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Cartas que demoraram quase três séculos: S. Paulo da Cruz chega à língua portuguesa

Uma carta reporta sempre um nome no cimo da folha. Responde a uma pergunta que alguém colocou a quem conhece as aflições de uma pessoa concreta. Quem a escreve compromete-se com uma vida. Foi assim, debruçado sobre centenas de vidas, que S. Paulo da Cruz passou muitas noites do século XVIII, depois de dias inteiros a pregar pelas aldeias do que viria a ser a Itália. São essas cartas, escritas a pessoas com nome e história próprias, que começam agora a chegar à nossa língua.

Está a ser publicada em português a coleção Cartas de S. Paulo da Cruz aos Leigos: sete volumes com quase 900 cartas que o Fundador dos Passionistas escreveu a homens e mulheres que se debatiam com os seus problemas no meio do mundo. Os primeiros já estão impressos e a coleção deverá ficar completa antes do fim do ano. A notícia chega perto de 19 de outubro, dia da sua festa, e alegra de modo especial a Família Passionista, que ouve agora o Fundador falar, com a sua própria voz, a quem reza e pensa em português.

Para quem nunca ouviu falar dele, convém pincelar, embora que brevemente, os principais traços da sua personalidade.

Paulo Danei – foi esse o seu nome desde o berço – nasceu em Ovada, no norte de Itália, em 1694, numa família de pequenos comerciantes. Ainda jovem, a Paixão de Jesus tomou-lhe o coração de tal modo que nunca mais olhou para o mundo sem a ver lá dentro. Em novembro de 1720 vestiu uma pobre túnica negra e começou a dar forma a uma nova Família Religiosa, destinada a guardar viva a Memória do amor de Cristo Crucificado-Ressuscitado e a anunciá-lo ao povo simples.

Nasciam assim os Passionistas, a Congregação da Paixão de Jesus Cristo, cujas Regras foram aprovadas pela primeira vez em 1741. Durante décadas percorreu as terras pobres do centro de Itália a pregar missões e a fundar conventos. Morreu em Roma a 18 de outubro de 1775 e foi canonizado em 1867. Em 2025, a Família Passionista, espalhada por 60 países do mundo, assinalou os 250 anos da sua morte, e esta edição quer também prolongar essa memória.

A Portugal, os Passionistas chegaram em outubro de 1931, quando quatro religiosos vindos de Espanha se instalaram no Sameiro, em Braga. Pouco depois mudaram-se para Barroselas, no Alto Minho, e dali foram alargando a sua presença. Hoje têm em Portugal três comunidades, em Barroselas (diocese de Viana do Castelo), Santa Maria da Feira (diocese do Porto) e Santo António da Charneca (diocese de Setúbal), e outras três em Angola, no Uíge, em Calumbo e no Huambo. Em Portugal, estabeleceram-se também em Arcos de Valdevez, em Coimbra, em Viseu e em Linda-a-Velha. As contingências diversas fizeram com que estas “estadias” fossem provisórias. Desde 2015 pertencem à Província de Maria Apresentada no Templo (MAPRAES), que abrange os Passionistas de Itália, Portugal, França, Angola, Bulgária e Nigéria.

Voltemos ao Fundador. Numa vida tudo menos fácil – pensemos nos inúmeros problemas surgidos com a fundação da Congregação e no governo da mesma como seu Superior Geral, cargo que exerceu até à morte após a fundação –, Paulo encontrava ainda tempo para escrever às mais diversas categorias de pessoas. Calcula-se que tenha redigido mais de 32.000 cartas, número difícil de imaginar para um homem sempre em movimento e cheio de preocupações. Chegaram até nós cerca de 2.000, e quase metade dirigida aos Leigos. Ele próprio se queixava do peso desse trabalho. A Inês Grazi, uma das suas correspondentes, confessou certa vez que a cabeça já não aguentava mais, e chegou a pedir-lhe que queimasse todas as cartas que dele recebera, porque as queria guardadas no coração de Deus. Ela nunca o fez e, graças a essa pequena desobediência deve-se a conservação de 166 cartas a ela endereçadas durante 14 anos de direção espiritual, algumas delas verdadeiras joias de espiritualidade.

Do outro lado da folha havia um pouco de tudo: pais de família preocupados com os filhos e com os negócios, viúvas, marquesas, criadas, professoras, religiosas ou aspirantes, gente instruída e gente que mal sabia ler, sãos os doentes e todos aqueles que precisam de uma palavra de alívio e de esperança. É este mundo, cheio de rostos e de nomes, que agora se abre ao leitor português.

O ponto de partida foi o trabalho de uma versão do passionista italiano P. Massimiliano (Max) Anselmi, que em 2002 publicou em Roma, em dois grandes volumes, as cartas do Fundador aos Leigos, confrontadas com os originais e acompanhadas de longas notas históricas e críticas.

A tradução portuguesa começou de forma discreta. A “Equipa de Espiritualidade da Família Passionista” do Brasil, coordenada pela Irmã Jaqueline de Oliveira, preparava a sua própria edição e pediu ajuda aos Passionistas portugueses, tendo o P. Porfírio Sá colaborado com a tradução de, então, cerca de 500 cartas. Daí nasceu a ideia de fazerem o caminho a dois. Não foi simples, porque em Portugal e no Brasil nem sempre se dizem as coisas da mesma forma e maneira, concluindo por cada um seguir um caminho próprio. Mas havia tanto trabalho feito de parte a parte que seria pena não o aproveitar, juntando-o. O resultado é uma coedição luso-brasileira, coordenada em Portugal pelo P. Porfírio Sá e publicada pelas Edições Passionistas, em Santa Maria da Feira.

A edição foi pensada para ser lida e meditada, mais do que estudada. Os dois volumes em italiano – com 2.510 páginas – deram lugar a sete, mais leves, reduzindo as notas crítico-históricas ao essencial, porque, como explica o coordenador, o que mais importa à maioria dos leitores são as próprias cartas, numa leitura que se deseja «contagiante e transformadora». Cada carta, onde o reconhecimento da identidade dos destinatários foi possível, abre com uma breve apresentação do mesmo destinatário; quando isso não foi possível, a carta abre com um breve resumo do seu conteúdo. O primeiro volume, para além da “Apresentação-Prefácio” do Bispo Passionista D. José Roberto dos Reis – Auxiliar da Arquidiocese da Goiânia – e dos “Prolegómenos de abertura” do Coordenador da versão portuguesa, reporta ainda um longo texto explicativo do P. Anselmi, que apelida de “Guia de leitura”, catalogando as primeiras 98 cartas aos Leigos.

Quem abrir estas páginas à espera de um tratado de teologia ficará desiludido. Paulo escreve como um amigo mais velho que sabe ouvir, com ternura, com franqueza, às vezes com uma ponta de impaciência, que o torna ainda mais próximo. E tem um bom senso que desarma quem imagina os santos daquele tempo sempre entregues a orações, jejuns e cilícios. A Tomás Fossi, um pai de família da ilha de Elba, que sonhava com grandes penitências, incluindo o desejo do voto de castidade perpétuo entre o casal, respondeu que as suas penitências eram outras: a paciência nas contrariedades, a bondade com os empregados, a oração, os sacramentos e, acima de tudo, a boa educação dos filhos. «Isto é o que o tornará santo no seu estado», escreveu-lhe. Noutra ocasião lembrou-lhe que «não se pode voar enquanto não nos forem dadas asas».

A santidade que Paulo propõe não obriga a fugir do mundo nem a fazer coisas extraordinárias. Cresce dentro da vida de cada um, na cozinha, na oficina, no campo, junto a um doente, no casamento, na viuvez, etc. E tem um centro muito claro, a Paixão de Jesus Cristo, que ele via como a maior prova do amor de Deus e remédio para a cura de todos os males. Ensinava pessoas atarefadas a meditá-la com simplicidade e a deixarem-se ficar quando o coração se enchesse de paz, recolhidas em Deus «como uma abelha a sorver o mel de uma flor».

Por isso, estas cartas podem fazer bem a qualquer pessoa, mesmo a quem nunca ouviu falar de Paulo da Cruz. As perguntas que chegavam até ele há quase trezentos anos são parecidas com as nossas ou até mesmo iguais às nossas, hoje: como rezar quando não se sente vontade, o que fazer com a ansiedade que não nos larga ou com a culpa que volta sempre, como ser fiel quando o cansaço pesa?!... A um jovem da ilha de Elba, que sofria terrivelmente de escrúpulos, pediu que não filosofasse tanto sobre si mesmo e que «não pretendesse alcançar a perfeição à força, mas que fizesse docilmente o que pudesse». Aconselhou-o a passear ao ar livre, a ouvir «o sermão que lhe darão as flores, as árvores e as ervas, o céu, o sol e todo o mundo» e a descansar em Deus «como uma criança no colo da sua mãe». E a uma Marquesa que se queixava de aridez na oração, respondeu com uma imagem simples, mas profunda: «Um dia virá um sol tão ardente que fará dissolver estas montanhas de neve.»

Ler estas cartas é uma maneira simples de nos abeirarmos de um dos maiores místicos do século XVIII. O que ali se ouve é a sua voz de todos os dias, um homem super-ocupado, cansado, por vezes extenuado, sem forças nem saúde, atormentado pelas dúvidas e contrariedades, mas sempre atento às necessidades e problemas de cada pessoa.

No prefácio, D. José Roberto, compara estas cartas a um vinho raro, guardado durante mais de 250 anos e agora servido a quem o quiser provar. Um vinho assim não se bebe de um trago. Por isso, estas páginas pedem pausa, alguma releitura, um pouco de silêncio ao fim do dia. A pensar na quadra do Advento e Natal, quando a coleção estará completa, pode ser uma boa prenda, das que não se gastam depressa, para oferecer a quem procura uma palavra serena, ou para guardar para si como um diamante que não apenas brilha, mas que sobretudo ilumina a própria vida.

Paulo da Cruz queria que as suas cartas fossem queimadas depois de cumprirem a sua missão. Não o foram de todo, e ainda bem, porque essa missão parece não ter acabado. Ao mesmo jovem de Elba escreveu, em julho de 1738, uma frase curta: «Não duvide de nada, pois Deus o mantém nos seus braços divinos».

Naquele dia, o nome no cimo da folha era o dele. Agora, em português, pode ser o de qualquer um de nós.

 

A coleção completa ou, singularmente, cada volume das “Cartas de S. Paulo da Cruz aos Leigos” podem ser pedidos ao Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas, em Santa Maria da Feira, quer por correio postal (Av. Fortunato Meneres, nº 47 - 4520-163), como pelo endereço eletrónico edicoes@passionistas.pt.

 


Imagem Capas de "Cartas de São Paulo da Cruz aos Leigos" | D.R.

 

César Costa, cp
Imagem: D.R.
Publicado em 15.10.2026

 

 
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