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Santuários, mosteiros: Ser hóspede do silêncio, escuta, recomeço

Desde há séculos que os santuários cristãos cicatrizam as chagas da vida. Os meses de verão encorajam e estimulam os peregrinos, fiéis e até pessoas afastadas da Igreja ou não crentes, a subirem aos espaços onde o amor da Palavra cura as feridas da alma. «S. Francisco de Assis, a um frade que pedia acompanhamento espiritual sob a forma de conselhos, escrevia estas palavras: “Se te for necessário, por não teres outra consolação, que a tua alma regresse a mim, e se tu o quiseres, vem», explica o frade capuchinho Eraldo Emma, do Santuário Madonna del Sasso, sobre Locarno, na Suíça.

É precisamente este «vem» a razão que impele muitos a empreender a subida aos santuários. O religioso continua, com palavras que podem muito bem ser replicadas – não só nos meses de calor - em muitos mosteiros católicos, sobre as propostas oferecidas àqueles que livremente batem à porta dos conventos: «Um lugar de encontro fraterno, onde o fiel é acolhido, escutado e amado por aquilo que é».



Trata-se de escavar, afastar as cinzas para fazer resplandecer a verdade que está à espera para ser encontrada: «As propostas são as de abraçar um novo estilo de vida, evangélico, empreender um caminho cristão de oração, de Eucaristia, de reconciliação, de Palavra de Deus e de obras de caridade»



«O acompanhamento espiritual é uma das possibilidades que o peregrino ou o fiel encontra junto do nosso santuário, paralelamente ao sacramento da Confissão e da Eucaristia. O termo “acompanhamento espiritual” condiz mais à nossa espiritualidade franciscana. Acompanhamos irmãos e irmãs no caminho de fé cristão e acompanhamo-los como irmãos, pais e mães. Certamente a alma do fiel, para poder fazer a experiência do amor de Deus, é dirigida para o fim acertado e para os meios acertados para alcançar esse fim, que só pode ser a comunhão com Deus. Um diretor de orquestra dirige os músicos para que se chegue a uma harmonia de sons. É por isso que, como franciscanos, preferimos usar o termo “acompanhantes”, “conselheiros de almas”, que na caridade fraterna ajudam os viandantes a encontrar Jesus vivo e presente no meio de nós.»

Neste itinerário revê-se a história pessoal. É preciso usar novos óculos, que permitam colher a realidade através da fé: «Fazer verdade em si próprio e abrir-se ao encontro com o outro e com o Outro é um processo que pode durar muito tempo, e sobretudo não pode ser levado por diante solitariamente; é precisa aquela palavra que o ser humano de hoje tem dificuldade em realizar: a palavra “juntos”. Normalmente, os primeiros bons frutos veem-se após um ano de caminho de acompanhamento. Trata-se de abandonar a estagnação do passado para descobrir um dinamismo de vida nova no Espírito aqui e agora».



Os lugares do espírito estão disseminados em Portugal e n Europa, mas é preciso preservá-los das lógicas de visita museológica, porquanto neles se testemunham as memórias da misericórdia de Deus



Trata-se de escavar, afastar as cinzas para fazer resplandecer a verdade que está à espera para ser encontrada: «As propostas são as de abraçar um novo estilo de vida, evangélico, empreender um caminho cristão de oração, de Eucaristia, de reconciliação, de Palavra de Deus e de obras de caridade. Tudo isto, unido aos encontros regulares de acompanhamento, pode verdadeiramente realizar sinais e milagres, ainda hoje, apesar da complexidade da história humana desta geração. São estes os muitos milagres do quotidiano que Deus realiza inclusive através da presença discreta e por vezes oculta a nós, sacerdotes e religiosos nos santuários».

Os lugares do espírito estão disseminados em Portugal e n Europa, mas é preciso preservá-los das lógicas de visita museológica, porquanto neles se testemunham as memórias da misericórdia e Deus, dizia Gregório de Nissa. «O nosso acolhimento é religioso, não turístico; de outra maneira os santuários reduzir-se-iam a ser apenas obras de arte, e nada mais. Que não sejam confundidos com museus. A hospitalidade, denominada de passagem, visa recarregar e regenerar o espírito, após um ano de trabalho, mas sobretudo após o clima de pandemia. Os peregrinos pedem-nos para serem apoiados em interromper o quotidiano, para retomar confiança e esperança. Depois, com o hóspede cria-se, muitas vezes, um laço que prossegue ao longo dos meses e dos anos», afirma o P. Michele Steglia, reitor do Santuário do Sacro Monte Calvário, na região do Piemonte.



«Muitas pessoas dirigem-se a nós para um conselho, uma palavra, uma ajuda. Querem falar, libertar-se das suas aflições ligadas aos muitos problemas de hoje»



«Aqui há quem acolhe, conforta e ajuda na dimensão espiritual, na Confissão; temos sempre à disposição um padre para a Confissão, mas também para um sorriso, uma simples saudação. O encontro não tem de estar necessariamente ligado a um sacramento. Aqui o peregrino encontra três formas de caridade: espiritual (o encorajamento), material (convite a beber um café) e intelectual (sugerir um livro adaptado a quem se tem à frente», acrescenta. Não há preferências, já aconteceu receberem fiéis de outras denominações cristãs: «O sentido do acolhimento é o de fazer ver a beleza da vida. E porventura empreender um caminho de santidade».

O P. Domenico Crupi, do Santuário de S. Francisco de Paula, na Calábria, assinala o que é comum a muitos espaços de hospitalidade católicos: «Muitas pessoas dirigem-se a nós para um conselho, uma palavra, uma ajuda. Querem falar, libertar-se das suas aflições ligadas aos muitos problemas de hoje: família, economia e dificuldades determinadas por situações culturais e morais».


 

A partir de texto de Roberto Cutaia
In L'Osservatore Romano
Trad./adapt.: Rui Jorge Martins
Imagem: Project-Photo/Bigstock.com
Publicado em 14.07.2021

 

 
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