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S. Boaventura: Uma fé amiga da inteligência

Celebra-se a 15 de julho a memória litúrgica de S. Boaventura, frade menor, cardeal e doutor da Igreja. Foi ministro-geral da sua ordem franciscana, e é autor da biografia oficial de S. Francisco de Assis.

O ensinamento do “doutor seráfico” teve profunda influência na formação teológica de Joseph Ratzinger, que precisamente sobre S. Boaventura centrou o seu estudo de habilitação para o ensino universitário, aprofundando-lhe, depois, os aspetos mais significativos em vários escritos e intervenções.

Como pontífice viajou a 6 de setembro de 2008 à terra-natal de Boaventura, Bagnoregio, dirigindo um discurso à população reunida numa das praças da cidade, e ao santo dedicou três catequeses durante as audiências gerais de 3, 10 e 17 de março de 2010. Destes quatro textos do papa emérito, publicamos, seguidamente, alguns excertos.

«Não é fácil sintetizar a ampla doutrina filosófica, teológica e mística que São Boaventura nos deixou. Neste Ano sacerdotal gostaria de convidar especialmente os sacerdotes a porem-se na escola deste grande Doutor da Igreja para aprofundar o ensinamento de sabedoria radicada em Cristo. Para a sabedoria, que floresce em santidade, ele orienta cada passo da sua investigação e tensão mística, passando pelos graus que vão da que ele chama "sabedoria uniforme" relativa, aos princípios fundamentais do conhecimento, à "sabedoria multiforme", que consiste na misteriosa linguagem da Bíblia, e depois à "sabedoria omniforme", que reconhece em cada realidade criada o reflexo do Criador, até à "sabedoria informe", isto é, a experiência do íntimo contacto místico com Deus, quando o intelecto do ser humano toca em silêncio o Mistério infinito. (…)



Para São Boaventura, o destino último do ser humano é outro: amar Deus, o encontrar-se e o unir-se do seu e do nosso amor. Esta é para ele a definição mais adequada da nossa felicidade



Na recordação deste profundo investigador da sabedoria, gostaria ainda de expressar encorajamento e estima pelo serviço que, na Comunidade eclesial, os teólogos são chamados a prestar àquela fé que procura o intelecto, aquela fé que é "amiga da inteligência" e que se torna vida nova segundo o projeto de Deus.» (6.9.2009)

«Ele viveu no século XIII, uma época em que a fé cristã, radicada profundamente na cultura e na sociedade da Europa, inspirou obras imperecíveis no campo da literatura, das artes visuais, da filosofia e da teologia. Entre as grandes figuras cristãs que contribuíram para a composição desta harmonia entre fé e cultura sobressai precisamente Boaventura, homem de ação e de contemplação, de profunda piedade e de prudência no governo.

Chamava-se João de Fidanza. Um episódio que teve lugar quando ainda era jovem marcou profundamente a sua vida, como ele mesmo narra. Tinha sido atingido por uma grave doença e nem sequer o seu pai, que era médico, esperava salvá-lo da morte. Então, a sua mãe recorreu à intercessão de São Francisco de Assis, que tinha sido canonizado há pouco tempo. E João ficou curado. (…)

Fascinado pelo testemunho de fervor e de radicalidade evangélica dos Frades Menores, que tinham chegado a Paris em 1219, João bateu à porta do Convento franciscano daquela cidade, e pediu para ser acolhido na grande família dos discípulos de São Francisco. Muitos anos depois, explicou as razões da sua escolha:  em São Francisco e no movimento por ele iniciado, entrevia a ação de Cristo. (…) Portanto, por volta do ano de 1243 João vestiu o hábito franciscano e adquiriu o nome de Boaventura. (…)



Nas suas obras, ele afirmava um ritmo trinitário da história. Assim, toda a história devia ser interpretada como uma história de progresso. Jesus Cristo é a última palavra de Deus - nele Deus disse tudo, doando-se e proclamando-se a si mesmo. Mais do que Ele mesmo, Deus não pode dizer, nem doar



Para responder àqueles que contestavam as Ordens Mendicantes, compôs um escrito intitulado A perfeição evangélica. Neste escrito, ele demonstra que as Ordens Mendicantes, de modo especial os Frades Menores, praticando os votos de pobreza, de castidade e de obediência, seguiam os conselhos do próprio Evangelho. (…)

Mediante a intervenção pessoal do Papa Alexandre IV em 1257, Boaventura foi reconhecido oficialmente doutor e mestre da Universidade parisiense. Todavia, ele teve que renunciar a este cargo prestigioso, porque naquele mesmo ano o Capítulo geral da Ordem o elegeu Ministro-Geral. Desempenhou tal encargo durante 17 anos com sabedoria e dedicação, visitando as províncias, escrevendo aos irmãos e intervindo por vezes com uma certa severidade para eliminar abusos. (…)

Boaventura quis apresentar o carisma genuíno de Francisco, a sua vida e o seu ensinamento. Reuniu, então, com grande zelo documentos relativos ao Pobrezinho e ouviu com atenção as recordações daqueles que tinham conhecido Francisco diretamente. Daqui nasceu uma biografia do Santo de Assis, bem fundamentada sob o ponto de vista histórico, intitulada Legenda maior, redigida também de forma mais abreviada e por isso chamada Legenda minor. (…) O Capítulo geral dos Frades Menores de 1263, reunindo-se em Pisa, reconheceu na biografia de São Boaventura o retrato mais fiel do Fundador e deste modo ela tornou-se a biografia oficial do Santo.

Qual é a imagem de São Francisco que sobressai do coração e da pena do seu filho devoto e sucessor, São Boaventura? O ponto essencial: Francisco é um alter Christus, um homem que procurou Cristo apaixonadamente. No amor que impele à imitação, conformou-se de modo total com Ele.» (3.3.2010)



Toda a nossa vida é para São Boaventura um "itinerário", uma peregrinação – uma escalada rumo a Deus. Mas só com as nossas forças, não podemos elevar-nos à altura de Deus. O próprio Deus deve ajudar-nos, deve "puxar-nos" para o alto. Por isso, é necessária a oração



«Nas suas obras, ele afirmava um ritmo trinitário da história. (…) Assim, toda a história devia ser interpretada como uma história de progresso. (…) Jesus Cristo é a última palavra de Deus - nele Deus disse tudo, doando-se e proclamando-se a si mesmo. Mais do que Ele mesmo, Deus não pode dizer, nem doar. O Espírito Santo é Espírito do Pai e do Filho. O próprio Cristo diz do Espírito Santo: "...ensinar-vos-á tudo o que vos tenho dito" (Jo 14, 26), "receberá do que é meu para vo-lo anunciar" (Jo 16, 15). Portanto, não existe outro Evangelho mais excelso, não há outra Igreja a esperar. Por isso, até a Ordem de São Francisco deve inserir-se nesta Igreja, na sua fé, no seu ordenamento hierárquico.» (10.3.2020)

«Ele é um teólogo eminente, que merece ser posto ao lado de outro grandíssimo pensador, seu contemporâneo, São Tomás de Aquino. Ambos perscrutaram os mistérios da Revelação, valorizando os recursos da razão humana, naquele diálogo fecundo entre fé e razão que caracteriza a Idade Média cristã, fazendo dela uma época de grande vivacidade intelectual, e também de fé e de renovação eclesial, muitas vezes não suficientemente evidenciada. Eles são irmanados por outras analogias:  tanto Boaventura, franciscano, como Tomás, dominicano, pertenciam às Ordens Mendicantes que, com o seu vigor espiritual, como recordei em catequeses precedentes, renovaram no século XIII a Igreja inteira e atraíram muitos seguidores. (…)

São Tomás e São Boaventura definem de modo diferente o destino último do ser humano, a sua plena felicidade: para São Tomás o fim supremo ao qual se dirige nosso desejo é: ver Deus. Neste simples gesto de ver Deus todos os problemas encontram solução: estamos felizes, nada mais é necessário. Para São Boaventura, o destino último do ser humano é outro: amar Deus, o encontrar-se e o unir-se do seu e do nosso amor. Esta é para ele a definição mais adequada da nossa felicidade. Nesta linha, poderíamos dizer também que para São Tomás a categoria mais elevada é a verdade, enquanto para São Boaventura é o bem. (…)

Toda a nossa vida é para São Boaventura um "itinerário", uma peregrinação – uma escalada rumo a Deus. Mas só com as nossas forças, não podemos elevar-nos à altura de Deus. O próprio Deus deve ajudar-nos, deve "puxar-nos" para o alto. Por isso, é necessária a oração. A oração – como diz o Santo – é a mãe e a origem da elevação – "sursum actio", ação que  nos  leva  para  o  alto.» (17.3.2010)


 

In L'Osservatore Romano
Imagem: "S. Boaventura" (det.) | Peter Paul Rubens | C. 1620
Publicado em 15.07.2020

 

 
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