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Setenta vezes sete

O profeta Ezequiel serviu durante o grande exílio para a Babilônia no século VI a.C. (Ezequiel 12,1-12). As suas profecias, anteriores à derrota de Israel, alertam para a condenação futura, encorajam o povo durante o exílio e, por fim, oferecem palavras de esperança na restauração e regresso. A derrota desastrosa e o exílio do povo eleito de Deus introduziram na sua memória histórica a profunda necessidade de arrependimento e perdão.

Jesus sublinhou continuamente essa necessidade ao pregar a misericórdia de Deus. A única maneira de, realmente, experimentarmos o perdão de Deus é perdoarmo-nos uns aos outros. Para que a pessoa possa reencontrar a paz, o “Pai-nosso” sublinha a centralidade do restabelecimento da relação ajustada com Deus, com o próximo e consigo mesmo. A recusa em perdoar interrompe a troca mútua de graça que nos liberta do medo, da culpa e do ressentimento. O perdão torna possível o objetivo da misericórdia de Deus, a criação da Comunidade Amada.

O apelo mais direto e poderoso que Jesus faz em relação à misericórdia talvez seja a parábola dos servos, no Evangelho de hoje (Mateus 18,21-19,1), motivada pela pergunta de Pedro: «Quantas vezes devo perdoar?». Na narrativa, o senhor perdoa a um dos seus servos uma dívida enorme, mas este recusa-se a perdoar um montante menor. O núcleo da história é que se Deus nos perdoou de maneira incondicional e extravagante, então devemos fazer o mesmo com os outros.



Pedro, possivelmente, deve ter-se afastado desnorteado com o desafio de perdoar setenta e sete vezes, ou sem limites. Mas, mais tarde, haveria de o compreender



Este apelo encontrou a maior resistência, não dos pecadores, que sabiam como era libertador ser perdoado, mas dos justos, que se consideravam dispensados do perdão de Deus. Não conseguiam entender que a sua própria existência e todas as bênçãos que tornavam possível viverem virtuosamente eram um presente de Deus. Um coração calculista é o inimigo da misericórdia, pois cria a ilusão de dignidade em comparação com a indignidade dos outros. O julgamento substitui a misericórdia com o ressentimento pelo facto de outros obterem vantagem sobre nós. Medimos o perdão pelo nosso próprio padrão de justiça.

Só a experiência de precisarmos de perdão pode ensinar-nos como é importante perdoar os outros. E se queremos ser verdadeiramente livres, não podemos manter o registo das ofensas. Esse não é o nosso problema. O amor incondicional e imerecido é como nos tornamos perfeitos, assim como o nosso Pai celestial é perfeito. Esta é a lição que nos liberta. Ao libertarmos as pessoas das suas supostas dívidas para connosco, libertar-nos-emos de ter de manter atualizado o “balancete”, de criticarmos o seu comportamento, de sermos compelidos a salvaguardar a nossa pontuação perfeita no "Grande Livro do Deve e Haver" que só existe nos desenhos animados e nas nossas mentes.

Pedro, possivelmente, deve ter-se afastado desnorteado com o desafio de perdoar setenta e sete vezes, ou sem limites. Mas, mais tarde, haveria de o compreender, quando, despedaçado pela sua própria falha em reconhecer Jesus quando Ele estava a ser levado para ser crucificado, mergulhou no desespero da eventualidade de nunca mais ser capaz de olhar para Deus, para si mesmo ou para os outros. E, no entanto, ele estava a ser preparado para ser o apóstolo enviado a pregar a misericórdia absoluta, o perdão total que ele mesmo tinha recebido de Jesus.

O Salmo 137 descreve a tristeza dos exilados na Babilónia, que choram nas margens do rio ao recordarem a sua terra-natal. Também nós podemos estar ou voltar a esse lugar, no qual a tristeza leva à mudança de coração e ao desejo de se ser recebido novamente com misericórdia.


 

Pat Marrin
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Milkos/Bigstock.com
Publicado em 13.08.2020

 

 
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