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Sean Connery: Mais que James Bond

Sean Connery, nascido em Edimburgo a 25 de agosto de 1930 e desaparecido no passado 31 de outubro em Nassau, foi um extraordinário ator que sofreu a desconsideração de conhecer o sucesso durante uma das fases mais fátuas do grande ecrã, ou seja, o cinema de género dos anos 60. Uma época em que aqueles que tinham sido os géneros clássicos do entretenimento de Hollywood passaram sob uma prensa que lhes esvaziou a dramaturgia, para os tornar numa questão de pura estética. Disso são flagrantes exemplos as comédias com Doris Day e Rock Hudson, o “spaghetti western” e o policial americano que repescava as figuras do velho “hard boiled”, convertendo-as num ar entre o hiper-realista e o arqueológico.

O génio, aqui e ali, não faltou, mas a sensação de que tudo, no contexto do cinema comercial, já tinha sido dito, começou naqueles anos a insinuar-se sem que, todavia, fosse completamente desenvolvida a capacidade e desconstruir e reelaborar típica do verdadeiro pós-moderno. Ao olhar indulgente do espetador, que de crítico se começava a converter em passivo, sob os golpes agressivos do pequeno ecrã, e mais em geral da sociedade de consumo, apresentaram-se simulacros decorativos desse cinema de género.

Os filmes do 007, que apesar de proporem um género não ainda saturado, a “spy-story”, são perfeitos para se inserirem neste contexto. Ainda que se fale de espionagem internacional, sob a escolta dos romances de Ian Fleming, que foi um verdadeiro espião, as histórias são completamente desligadas da realidade. O personagem principal tem a elegância irrepreensível, “glamour”, mas também um ar algo “retro” que se espera da figura de um manifesto publicitário, a frase com que se apresenta em cada filme - «o meu nome é Bond, James Bond», uma marca, mais do que um nome de pessoa – corresponde a um slogan.



Um filme belo e decisivo para Connery – ainda que sempre negligenciado – é também o cru “The Molly Moguires” (Martin Ritt, 1970), no qual é o chefe de um grupo de mineiros rebeldes



As suas cúmplices femininas sucedem-se, anónimas, no ecrã à maneira de pajens televisivos. Os seus inimigos têm um aspeto exagerado, quase de marioneta, não querem inserir-se subtilmente em qualquer obscura dinâmica geopolítica, mas diretamente dominar o mundo, e o agente ao serviço de sua majestade derrota-os servindo-se de bugigangas tecnológicas semelhantes a brinquedos. Características, estas duas últimas, que, entre outras implicações, fazem dos filmes de Bond uma antecipação da moda dos super-heróis no ecrã. A sequência mais sugestiva de cada película da séria será, pontualmente, representada pelos créditos de abertura, verdadeiros videoclips “ante litteram”.

O motivo pelo qual Connery, ator verdadeiro de origens humildes, com percursos teatrais e uma biografia feita de muitos ofícios transitórios, foi encastrado neste mecanismo lustroso e bidimensional, sancionando o sucesso e a longevidade com uma presença em sete filmes, permanece um mistério fascinante, que se pode parcialmente explicar por uma aparência ao mesmo tempo vigoroso e elegante, um sorriso enigmático, traços somáticos mais próximos de um “latin lover” do que aqueles podemos imaginar num gélido espião anglo-saxónico. Em todo o caso, os filmes de 007 – de que é justo recordar pelo menos o fundador, “Dr. No” (Terence Young, 1962) e o mais conseguido “Goldfinger” (Guy Hamilton, 1964), pelo excelente ritmo e as cenografias de estilo pop de Ken Adam – não são, por certo, os melhores da sua carreira. O ator escocês conseguiu, com efeito, subtrair uma parte importante da sua filmografia ao monopólio “bondiano “.

Em 1964 grava o seu filme mais belo, “Marnie”, a última obra-prima de Alfred Hitchcock, com uma interpretação que foi sempre subvalorizada. Ele que na roupagem de Bond teve encontros fugazes e sem demora com belas jovens, aqui enamora-se por uma cleptomaníaca que, devido a um trauma, tem dificuldade em relacionar-se com os homens. Graças a Bond, Sean é já um ícone que centra em si toda a atenção do público, mas para Sir Alfred sabe pôr-se ao serviço de uma história de mil vaivéns dramatúrgicos, deixando à coprotagonista feminina boa parte da cena. Uma prova de grande inteligência e sensibilidade.



Os anos 80 também se revelam ricos e entusiasmantes. “Highlander” (Russell Mulcahy, 1986) é um mau filme mas de grande sucesso, a que se seguem “The name of the rose” (Jean-Hacques Annaud, 1986), de Umberto Eco, e “The untouchables” (1987), sobrevalorizado “gangster movie” de Brian De Palma, que, no entanto, teve o mérito de dar a ganhar a Connery um merecido Óscar



No ano seguinte, com “The hill”, filme de guerra original, inaugura a importante associação com Sidney Lumet, que o transportará definitivamente para fora do território do 007 através de personagens bem mais contorcidos e até desagradáveis. Em “The Anderson tapes” (1971) é um criminoso paradoxalmente espiado por um detetive, em “The offence” (1972) é um polícia que vai obsessivamente à caça de um pedófilo, até transformar-se em justiceiro. Mas um filme belo e decisivo para Connery – ainda que sempre negligenciado – é também o cru “The Molly Moguires” (Martin Ritt, 1970), no qual é o chefe de um grupo de mineiros rebeldes.

Com a nova década, o cinema de género volta a conquistar consistência e a readquirir inspiração do mundo real, e Connery está pronto para personagens ricas de facetas, numa roda-viva entre os EUA e o Reino Unido. Para Johm Milius é um berbere em “The wind and the lion” (1975), para John Huston um sargento aventureiro em “The man who would be king” (1975). Com estes e com o anterior “Zardoz” (John Boorman, 1974), releitura distópica de “O feiticeiro de Oz”, Connery apresenta-se como personalidade forte capaz de encarnar personagens titânicos, mas logo depois veste com igual credibilidade os farrapos humildes de um envelhecido Robin Hood em “Robin and Marian” (Richard Lester, 1976). Por sua vez, para Fred Zinnermann é protagonista do drama psicológico “Five days one summer” (1982).

Os anos 80 também se revelam ricos e entusiasmantes. “Highlander” (Russell Mulcahy, 1986) é um mau filme mas de grande sucesso, a que se seguem “The name of the rose” (Jean-Hacques Annaud, 1986), de Umberto Eco, e “The untouchables” (1987), sobrevalorizado “gangster movie” de Brian De Palma, que, no entanto, teve o mérito de dar a ganhar a Connery um merecido Óscar. Em “Indiana Jones and the last crusade” (Steven Spielberg, 1989) rouba muitas vezes a cena a Harrison Ford.

No limiar dos anos 90 regressa à “spy story” com “The hunt for the Red October” (John McTiernan, 1990) e “The Russia house” (Fred Schepisi, 1990). O último belíssimo papel, antes de um longo retiro, foi o de um escritor inspirado na figura de J.D. Salinger em “Finding Forrester” (Gus Van Sant, 2000).


 

Emilio Ranzato
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "O nome da rosa" | D.R.
Publicado em 03.11.2020

 

 
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