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Santo António, a usura e o coração

O encontro entre António e Francisco foi um encontro entre dois carismas. Fernando torna-se, é verdade, filho de Francisco, mas também foi seu irmão. Fernando tinha um carisma antes de se tornar António, e continuou a desenvolvê-lo mesmo depois do seu encontro abençoado com os Franciscanos, a partir de 1219-1220.

António desenvolveu o magistério sobre a pobreza iniciado por Francisco, no seguimento de Jesus Cristo. Mas muitas das coisas ditas por ele não tinham sido ditas por Francisco, e depois tornaram-se património franciscano e de toda a Igreja graças ao carisma de António. Francisco foi cantor e mestre da pobreza, António foi mestre das insídias da riqueza. Francisco é o santo do «felizes os pobres», António o do «ai dos ricos», duas palavras do mesmo Evangelho, duas palavras da mesma vida.

É no interior das prédicas do nosso santo sobre as seduções das riquezas que deve ser colocada a sua pregação sobre a usura e sobre os usurários, um pensamento e uma ação fundados na Escritura, Antigo e Novo Testamento, que faz de António um dos primeiros “biblistas” “à letra” da Idade Média.

À riqueza, com efeito, está ligado uma das narrativas mais conhecidas sobre António: «Na Toscânia estavam a celebrar-se com solenidade as exéquias de um riquíssimo. No funeral estava presente o nosso Santo António, o qual, sacudido por súbita inspiração, se pôs a gritar que aquele morto não devia ser sepultada em lugar consagrado (…) porque a sua alma estava condenada ao inferno, e aquele cadáver estava privado de coração, segundo o dito do Senhor reportado por Lucas: “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”.

A esta intimação, como é natural, todos ficaram desconcertados, e teve lugar uma exaltada troca de opiniões. Foram, por fim, chamados cirurgiões, que abriram o peito ao defunto. Mas não lhe encontraram o coração, que, segundo a predição do santo, foi recuperado na caixa-forte onde estava conservado o dinheiro». Um episódio extraordinário, de grande poder pedagógico, antropológico e teológico.



Na Bíblia a usura é condenada porque é uma forma de rendimento, ou seja, um a receita que nasce do possuir e explorar uma posição de poder, não do trabalho e da fadiga



Muitas vezes nos seus sermões António fala da usura e dos usurários: «Diz Naum: “Ai de ti, cidade de sangue. Toda a falsidade, repleta de lacerações, a rapina não se afastará de ti”. A alma vive por meio do sangue, o pobre por meio das suas poucas substâncias. Tire-se ao homem o sangue, ao pobre as suas substâncias. Ambos morrem. Os ladrões e os usurários que se apoderam das coisas dos outros, são ditos “cidades de sangue”. E o sangue dos pobres é frio» (“Sermões”, V).

Os Montepios, as primeiras formas de banca ética e sem propósito de lucro (sem mérito, dizia-se), nascidos para combater a usura, são certamente plantas nascidas no final do século XV da semente de Francisco, mas foram também frutos da palavra e da ação de António.

Da Bíblia António tinha aprendido que a luta contra a usura nasce do amor pelos pobres. Porque a usura é uma taxa patrimonial ao contrário, que pagam sobretudo os pobres – e quanto mais pobres são, mas cara a pagam. Na Bíblia, com efeito, a usura é condenada porque é uma forma de rendimento, ou seja, um a receita que nasce do possuir e explorar uma posição de poder, não do trabalho e da fadiga.

Ainda hoje, sobretudo nestes tempos de escassa liquidez, a usura renasce e cresce, porque há sempre alguns que possuem dinheiro e usam este poder para lucrar sobre quem dessa riqueza está desprovido, precisando dela para viver. Hoje e ontem as vítimas da usura são os pobres. E assim as palavras de António revivem uma extraordinária atualidade: quem ama os pobres odeia a usura (e ama o trabalho). Ontem, hoje e amanhã: «O usurário reduz a deserto a Igreja do Senhor» (António, “Sermões”, exórdio).


 

Luigino Bruni
In Messaggero di sant'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Anto António e o coração do avaro" (det.) | Francesco Vecellio (atrib.) | 1511-12
Publicado em 04.06.2020

 

 
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