até no diálogo inter-religioso, que não tinha essa designação, mas do qual houve várias experiências, nomeadamente entre cristãos e muçulmanos, acrescenta.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 14.01.2020

 

Título: Teologia como resistência
Autores: António Marujo (texto), António Pedro Ferreira (fotografia)
Editora: Universidade Católica Editora
Páginas: 124
Preço: 15,50 €
ISBN: 9789725406687

 

 
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