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“Serotonina”, o mais recente livro de Houellebecq: Em busca do sentido entre química e sagrado

No mais recente e aclamado livro “Sérotonine”, com promessa de edição portuguesa para este ano, o escritor francês Michel Houellebecq aprofunda o desespero do homem contemporâneo, rejeita os antidepressivos, e oferece aos leitores uma surpresa final.

A serotonina é um neurotransmissor que se tornou popular como chave para a felicidade pessoal. Os antidepressivos de última geração procuram manter alta a concentração daquela componente no sistema nervoso, mas sabe-se hoje que não são as variações da serotonina que causam diretamente, na maior dos casos, o mal típico da contemporaneidade.

O deprimido Florent-Claude Labrouste – de 46 anos mas com uma atitude emocional mais típica de uma pessoa com mais de 60 anos –, ao precipitar-se no grau zero da motivação para viver, recorre ao Captorix, feliz invenção do escritor inspirada nos fármacos à venda, a partir do mitificado e demonizado Prozac.

O Captorix, com o seu novo mecanismo de ação, é o substrato da existência da personagem narradora. Age como uma muleta temporária, «não cria nem transforma, interpreta». E, sobretudo, elimina a líbido. Não é o grande “euforizador” que oferece uma nova plenitude e reacende um eu gasto, nem o grande aliado do capitalismo que se pauta pela eficiência, e que quer todos, trabalhadores e consumidores, ativos e satisfeitos por via química.



É interessante notar como no horizonte imanentista em que se movem quer o autor quer Labrouste, não funcionam os remédios que a ciência fornece. Não funciona a farmacologia, que abranda o descendimento mas não tem o poder de o parar. Não funciona o implícito paradigma evolucionista



A extenuação do homem ocidental moderadamente rico e moderadamente instruído é uma crise de sentido – recorda-nos Houellebecq desde há muitos romances lucidamente e virtuosisticamente desesperados –, e não é um comprimido que vai restituir esse sentido.

É interessante notar como no horizonte imanentista em que se movem quer o autor quer Labrouste, não funcionam os remédios que a ciência fornece. Não funciona a farmacologia, que abranda o descendimento mas não tem o poder de o parar. Não funciona o implícito paradigma evolucionista, para o qual podem ser o trabalho manual e a luta diária pela sobrevivência aquilo que mantém afastado o tédio do homem contemporâneo, erradicado do seu ambiente primordial.

Com efeito, o amigo Aymeric, que munge manualmente as suas vacas todas as manhãs termina antes de tempo a sua parábola com um suicídio aparentemente “político”, mas na realidade inscrito numa dinâmica de profunda insatisfação pessoal.

Para Florent-Claude, a desilusão alarga-se a partir das relações familiares – os pais também tiram as suas vidas – à dimensão pública: qualquer compromisso de trabalho parece inevitavelmente destinado a um xeque-mate programático, uma engrenagem arrasta as coisas inelutavelmente e ninguém tem a oportunidade de reverter este curso.



Não basta manter o humor com o Captorix, frente a um vazio de que se tem cada vez mais lúcida consciência. Tudo é futilidade, se se renuncia também ao amor, poderia dizer Florent-Claude



Acende-se uma luz em flashes juvenis com as relações afetivo-sexuais que Labrouste agora lamenta como sendo a única fonte possível de felicidade. Mas esses momentos estão irremediavelmente perdidos, porque ninguém teve a coragem de neles colocar o coração, o que significa investir, comprometer-se, renunciar a alguma coisa. A posteriori, talvez fosse esse o caminho a percorrer. Mas os amantes não souberam ir além do seu desejo superficial de não impedir outras oportunidades e continuar a explorar sem uma verdadeira meta.

Não basta manter o humor com o Captorix, frente a um vazio de que se tem cada vez mais lúcida consciência. Tudo é futilidade, se se renuncia também ao amor, poderia dizer Florent-Claude, que sofre autenticamente mas não se abandona ao cinismo – quando se exercita a disparar na praia e não consegue puxar o gatilho depois de ter um pássaro na mira, também o leitor acha empatia por este homem privilegiado que parece andar a desperdiçar a vida.

A surpresa chega no final, que abre um horizonte inesperado, quase “eucarístico”. «Na realidade, Deus ocupa-se de nós, pensa em nós em cada instante, e por vezes dá-nos diretivas muito precisas. Estes fluxos de amor que afluem aos nossos peitos a ponto de nos tirar o fôlego, estas iluminações, estes êxtases, inexplicáveis se consideramos a nossa natureza biológica, o nosso estatuto de simples primatas, são sinais extremamente claros».

E a conclusão, naquelas linhas urticantes escritas por um ateu: «Hoje compreendo o ponto de vista de Cristo, o seu repetido irritar-se perante a insensibilidade dos corações: têm todos os sinais, e não se apercebem. É realmente necessário, além disso, que dê a minha vida por esses miseráveis? É realmente necessário ser assim tão explícito? Parece que sim». Não há Captorix que salve e volte a dar sentido. Mas os outros caminhos para todos os Labrouste revelam-se hoje dolorosamente impenetráveis.


 

Andrea Lavazza
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 20.02.2019

 

 
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