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Ser humano e negar humanidade

Devemos ser otimistas ou pessimistas a propósito do nosso futuro? Depois de termos repetido, nos períodos mais agudos da pandemia, que sairíamos melhores, que avaliação podemos dar hoje de nós mesmos? Retomemos os caminhos do realismo: nós, seres humanos, somos capazes de maravilhas, quer criativas quer morais, mas alguma coisa de desumano, de irracional, de hostil, ameaça o humano em nós. Quando esta força cega se manifesta, toma-nos por vezes como uma deriva imparável que nem sequer sabemos nomear – mas que, paradoxalmente, com o tempo acaba por não suscitar nem surpresa, nem escândalo, nem reflexão.

Esta força torna-se manifesta com evidência quando nos ocupamos do drama do aborto. As palavras proféticas do papa Francisco sobre este tema erguem-se quase solitárias, como montanhas cujos cumes se destacam inalcançáveis,quando, pelo contrário, nos recordam, precisamente, o humano – o comum, universal, até “simplesmente” civil humano – na sua essência. O papa, com efeito, diz que o aborto é um tema pré-cristão, ou seja, algo que diz respeito ao humano ainda antes de que o “religioso”.

Quando se fala deste tema, cria-se um estranho silêncio. É nomeado até com um certo incómodo, sinal evidente de uma remoção. O papa, pelo contrário, menciona-o com uma simplicidade desarmante, assim como é simples a verdade que afirma: estamos a falar de um homicídio. E até que o ser humano não tome consciência desta tremenda e horrível tragédia, através da qual são mortas diariamente centenas de vidas, não podemos dizer que nos tornámos plenamente nós próprios. Somos humanos quando nos batemos contra a pena de morte e a tortura, e quando nos recordamos das tragédias de cada holocausto e genocídio, para não as repetir.

Somos humanos quando nos batemos contra o comércio das armas, contra os mercados da máfia – a partir dos da droga e da prostituição –, contra o comércio de órgãos. Somos humanos quando lutamos contra toda a forma de exploração, contra a fome no mundo, contra a pobreza e por uma sociedade em que cada pessoa possa viver em plena dignidade.



Há uma atitude que deve à desumanidade: a confusão a que se chega ao afirmar que é justo optar por matar porque seria um direito. Trata-se de um argumento que parece ter a característica de uma conquista, quando não é mais do que a certificação de uma derrota



Somos desumanos, pelo contrário, quando fingimos que este problema não é crucial. Recai sobre nós um grave risco: tornarmo-nos como os alemães, envolvidos no clima de consenso em torno ao regime nazi ou seriamente temerosos de perder a vida, que fingiam que não viam as deportações, os campos de concentração, os fornos crematórios. Todavia sabiam, se quisessem saber, que a poeira que chegava dos caminhos das cidades não era neve artificial, mas cinzas dos corpos cremados. Faziam-no por engano da propaganda e sobretudo por medo: nós fazemo-lo por indiferença.

Um vez colocado termo aos horrores do nazismo, tornámo-nos mais humanos. Como então, já não podemos esconder o problema. Seremos como quem descobre uma terrível realidade e não quer saber, manchando-se com a omissão de socorro. Há depois outra atitude que deve à desumanidade: a confusão a que se chega ao afirmar que é justo optar por matar porque seria um direito.

Trata-se de um argumento que parece ter a característica de uma conquista, quando não é mais do que a certificação de uma derrota: perante uma vida que se anuncia, capitular às condições – muitas vezes graves – que tornam difícil acolhê-la. Uma derrota que pesa sobre as mulheres, que muitas vezes optam, como mães, por renunciar a uma perspetiva de amor porque em dificuldade objetiva: uma dificuldade em que a maioria de nós as deixamos sós.

É tempo que sobre este argumento a nossa atitude mude profundamente: renunciar às certezas que se tornam barreiras entre nós e a realidade, renunciar às razões que hoje consideramos definitivas e que deixaram de ser dignas de ser avaliadas e verificadas: a vida humana é sagrada desde a sua conceção, e o aborto é a morte voluntária de um ser vivo inocente e indefeso.



Apenas saindo da diatribe entre crentes e não-crentes, mas permanecendo no humano e no seu interrogar-se pode começar a abrir-se plenamente, tal como uma flor à luz, a nossa humanidade



A ciência não é uma doutrina abstrata; convida-nos a refletir, como seres humanos, sobre este facto. Os seus progressos são constantes: a propósito dos estudos sobre as experiências e a aprendizagem do feto, sobre as suas reações, para não falar do seu completo património genético e da sua singularidade, estamos hoje perante novos conhecimentos e novas evidências. E a medicina faz milagres também no campo do acompanhamento do desenvolvimento de bebés que, por várias razões, nascem muito prematuramente.

O discurso que Madre Teresa de Calcutá quando recebeu o prémio Nobel embaraçou os políticos presentes. Disse que a maior chaga do nosso tempo é o aborto. Também ela falava com as palavras da profecia, com as palavras da verdade. Também ela não pensava que estava a falar a um público de crentes e de devotos, mas ao mundo, isto é, a todos. Podemos vivem sem amar a vida até ao fim? Podemos viver traindo a nossa natureza?

O papa indica-nos o caminho da felicidade comum. Não quer doutrinar-nos, não fala do aborto com as “armas” de um catolicismo impregnado de ortodoxia e fortalecido por um poder que pertence, felizmente, ao passado, mas quer dizer-nos como ser plenamente felizes juntos. E o seu discurso não tem nada de utópico: indica com a simplicidade própria do Evangelho um drama que está diante dos nossos olhos e declara ser possível pôr-lhe fim para o bem de todos.

Nós, crentes e não-crentes, se ainda não o fizemos, devemos começar a interrogar-nos sobre as suas palavras. Apenas a partir desta abertura, saindo da diatribe entre crentes e não-crentes, mas permanecendo no humano e no seu interrogar-se pode começar a abrir-se plenamente, tal como uma flor à luz, a nossa humanidade. Então sentiremos seu pleno perfume. Então virá a verdadeira paz.


 

Arnoldo Mosca Mondadori
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: melitas/Bigstock.com
Publicado em 13.03.2021

 

 
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