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Se a traição de Pedro serve para nos conhecermos a nós mesmos

Conseguir uma perspetiva objetiva sobre si próprio é difícil, mas vale o esforço que exige. Sim, devemos conseguir dizer-nos, é isto que fui, e é isto que fiz. No bem e no mal fui aquilo que fui. É este o motivo pelo qual a vida aérea sobre a nossa existência é uma dura prova. Já me aconteceu estar ao lado de pessoas que, enquanto chegava a morte, eram devoradas pelos remorsos dos erros cometidos durante o caminho; pelas estradas erradas por onde enveredaram; pelos laços quebrados e nunca reatados, por filhos que as acusavam de ser a razão de todos os seus problemas.

Ver-se para trás quando se é velho pode acrescentar mais peso a uma idade já difícil. Por isso gostaria de sugerir uma maneira para tirar um pouco da dor devida ao arrependimento. E quero começar olhando para um grande retrato do século XVII. A pintura é S. Pedro penitente, de Guercino. Foi executada em 1639, e agora está conservada nas National Galleries of Scotland. Nela se retrata o apóstolo S. Pedro com o rosto tomado pela angústia, alguns instantes depois de ter traído Jesus. A traição de Pedro é uma história muito conhecida, mas vale a pena determo-nos ainda nela por aquilo que pode ensinar-nos sobre a natureza humana.

Pedro era um homem impulsivo, nunca tinha freio na língua, e declarava continuamente a sua devoção a Jesus. Quando foi evidente que o desafio de Jesus às autoridades políticas e religiosas o conduziria à prisão por sedição e blasfémia, Pedro continuou a fazer voz grossa. Todos os outros podem abandonar-se, Mestre, disse, eu nunca o farei. Preferirei morrer a trair-te. Direi àqueles que vierem prender-te, vinde! Se quereis Jesus, tereis de matar-me primeiro. E não o fez só por fanfarronice. Pedro acreditava naquilo que dizia. E queria verdadeiramente fazê-lo. Porque esse era o género de homem que pensava ser; ou que queria ser.



Jesus sabia quanto poderia ser fácil conduzir uma vida sem nunca ser posto à prova, inconsciente da sua verdadeira natureza. Por isso os advertia para a condenação dos outros por terem falhado naquilo que a eles ainda não lhes tinha tocado em sorte



Os soldados prenderam Jesus no coração da noite, como sempre acontece, e levaram-no para que fosse processado, a sua condenação à morte já escrita. Pedro segue-o, oculto na sombra, observando o que estava a acontecer. Por três vezes nas horas que se seguiram foi impelido a confessar que era um amigo de Jesus. E por três vezes o negou, com convicção sempre maior. «Não conheço esse homem», gritou por fim. O Evangelho de Lucas narra que à terceira, Jesus se voltou para olhar Pedro. E Pedro fugiu, derramando lágrimas amargas.

Quem tenha abandonado um amigo ou uma pessoa amada no momento de necessidade, conhece o sabor daquelas lágrimas. A pintura de Guercino colhe a dor desesperada de Pedro pela sua traição, e também a nós suscita o choro só de o olhar. É importante dar-se conta de que Pedro não sabia estar destinado a trair Jesus até que o fez. Amava-o verdadeiramente. Queria verdadeiramente morrer juntamente com Ele. No entanto, quando foi obrigado a prová-lo, fez o exato contrário do que queria. É fácil imaginar o vazio que sentiu depois de o ter traído. Odiava-se por aquilo que tinha feito, pelo homem que a Jesus tinha demonstrado ser. Mas não sabia ser quem era realmente até àquele momento no jardim, quando descobre que não é tão corajoso e leal. Era um homem frágil, sólido como a água.

Não sabemos o suficiente de Pedro para compreender o que o conduziu a tornar-se um traidor. Os Evangelhos não são biografias. São esboços. Mas um desenhador hábil pode traçar uma personagem mesmo com poucos toques. Percebemos logo que tipo de homem era, porque estamos habituados às tramas complexas do comportamento humano. Há os gabarolas que se escondem dos seus próprios medos. Há aqueles que odeiam o desejo dos outros porque não conseguem admiti-lo em si mesmos. As contradições de si próprio são infinitas. E a maior parte daquilo que Eliot define «pena auto-infligida», devida à nossa recusa de nos conhecermos.

Deixai que extraia algumas conclusões do que Pedro viveu. Quando os discípulos de Jesus recitavam a oração que Ele lhes tinha ensinado, diziam «não nos deixeis cair em tentação». Talvez haja um pouco de ironia naquilo que Jesus estava a tentar fazer-lhes compreender. Estava rodeado de homens que se vangloriavam, dizendo que nunca o trairiam, acontecesse o que acontecesse. Contudo, quando chega o momento de o demonstrar, fugiram todos. E tocou àquele que mais se vangloriava fazer a figura mais miserável, a Pedro, o seu braço direito.

Jesus sabia quanto poderia ser fácil conduzir uma vida sem nunca ser posto à prova, inconsciente da sua verdadeira natureza. Por isso os advertia para a condenação dos outros por terem falhado naquilo que a eles ainda não lhes tinha tocado em sorte. E eis o motivo por que, com o seu olhar de compreensão, despedaça o coração de Pedro. Mas naquele momento Pedro começa a amadurecer uma consciência de si. Podemos avançar na existência sem saber quem somos, até quando a combinação certa de circunstância nos põe à prova, revelando o nosso verdadeiro caráter. É como se a parte que ocupamos no recital nos fosse desconhecida até ser desvelada, fazendo-nos descobrir o nosso eu profundo. Mas quando chega o momento, e nos revelamos a nós mesmos, devemos ser capazes de o aceitar, e admitir o que somos e não somos capazes de fazer.


Imagem "S. Pedro penitente" | Guercino | National Galleries of Scotland

 

Richard Holloway
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "S. Pedro penitente" | Guercino | National Galleries of Scotland
Publicado em 21.05.2019

 

 
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