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Se o Evangelho se reduz a humanismo

É urgente para a Igreja descentrar-se, para colocar no centro o Evangelho que é Jesus Cristo, o caminhar conjunto de todos os batizados com os pastores vivendo no quotidiano a sinodalidade, e opção, sempre a renovar-se, de viver no mundo com a pobreza que o próprio Cristo viveu.

Têm sido ditas muitas palavras, sobretudo da parte dos pastores, mas verdadeiros passos, convictos e visíveis, naquelas direções, não têm sido dados. Aquela que devia ser a reforma da Igreja volta a faltar, quase como que uma lei que, onde se esboça um despertar, uma primavera, uma profecia da parte da Igreja, depressa detém tudo. A imagem mais vezes usada, não só por mim, é a das cinzas que cobrem o fogo que antes tinha deflagrado.

É conhecida a passagem do Evangelho segundo Lucas em que Jesus coloca ao auditório dos discípulos uma pergunta: «O Filho do homem, quando vier, encontrará a fé sobre a Terra?» (18,8). Por vezes apetece-me responder que seguramente encontrará as Igrejas, mas será mais difícil encontrar a fé. Porquê estas dúvidas? Afirmo-o com humildade e simplicidade: porque me parece que a Igreja, apesar de animada pela intenção pura de seguir Cristo, todavia «fala, discorre e prega mais ou menos sobre tudo, da paz no mundo à transição ecológica, dos migrantes à economia, mas fala sempre menos no que diz respeito ao desafio decisivo para cada pessoa: e quanto a mim? O que me espera e é verdadeiramente salvação?» (Dominique Collin).



Onde estão as sentinelas postadas sobre os muros de Jerusalém? Que coisa sabem gritar? Sabem anunciar a manhã que vem, ou sabem apenas confirmar a noite?



Nestas últimas décadas fomos despertados de um torpor que nos fazia fugir da história e dava às nossas palavras só um significado espiritualista. Foi uma graça que a Igreja se tenha descoberta na sua verdadeira identidade de Igreja de pobres; que a fé professada de maneira "a-cósmica" tenha assumido a dimensão da consciência da cocriaturalidade entre nós, seres humanos, e todas as criaturas, nesta Terra; que a Igreja tenha sabido denunciar o pecado social da injustiça que reina no mundo. É uma graça que nos torna mais fiéis ao Evangelho. Mas se o Evangelho se reduz somente a humanismo, se deixa de aparecer a "diferença cristã", então o cristianismo deixa de ter uma palavra viva, uma mensagem, um Evangelho, isto é, uma boa notícia a transmitir aos humanos.

Há demasiado esforço da parte da Igreja para "estar no mundo" a todo o custo. Vê-se pelo comprazimento que se procura nos média, pelas audiências que se quer receber com todos os meios. Esta contínua realização de eventos e iniciativas na realidade deixa o mundo indiferente. Disse-o e escrevi-o várias vezes: só a diferença cristã consegue riscar a indiferença do mundo, só uma presença "outra", não para distinguir-se, não contra e sem os outros, mas uma presença profética que não se identifica com a maioria mundana, pode ser eloquente.

Na crise em que nos precipitámos há décadas, agora acentuada pela pandemia que parece um acontecimento capaz de «desvelar o pensamento de muitos corações» (cf. Lucas 2,35), devemos dar-nos conta que se tornou urgente uma verdadeira conversão, sem a qual a fé cristã arrisca a desaparecer ou de reduzir-se a desfiados movimentos difusos no nosso ocidente europeu. Mas onde estão as sentinelas postadas sobre os muros de Jerusalém? Que coisa sabem gritar (cf. Isaías 62,6)? Sabem anunciar a manhã que vem, ou sabem apenas confirmar a noite (cf. isaías 21,11-12)? Porque é que cada vez mais a pregação cristã se alimenta de antropologia, de psicologia, e não da Palavra de Deus, do Evangelho?



A conversão que nos ocorre não é a uma doutrina, a fórmulas teológicas, mas, precisamente, à vida, como testemunham os cristãos de Jerusalém ao constatar a conversão dos pagãos



O resultado é um novo moralismo não obsessivo e escrupuloso como o que a minha geração conheceu na sua juventude, mas que busca - como diz o papa francisco - «o estar bem consigo próprio», «a harmonia com o outro»: «a fé é reduzida a um moralismo, a um titânico e desastroso esforço de vontade», portanto a um neopelagianismo. Torna-se, lamentavelmente, um teísmo (no qual ainda há uma certa referência a Deus), que dá lugar apenas a uma admoestação moral que mortifica a boa notícia de Jesus Cristo, e na qual domina uma preocupação terapêutica provada de qualquer referência à graça.

Se o campo está ocupado por esta linguagem dominante, consolatória e gratificante, decerto não resta espaço para aquilo que no cristianismo é verdadeiramente Evangelho, boa notícia. Hoje devemos redescobrir na fé cristã aquilo que é realmente vida: vida ("zoé") mais vivente do que o simples existir biológico ("bíos"). Essa vida que se manifestou, escreve o apóstolo João, no Verbo-Palavra Jesus Cristo. A conversão que nos ocorre não é a uma doutrina, a fórmulas teológicas, mas, precisamente, à vida, como testemunham os cristãos de Jerusalém ao constatar a conversão dos pagãos ("metánoia eis zoèn", Atos dos Apóstolos 11,18).

Trata-se de voltar a colocar no centro da fé antes de tudo jesus Cristo, que nos narrou o Deus invisível, vivo e verdadeiro. Só Cristo é o fundamento da diferença cristã, o Cristo do Evangelho, nascido de Maria, que viveu na Palestina, morto e ressuscitado. Sem a morte e a ressurreição, Jesus Cristo não pode ser o destinatário da nossa adesão-fé, aquele no qual temos esperança porque é a nossa esperança. Nós, cristãos, não temos muito de específico a dar aos outros, mas esta boa notícia da ressurreição de Jesus, portanto também nossa, sim! Sem esta postura e esta coragem, somos sal que perdeu o sabor. Precisamente por isto o cristianismo não pode atestar-se de maneira definitiva, mas pode sempre e só renascer, recomeçar.


 

Enzo Bianchi
In Il blog di Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: EvaP/Bigstock.com
Publicado em 27.01.2021

 

 
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