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Tarkovsky, poesia do milagre

Era a noite de 28 para 29 de dezembro de 1986 quando o realizador russo Andrei Tarkovsky morre exilado em Neuilly, França. E a mulher, Larissa, depois de ter recusado o convite das autoridades soviéticas de então para fazer repatriar o corpo do marido, decide fazê-lo sepultar no cemitério cristão ortodoxo de Sainte-Génèvieve-de-Bois, situado a 20 km a sul de Paris. Mais de 30 anos após a morte, não faltam oportunidades não tanto para suscitar nostalgia, mas para voltar a ver os seus filmes  (por vezes restaurados, como o último por ele rodado, “Sacrifício”), ou para os apreciar pela primeira vez.

Além de estar envolvido na realização de longas-metragens (sete em 25 anos: “A infância de Ivan”, “Andrei Rublev”, “Solaris”, “O espelho”, “Stalker”, “Nostalgia”, além do citado “Sacrifício”), de um documentário (“Tempo de viagem”), de uma curta-metragem e de duas médias-metragens, o talento de Tarkovsky foi artífice de escritos fundamentais sobre fazer cinema, sobre o seu fazer cinema.

Em “Martirológio. Diários”, a reflexão entretece-se com os acontecimentos quotidianos, com os encontros, com as frequentes e ásperas dificuldades com as quais teve de fazer as contas. Mas há sobretudo “Esculpir o tempo”, o livro cuja escrita iniciou nos inícios dos anos 70, quando residia ainda na União Soviética.

Sempre atual, cada vez mais atual, na sua ausência de atualidade, as reflexões do russo sobre a arte, sobre fazer cinema, sobre poesia («Senti-me sempre mais um poeta do que um cineasta»), são sempre, em última análise, «observações da vida», a busca de um «género especial de relação com a realidade» (assim define a poesia).

O seu ponto de vista de realizador-argumentista-poeta foi desde o início marcadamente subjetivo, mas com uma forte tensão para a partilha e para o confronto com o espetador. «O mundo está cheio de prodígios incompreensíveis», escrevia ao refletir sobre “Sacrifício”, mas a contemporaneidade sofreu uma «devastação espiritual».

O homem moderno sofreu um «roubo», é «incapaz de esperar uma conclusão inesperada, num acontecimento contraditório que não corresponda à lógica “normal”, e ainda menos é capaz de admitir o milagre, nem sequer como hipótese». Deriva desta consciência a atenção, o respeito que Tarkovsky teve sempre pelo espetador, pela sua liberdade. A tal ponto, que sublinha um nexo entre a «lógica da poesia», que devia dar forma ao seu cinema, e quem se predispõe a acolher a obra: «A forma poética dos “raccords” [sequências de um filme] eleva a tensão emotiva e torna o espetador mais ativo».

O cinema de Tarkovsky e os seus escritos são fogo que incendeia, matéria que estimula as «fontes obstruídas e áridas da nossa vida».









 

Vito Punzi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 21.03.2019

 

 
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