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Sorrentino e “O novo papa”: O «desejo impelente de Deus» e a Igreja como vanguarda cultural

Não aprecia as definições que alguns lhe atribuíram. Irreverente, transgressivo, polémico. “The new pope” (“O novo papa”), a nova série da HBO, Sky Atlantic e Canal+, com oito episódios de uma hora, idealizada e dirigida pelo italiano Paolo Sorrentino, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (“A grande beleza”, 2014), poderia julgar-se, talvez apressadamente, como a enésima irrisão da realidade do Vaticano, aparentemente distante do universo imaginativo do realizador. A distância existe, em parte, em relação à natureza ortodoxa e milenar de um Estado e do papa que representam, para os católicos fiéis de todo o mundo, respetivamente a Igreja e S. Pedro. Mas a proximidade também existe, porque Paolo Sorrentino é um cineasta atento, seguro de si, imponderável.

Na primeira série, “The young pope”, acompanhava-se Pio XIII, o fictício papa mais novo da história, e o primeiro norte-americano a ser eleito.

«Escrevo aquilo que me provoca grande curiosidade», explica o realizador. «Em “The young pope” e agora em “The new pope” o verdadeiro argumento que levo a peito é a necessidade impelente de Deus que as pessoas têm, uma necessidade que considero muito respeitável. Por isso estou em desacordo com quem define como irreverente a minha perspetiva narrativa. Acredito que a relação com Deus é qualquer coisa que não se pode menosprezar, seja quando ela se afirma, seja quando se nega. E isto é um aspeto que me interessa muito: dá-me gosto ter como protagonista um papa, que é o representante de Deus sobre a Terra, e ao mesmo tempo agrada-me ocupar-me dos padres, dos fiéis. Faço-o à minha maneira, por vezes com uma perspetiva “naïf”, divertido, mas sempre com honestidade e espontaneidade.»

Leu alguns livros antes de idealizar a série?
Li muitíssimos, de que não recordo agora mais nada, mas tive como consultor Alberto Melloni, professor de História da Igreja.

O novo papa, João Paulo III (interpretado por John Malkovich) parece menos interessado na oração em comparação com Pio XIII, o “The young pope”, interpretado por Jude Law.
A oração era um tema muito presente na primeira séria. Menos na segunda. João Paulo III, o novo papa, carrega uma inquietação na sua alma: despertará do coma Pio XIII, um papa, suspenso entre a vida e a morte? Com o tempo, o cinema e a televisão pararam de colocar no centro da narrativa o Vaticano como lugar escabroso onde se adensavam mistérios. Mas o perigo do escândalo abrange todas as realidades da sociedade, não só as religiosas, mas também as profissionais. Além do tema da oração, sentia o impulso de narrar em “The new pope” algo que pertence ao mundo da Igreja, um mundo que nunca renunciou à necessidade da cultura, da reflexão e do estudo. Temas que arriscam parecer, por vezes, de alguma forma caídos em desgraça. Mas a Igreja demonstra ser maravilhosamente monolítica, porque não pode não ter em consideração a arte, a literatura e a música. Paradoxalmente, a par da universidade, é uma das vanguardas culturais mais importantes.

Na sua filmografia parece haver um fio condutor, o amor que dá respiração às histórias.
O amor é um dos temas que levo a peito, nas suas infinitas declinações, não só a sentimental, à qual todos fazemos, instintivamente, referência. Penso que há uma grandeza tratar este tema imprescindível da vida.

Alguma vez pensou em realizar um filme sobre o amor?
Pensei muitas vezes, mas é o filme mais difícil de realizar, até porque houve trabalhos diversos. No passado, o cinema viveu uma época dourada porque as longas-metragens eram todas películas de amor, que pertenciam à brilhante filmografia americana. Além disso, não gostaria de desiludir a minha mãe, porque era uma apaixonada desse cinema; os dois víamos filmes quando passavam na televisão, quando só havia dois canais. Recordo, em particular, “E tudo o vento levou”, que vi em criança.

Os seus personagens são frágeis e parecem, como em “A grande beleza”, o seu filme mais conhecido no mundo, ter uma visão negativa da vida. Identifica-se com esta definição?
“A grande beleza” é uma história plena de otimismo: tem um fim feliz porque narra um homem que teve desilusão e desencanto, e que, depois de décadas de bloqueio criativo, aos 65 anos recomeça a escrever. Creio que é um filme capaz de restituir esperança no futuro do ser humano, na solução para a sua solidão e declínio.

Nas duas séries televisivas há uma coincidência narrativa nas vidas pessoais dos dois papas: Pio XIII perdeu os pais, enquanto João Paulo III perdeu o irmão.
O conceito de perda é aquele que presumo conhecer melhor, tendo vivido pessoalmente a morte dos meus pais quando era jovem. Quer seja uma pessoa querida, um irmão, um pai ou um amigo, todos podem declinar, na sua vida, um conceito de perda. Um tema interessando quando diz respeito aos fiéis, sobretudo os católicos, porque nesse caso a perda de figuras de referência poderia ser resolvida hipoteticamente, parcialmente ou totalmente, através do amor de Deus.

Que trabalho tem agora em mãos?
Filmarei em Nova Iorque, talvez no verão, um filme que estou a escrever com Angelina Burnett. Será extraído da biografia “Mob girl: A woman’s life the underwood”, de Teresa Carpentier [prémio Pulitzer em 1981 para o melhor artigo]. Inspira-se na história verídica de Arylene Brickman, primeira mulher da máfia nova-iorquina, depois informadora do FBI; será interpretada por Jennifer Lawrence.



 

Emanuela Genovese
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 07.01.2020

 

 
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