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Sou peregrino: Pés em casa, coração em Fátima

A peregrinação nasce muito antes da gran­de viagem do peregrino. Foi um familiar, um amigo, um acontecimento, uma história, um desgosto, uma festa, uma imagem, uma luz, um medo, uma inspiração, uma aventura, uma voz, um sinal, vários sinais. E talvez convenha perceber a proveniência desses sinais, porque um vem de Deus. Ele pode chamar, fazer um convite para um tempo de intimidade, diálogo, ou para um tempo favorável à nossa transformação ou à nossa conversão. Importa nunca estar desatento a vozes e acontecimentos que são um aceno terno e discreto, ou mesmo um apelo nas entrelinhas de um evento que faz estremecer as nossas vidas e, porventura, as da comunidade. Vivemos num recanto do tempo e do espaço. O que reconhecemos em Deus é a ausência total de fronteiras e cada pequeno espaço tem para Ele a dimensão e a importância do mundo inteiro. E o contrário: o mundo inteiro é um espaço mínimo para Deus e ganha significado sempre que lá estiver uma pessoa. Onde estivermos nós. Trazemos dimensões de infinito e por isso nada há em nós de insignificante que não interesse a Deus. Do pesado carro dos nossos erros ao mais alto grau da nossa santidade. Aceitamos procurá-lo enevoadamente em busca da claridade.

E aqui abre-se uma porta assombrosa onde passa a humanidade de todos os tempos: a grande Porta Santa das nossas vidas, dentro ou fora do Jubileu. Do lado de fora e de dentro está a misericórdia de Deus, que nos impele e recebe em festa como ao filho pródigo. Com o melhor protocolo que Deus reserva para os que o amam e batem à porta. Mais: Ele é a Porta. E surge a pergunta: porque não entrar na ala, não de santos esculpidos em série mas de uma multidão inumerável que há séculos ou milénios ouviu essa voz, acolheu essa luz vinda da montanha, sem muito oferecer, mas com muito para contar? E se eu subisse essa montanha e ouvisse essa voz? E se fosse, mergulhado na multidão, anónimo, marcar o meu encontro com esse Ser, Senhor da terra e dos mares, superior aos ventos e aos fogos e mais alto que todas as montanhas? E se me enchesse de coragem, perdesse a minha importância e fosse até Ele rodeado de silêncio, despojado de títulos e haveres, sem discurso estudado, apenas disponível para lhe contar em voz baixa o meu segredo que ninguém conhece porque nunca a ninguém contei? Guardo-o com mágoa e respeito no mais íntimo de mim mesmo. É talvez o momento de o abrir a Alguém que não me julga nem me condena. Apenas me escuta. E me olha. O seu nome é Misericórdia. Como o de sua Mãe.

 

Peregrinar

Vou. Sou multidão, mas não deixo de ser eu pró­prio. Não me perco. Nem preciso levar bandeira ou emblema. Ele conhece-me e recebe-me. E se tal não acontecesse, lá estará a Mãe. «Nunca se ouviu dizer que alguém tivesse invocado a sua proteção e por ela não fosse amparado.» E posso escolher o dia. Ir só, com uma ou duas pessoas de família, com amigos, companheiros cristãos de jornada, irmãos da mesma causa, ou apenas a mole de anónimos cada vez mais frequente em qualquer dia do mês ou da semana. E penso que é ideia minha. Engano. É um chamamento que Ele me faz.

Pequena é a minha fé. Nem sei se tenho a porção mínima para me habilitar a esse encontro que seria o mais encantador da minha vida e explicaria todos os outros, e me prepararia para todos os embates com pessoas e acontecimentos que estão para vir. Estou no ponto zero duma caminhada. É isto que tenho no coração e que quero balbuciar, com os meus olhos apenas voltados para a montanha que quero subir. Sei que Alguém me aguarda, me recebe e me abraça. Vou levantar-me e pôr-me a caminho. E não vou de mãos vazias. Isto não passa dum começo.

Vou acabar com a minha conversa e falar-lhe diretamente porque sei que me escuta à distância. Não preciso de telemóvel nem de intérprete. Vou diretamente ao assunto. (…)

É incalculável o número de pessoas que, ao longo de um século, procurou Fátima, pediu, implorou, chorou e recebeu a graça que pedia. Quem poderá ordenar a sequência de ocorrências, de ordem física ou espiritual, ligadas a Fátima e dela resultantes? Poder-se-á dizer que há muitas maneiras de fugir à objetividade e ao rigor científico. Mas haverá muitas mais onde a ciência se perde e a narrativa se confunde consigo mesma na incapacidade de descrever a experiência vivida. Diz-se que não há crónica objetiva. O que recebe uma mensagem recebe-a e conta-a à sua maneira, molda-a, qual talha de barro que configura a água que recebe. Mas a verdade não é uma ficção. E Deus revela o que nem a vista viu nem o ouvido ouviu, como dizia Paulo aos Coríntios: «Fala­mos da sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu... as coisas que o olho não viu e o ouvido não ouviu e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam» (1Coríntios 2,7-9).

 

«Tenho a minha fé»

Não estará suficientemente estudada a presença de não-crentes em Fátima, ou de cristãos que abandonaram a prática da fé, ou que estão de costas para a Igreja. Muitos vêm «porque têm a sua fé», cuja expressão começa ora em Fátima, numa romaria, ora num batismo ou funeral a que tiveram de assistir por razões mais sociais que religiosas. Sabemos onde começa, não sabemos como evolui e termina.

É a sombra de Deus que anda perto. Muitas vezes estes casos são vistos com alguma displicência. E a grande pergunta é outra: que mecanismos pastorais estão em estudo ou em ação para responder a estas situações que são tudo menos desonestas? São um estádio, um caminho, uma etapa, um degrau na subida. Poderá este peregrino nem saber rezar o Pai-nosso ou a Ave-Maria, mas nem por isso merece menos atenção numa grande peregrinação. Pode constituir uma faixa significativa no conjunto do recinto de oração. E no momento da aproximação da Imagem de Nossa Senhora, quem se sente apto a julgar a abertura do seu coração, e quantificar o sobrenatural que lhe estará próximo? E que elementos, na liturgia oficial ou nas orações e pregações, estão voltados para aqueles que «tendo a sua fé» não a exprimem pelas mesmas palavras, ritos, fórmulas e convenções? São esses percursos que merecem ser olhados com respeito, dialogados, porventura um a um, mas reconhecidos no todo de uma peregrinação. Ninguém pode desdenhar da pouca ou muita fé que está ao lado, nem desenhar os roteiros espirituais dos peregrinos. Mas não podemos ignorar. Pergunta-se mesmo, se «sair» não significa também ter os que estão distantes como alvo privilegiado no conjunto da pastoral, inclusive nas celebrações e pregações. São remidos pelo sangue de Cristo. Também estão na multidão que atravessa a Nova Jerusalém.

E vieram, chamados por Deus como todos os outros. Esses peregrinos são muito mais que pobres pecadores. Só Deus e a Virgem conhecerão as conversas que com eles estabelecem.

 

Lugar de conversão interior e exterior

Para alguns, Fátima é considerada como um lugar de alienação de quem não soube resolver os problemas pessoais ou sociais. Mas os peregrinos foram cada vez mais clarificando o seu lugar na sociedade e a expressão da sua fé. Fátima, hoje, é um lugar de inteligência e cultura, apesar de ser templo de celebração e interioridade sobretudo popular. Mas tem, ainda, uma dimensão social pelos longos e aturados estudos que lá se realizam em ordem a um melhor conhecimento e empenho pela justiça. É, nesse sentido, um lugar político onde, de mãos livres, se lança à obra de mobilizar a consciência para as grandes questões do nosso tempo: problemas da paz e suas causas, justiça, desemprego, necessidades de saúde, habitação, o mínimo de dignidade que se exige para cada cidadão, muitas vezes, não coincidente com o salário mínimo; questões como o desarmamento, a pena de morte, o respeito pelas minorias, pelos dramas dos mais esquecidos, pela urgência duma justa distribuição dos bens não só a exigir aos poderes políticos, mas também a impulsionar as consciências para a responsabilidade de cada um por todos. Fátima, hoje, está atenta à partilha e participa ativamente em apoios a muitos programas sociais que cada vez mais a Igreja e o País lhe solicitam. Finalmente: é um lugar privilegiado para o homem de hoje expressar a sua interioridade, dimensão que andou esqueci­da em convulsões sociais e políticas, onde apenas as soluções políticas, ideológicas e tecnocratas traziam para todos o pão que afinal não chegou. Pode unir esses dois polos por vezes considerados antagónicos.

É um lugar de louvor, essencial ao coração do homem.


 

Cón. António Rego
In Fátima - Sou peregrino, ed. Paulinas
Imagem: palinchak/Bigstock.com
Publicado em 12.05.2020 | Atualizado em 13.05.2020

 

 
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