Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Ser jovem católica: Alegrias, expetativas, frustrações

Nasci católica, descendo de três gerações de mulheres católicas. Em certo sentido, o catolicismo foi-me imposto, sempre o conheci como a maneira certa de fazer as coisas. À medida que cresço a minha fé evolui, mas escolho-a a cada dia porque a identifiquei como o lugar em que Deus me fala.

Como jovem proveniente de um país democrático, onde os direitos e as liberdades dos cidadãos – em particular os das mulheres – não estão apenas encerrados na Constituição, mas também são respeitados quotidianamente na sociedade –, muitas vezes constato os meus valores pessoais em conflito com os valores da Igreja católica que me foram ensinados e com os quais cresci. Isto levou-me a experimentar uma sensação de incerteza em relação à minha moral e a como “posicionar-me” em relação a algumas questões. Penso que muitos jovens podem reconhecer-se no que digo.

Neste mundo globalizado em que todos são tão explícitos e opinativos sobre tudo, nós (jovens católicos) somos muitas vezes interrogados pelos nossos companheiros não católicos e, da nossa parte, colocamos em discussão a nossa própria fé, não tendo a quem nos dirigirmos para receber as respostas exatas de que precisamos, visto que a Igreja católica está estruturada de maneira particular, e por isso nem sempre dó respostas diretas. A incerteza sobre algumas questões levou-me, a certo ponto, a sentir um grande vazio, que não sabia como preencher. Era líder de jovens e continuei a servir a Igreja e a pastoral juvenil, mas o vazio permaneceu: ainda não me estava a conectar com Deus da forma que precisava.



Por vezes as coisas não acontecem assim; por exemplo, fica-se desempregado após a conclusão dos estudos. A Igreja católica não parece oferecer soluções ou indicações sobre como gerir este género de problemas. Frustrados, muitos jovens acabam por deixá-la e aproximam-se de outras igrejas que prometem dar acesso a todas aquelas coisas que se desejam instantaneamente



Como jovens, somos facilmente arrastados e subjugados por tudo aquilo que acontece na nossa vida e à nossa volta, quer se trate da escola, trabalho, vida social, problemas socioeconómicos ou esforços para manter sob controlo a nossa saúde mental. Acabamos por negligenciar a nossa formação espiritual, e era aqui que estava a afrouxar. Por causa da desesperada necessidade que tinha de preencher esse vazio, participei num retiro durante um fim de semana (coisa que não há muitos jovens a fazer), e foi graças à orientação espiritual de um sacerdote que consegui encontrar a maneira para poder conectar-me com Deus.

Essa experiência deu-me uma sensação de satisfação e saciedade. Recordou-me que tudo aquilo que precisava para preencher aquele vazio esteve sempre lá. Venho de uma pequena comunidade paroquial, pelo que senti sempre o amor e o calor dos paroquianos, que são como membros de uma família alargada. Quando lá estou experimento um forte sentido de pertença. Não sou orgulhosa e escolho a cada dia fazer parte daquela comunidade que acredita e que pertence a Jesus. Este mesmo sentido de pertença permite-me, como indivíduo, eleger ativamente a cada dia ser católica. (…)

Penso que a Igreja fez uma tentativa louvável de escutar as opiniões dos jovens, mas só até certo ponto, num aspeto em particular. A exortação apostólica pós-sinodal “Christus vivit”, que faz de carta do santo padre aos jovens, ajudou-nos a gerir a vida no âmbito da nossa religião.

Por outro lado, ver um jovem falar na assembleia geral [sinodal] foi como conseguir uma pedra angular. Demonstrou que a Igreja está à escuta e está atenta às opiniões dos jovens. (…)



Nunca poderá ser uma solução válida para todos, mas favorecer encontros pessoais com Cristo, proporcionar espaços, orientação e apoio desde que se é pequeno poderia ser um bom início



Não estando profundamente radicados na nossa fé, fazemos nossos os pontos de vista e os ideais de outros (dos nossos pais). Por isso é mais fácil abandoná-los – e muitos fazem-no quando saem de cada: não são os nossos ideais, adotámo-los.

Infelizmente, devido às pressões das redes sociais, os jovens têm uma grande necessidade de gratificações ou soluções instantâneas. A maior parte deles cresceu a ouvir dizer que os acontecimentos da vida ocorreriam segundo uma ordem específica, e que, se fizessem bem as coisas, tudo seguiria essa ordem. Por vezes, no entanto, as coisas não acontecem assim; por exemplo, fica-se desempregado após a conclusão dos estudos. A Igreja católica não parece oferecer soluções ou indicações sobre como gerir este género de problemas. Frustrados, muitos jovens acabam por deixá-la e aproximam-se de outras igrejas que prometem dar acesso a todas aquelas coisas que se desejam instantaneamente.

Nunca poderá ser uma solução válida para todos, mas favorecer encontros pessoais com Cristo, proporcionar espaços, orientação e apoio desde que se é pequeno poderia ser um bom início. Deveria sempre sentir-se que a Igreja católica é o lugar onde se encontra Cristo antes ainda que o lugar das orações estruturadas, das regras e dos procedimentos.

*A autora é uma leiga católica. Tem 29 anos e nasceu em Pretória, capital administrativa da África do Sul. Secretária-geral da Comissão interdiocesana para os jovens da Conferência Episcopal da África do Sul, foi escolhida para representar a região da África do Sul, Botswana e Suazilândia nas reuniões preparatórias, em Roma, do Sínodo dos Bispos sobre o tema “Jovens, fé e discernimento vocacional”, realizado em outubro de 2018.


 

Koketso Mary Zomba
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: AndreyPopov/Bigstock.com
Publicado em 22.02.2022

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos