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Rumo ao amor, dia 29: Solitários e mudos

Por vezes pergunto aos jovens de que têm medo. A maioria responde que é da solidão. Como é possível? Todos tão amontoados e apertados, mergulhados no ruído, embalados pela música, envolvidos em imagens… Talvez tanta presença não chegue para nos salvarmos da solidão.

Uma solidão que se entrevê nos festos do corpo, no nosso aparente permanecer afastados, no não mostrar-se envolvido que oculta uma grande necessidade de contacto e de encontro.

Uma solidão que se vê através da maneira como cada um de nós controla continuamente se há mensagens no telemóvel, para fazer perceber que nunca estamos sós, e que alguém , de algum lugar, precisa de nós.

Vivemos entre estas múltiplas solidões, com rostos endurecidos pela preocupação tenaz de ocultar uma interioridade que não sabemos narrar.

Hoje, a publicidade parece dizer-nos que é bela a boca de uma mulher, que são belos os olhos de uma mulher; creio, pelo contrário, que não é bela a boca de um amulher, mas o seu sorriso, não são belos os olhos, mas o olhar.

Fazem-nos acreditar que se deve comunicar com os outros com uma aparência estática, na realidade comunica-se com os olhos, os sorrisos, os olhares, os pés.

Procuramos fugir à solidão experimentando conhecer o maior número de pessoas possível, mas só se se for capaz de gerar intimidade e alianças estáveis é que é possível afastar uma inevitável solidão.

Talvez seja por isto que a tendência nos últimos tempos é a de frequentar pequenos grupos, percebendo que na massa uma pessoa fica perdida e sente-se ainda mais só. No pequeno grupo, com efeito, os outros veem-me, escutam-me, fazem sentir-me uma pessoa, e não um número.

É preciso não ter medo de nos olharmos por dentro e reencontrar a intimidade connosco próprios, sabendo que nas coisas mais profundas e mais importantes estamos indizivelmente sós e não podemos escapar a sê-lo.

Na realidade, é precisamente quando não estamos ligados connosco próprios que vivemos solidões tristes e desabitadas.

Os meus olhos mudos,/ o olhar no vazio,/ medem a solidão diante de mim.
O meu corpo sob assédio/ sente apertar em si/ o meu grito solitário.
Sei quanto custa/ germinar ao frio,/ busco uma luz que seja conforto/ para o meu coração enrijecido.
Busco a alegria do meu rosto/ depois da chuva,/ essa paz que liberta o amor/ e o seu perfume.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: designer491/Bigstock.com
Publicado em 25.03.2020

 

 
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