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Leitura: “Santo António” por Agustina Bessa-Luís, prefácio do cardeal Tolentino

«Portugal tem destas excentricidades: que um espírito crítico, torrencial e iluminador como o de Agustina Bessa-Luís se confronte com a nossa mais extraordinária figura de fronteira que é Santo António de Lisboa (ao mesmo tempo medieval e moderno; popular e cultíssimo; português e a cooperar numa mudança epocal que, segundo Jacques Le Goff “vai sacudir a religião, a civilização e a sociedade”), não parece empresa suficiente para ativar paixões.»

Começa assim o texto que o cardeal José Tolentino de Mendonça assinou a 20 de junho no “Expresso”, sobre a reedição da obra “Santo António”, pela Relógio D’Água, volume que, para o responsável pela Biblioteca do Vaticano, é, no conjunto da obra da escritora, «um livro injustamente esquecido».

Neste livro, observa no prefácio, «não é a caraterização intelectual, sociológica ou moral que conta, mas sim Santo António vivendo. Por fim, o romance é um instrumento de precisão, como existem poucos, pois está à altura da singularidade, liberdade, tragicidade e assombro da vida. Ele consegue relatar o superlativo e o minúsculo, o sublime e o mísero, a dor e a redenção, o pecado e a santidade».

«A sensibilidade popular converteu-o num santo fácil e caseiro; nisto veio a dar aquele que, por índole e por carreira, se entregou ao convívio das causas humanas. Santo António foi sobretudo um asceta, o que não quer dizer uma natureza solitária. O asceta, a par da saudade de morrer, anda constante com a paixão da vida. Amou o mundo por algo que era nostalgia da felicidade», escreve Agustina, que apresenta o livro como uma «biografia conduzida pela meditação».



«De que fala o Santo? Sossega-os nos seus lamentos, dá satisfação às suas opressões, anima-os nas suas guerras, resgata-os das suas dívidas, sustenta-os nas suas fomes. É um pai amorável, embora evangelize às vezes de maneira sentenciosa. E é também um doutor capaz de se exprimir diante dos letrados»



Para o poeta e teólogo, «Agustina constrói uma das suas narrativas mais originais e inclassificáveis, que é uma mistura de ensaio e romance, de texto documental e relato de viagem, de filme metafísico e de “making-of” sobre as condições de produção, de minucioso comentário filológico do passado e de exercício fulgurante e amplo de pensamento sobre a vida».

«A multidão ouve suspensa aquele homem pequeno, de cabelos brancos. É consolador tudo quanto ele diz, seguem-no, admiram-no, esperam dele coisas surpreendentes, embora não o compreendam algumas vezes. Mas ele sabe como fazer perdoar a sua erudição», aponta Agustina.

Capacitado com o raro dom de ser amado por analfabetos e eruditos, Santo António, prossegue a autora, é louvado «não unicamente porque a sua língua bendita exalta o Senhor, mas porque ele opera nas almas uma estranha mudança; é uma espécie de expetativa que se introduz nas suas vidas».

«De que fala o Santo? Sossega-os nos seus lamentos, dá satisfação às suas opressões, anima-os nas suas guerras, resgata-os das suas dívidas, sustenta-os nas suas fomes. É um pai amorável, embora evangelize às vezes de maneira sentenciosa. E é também um doutor capaz de se exprimir diante dos letrados», refere Agustina.

O cardeal Tolentino conclui assim a coluna no semanário: «Mesmo defendendo que “António é um afetivo e não um místico”, consumando-se mais na compaixão do que no puro abandono do arrebatamento, Agustina ajuda-nos a mergulhar na fascinante complexidade do santo que, segundo ela, vivia “a condição metafísica dessa treva em que o conhecimento dos seres não é mais um pacto vital, mas um enigma que se respeita pela sua analogia, ou aptidão para receber o divino”».


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 12.08.2020

 

Título: Santo António
Autor: Agustina Bessa-Luís
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 200
Preço: 18,00 €

 

 
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