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«Sou católico, sou um homem de fé»: O motor mais potente de Lewis Hamilton, sete vezes campeão de Fórmula 1

É uma certeza quase matemática, quando começas a vencer muito, depressa te fazem antipático. «Elementar, Watson», diria Sherlock Holmes, para nos situarmos no contexto do britânico Lewis Hamilton, sete vezes campeão do mundo de Fórmula 1, cada vez mais uma lenda deste desporto. Simpático ou não, os números falam por si, e não é por acaso que se conquistam, além dos títulos mundiais, 94 Grandes Prémios e 97 presenças no primeiro lugar da grelha de partida.

Depois do primeiro campeonato do mundo, em 2008, com a McLaren, começou uma “monarquia”, com a Mercedes, a partir de 2014, interrompida em 2016 pelo seu companheiro de equipa Nico Rosberg. Neste domingo, em Istambul, num circuito que se tornou em sabonete por causa da chuva, quis colocar todos os corredores atrás de si, sua majestade Lewis VII, rei de uma Fórmula que se tornou previsível por culpa/mérito seu.

Hamilton é um soberano absoluto capaz de igualar o recorde de campeonatos mundiais de Michael Schumacher. Precisamente ele, o ídolo que Lewis considerou «o maior de todos os tempos». O lugar do britânico no olimpo dos grandes da Fórmula é difícil de encontrar, comparando-o com os campeões de várias gerações, mas esse é um exercício inútil, assim como querer a todo o custo avaliar no cômputo dos recordes do piloto o peso de uma Mercedes extravasante ou o vazio de adversários de real valor.



Compreende-se porque se tornou um paladino contra os maus-tratos («é uma coisa terrível, um comportamento de cobardes, quem o sofre deve pedir ajuda, e as pessoas que assistem têm de intervir»), e o racismo, a começar pelo seu mundo, visto que continua a ser um dos poucos pilotos negros



Mas se há algo que a frieza dos números não consegue afetar é o rosto que se esconde sob a casca do Hamilton duro e canibal. É preciso ir além da imagem de estrela milionária e do campeão de eventos mundanos. Disse ele, uma vez: «Gosto da moda, e no contexto do “paddock”, sim, direi que sou orgulhoso da minha maneira de aparecer, sobretudo sendo fotografado continuamente. Gostaria, no entanto, que as pessoas conhecessem algo mais daquilo que tenho no coração e de onde venho».

Reconstruir, como um detetive, as peças da sua história reportar-nos-ia à criança que depressa se pôs ao volante para estar mais tempo com o pai, Anthony, originário das Caraíbas, separado da sua mãe, a britânica Carmen. Hamilton não provém de uma família rica, que definiu como bairro de lata o lugar onde nasceu, a 7 de janeiro de 1985, em Stevenage, Inglaterra.

A infância não foi simples: «Aos quatro ou cinco anos sofri o “bullying” dos companheiros de escola. Foi o meu pai que me ensinou, desde os meus seis-sete anos, a nunca me vergar». Ao pai reconhece o mérito de toda a sua carreira: «Era empregado numa empresa de distribuidores automáticos de bebidas, e terminado o turno corria para outro trabalho. Chegou a ter quatro ao mesmo tempo, por isso, de cada vez que me sento ao volante estou consciente daquilo que fez por mim».

Aquela criança que na escola tinha dificuldades, até por causa da dislexia, acolheu o desafio de quem dizia que nunca teria sucesso, ganhando satisfação atrás de satisfação. E compreende-se porque se tornou um paladino contra os maus-tratos («é uma coisa terrível, um comportamento de cobardes, quem o sofre deve pedir ajuda, e as pessoas que assistem têm de intervir»), e o racismo, a começar pelo seu mundo, visto que continua a ser um dos poucos pilotos negros («só agora começo a ver crianças de raças diferentes que correm de automóvel, e é uma mudança importante»).



«[O meu irmão] Nicolas é um jovem com deficiência, mas eu descobri e compreendi que pessoas nas suas condições têm uma personalidade formidável: caem e levantam-se, caem e levantam-se sempre. Com serenidade. Confesso: ensina-me muito»



Está também na família uma outra sua grande fonte de inspiração: o irmão Nicolas, filho do pai e da sua segunda mulher, atingido por uma paralisia cerebral devida a um nascimento prematuro. Durante muito tempo obrigado à cadeira de rodas, hoje, aos 28 anos, graças a uma reeducação motora, é piloto profissional. «Quando era pequeno, pedia sempre ao meu pai: dá-me um irmão. Por fim, chegou, e só isso me fez feliz. Nicolas é um jovem com deficiência, mas eu descobri e compreendi que pessoas nas suas condições têm uma personalidade formidável: caem e levantam-se, caem e levantam-se sempre. Com serenidade. Confesso: ensina-me muito.» Se Nicolas é o primeiro apoiante do irmão, Lewis é-o também por ele: «Estou sempre grato por ter tido o privilégio de ver uma pessoa tão especial crescer desde o nascimento».

Talvez seja ainda pouco conhecida, mas também não é segredo a religiosidade de Hamilton, bem visível quando reza antes da corrida, tudo menos silenciosa, tendo em conta o inseparável cordão com o crucifixo ou a tatuagem com a frase «Deus é amor» no pescoço: «Sou católico, sou um homem de fé, e rezo várias vezes ao dia, quando acordo, quando vou dormir e antes de cada refeição. Tenho uma relação estreita com Deus, agradeço-lhe, peço-lhe ajuda pelos amigos em dificuldade. E peço apoio para mim próprio quando o stress se torna demasiado forte».

É tocante esta confissão num homem habituado a desafiar a vida a mais de 300 km/h: «Tudo pode acontecer a cada dia, mas sinto que Deus tem a sua mão sobre mim». Um campeão capaz de erguer o olhar, consciente do seu destino, mas que ainda não desatou as suas reservas sobre o presente e o futuro imediato na Mercedes. Haverá tempo para quem já demonstrou que para se tornar grande é preciso recordar-se que foi pequeno. «Faltam-me as palavras» – declarou após o último triunfo. «Agradeço à minha família e à equipa, fui muito além dos meus sonhos. Espero que as crianças se inspirem naquilo que fiz. Se queres obter resultados, tens de sonhar o impossível, segui-lo sem nunca desistir e colocar em dúvida as tuas capacidades».


 

Antonio Giuliano
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Lewis Hamilton | D.R.
Publicado em 18.11.2020

 

 
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