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Arte e espiritualidade: Samuel Bak, luz de Quaresma

A Quaresma é um caminho. No entanto, perante certas notícias, perante a situação atual, mais que sentir a necessidade de caminhar, perceciona-se o desejo de fugir: fugir da realidade, que desponta ameaçadora; fugir de si próprio; dos outros, das convivências que se tornaram insuportáveis. Somos homens em fuga. Parecidos com os transportadores de vela de Samuel Bak (n. 1933).

Alguns indícios tornam evidente que os dois retratados na pintura estão a fugir de uma ameaça terrível: o passo furtivo e o ar preocupado, sobretudo do homem que está atrás; o braço do primeiro que parece já destacar-se da mão e, do mesmo modo, a perna do pé.

O segundo olha para trás e não se dá conta de que o carro lhe está a fugir da mão, restam-lhe apenas os bastões. Tal e tanta é o cansaço por causa da fuga, que um deles perde um joelho, que se confunde com o terreno. Apesar de tudo, e esta é a grandes esperança, continuam a levar aquela vela.

Mas o que é esta misteriosa luz ameaçada pelo vento que os dois querem salvar a todo o custo? É o sentido do tempo, o cômputo dos dias, é a liturgia. Nada é mais aviltante para o homem do que perder a sua identidade dentro de um tempo que se estilhaça, que deixou de exprimir o milagre dos aniversários, das festas, do tempo ferial e das liturgias solenes. Entre todos os seres vivos, só o ser humano tem o sentido do tempo e sentiu o desejo de conservar o cômputo dos anos. A memória.

Conta-se, e várias obras de Bak inspiram-se nisso, que numa barraca de Auschwitz sofria-se uma fome desesperada. A guerra estava para acabar, mas nenhum dos prisioneiros podia sabê-lo. O desalento era total, todavia um deles, um rabino, não se tinha resignado ao desespero e tinha continuado a contar.



Diante da vela do rabino, nenhum desejou roubá-la, antes, todos se animaram: um revelou ter um fósforo para a acender; outros, pedaços de pão para partilhar para a festa. Assim iluminaram aquela mísera vela e cantaram os hinos



Estava a chegar a festa do Hanukkah, ele sabia-o, e tinha conservado uma vela para a festejar. Nesse dia, extrai-a com temor; sabia que os outros prisioneiros teriam podido saltar para cima dele, roubá-la e comê-la para acalmar, com a gordura animal, as mordidas da fome. Mas ele, que orava a Deus todos os dias, fez-se forte e disse: «Hoje é o Hanukkah, temos de fazer festa!».

Uma corrente de vida nova serpenteou na barraca. Já não eram escravos, eram filhos. Tinham um tempo para eles e para a festa. Um tempo para Deus. Diante da vela do rabino, nenhum desejou roubá-la, antes, todos se animaram: um revelou ter um fósforo para a acender; outros, pedaços de pão para partilhar para a festa. Assim iluminaram aquela mísera vela e cantaram os hinos do Hanukkah.

Naquela barraca, todos se salvaram. Celebrando o tempo, tinham transportado a esperança, exatamente como os dois transportadores de Samuel Bak. A perda do sentido da festa, hoje, faz perder também o sentido do trabalho, da dignidade. A perda das articulações litúrgicas arrisca eliminar também a nossa dignidade de pessoas, de povo, de nação.

A Quaresma deveria ser levada assim, com a mesma tenaz e dolorosa fadiga dos homens de Bak. Deveríamos ser guardiães zelosos deste tempo outro que subtrai o Kronos, o inexorável, e o volta a entregar à graça, representada pelo Kairós. Dentro da dramaticidade do tempo que vivemos, há um Kairós, uma graça oculta, um sentido a reconhecer. Basta apenas conservar em si a luz da fé: a única que é capaz de ver, julgar e escolher.



Imagem Samuel Bak | D.R.

 

Gloria Riva
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Samuel Bak | D.R.
Publicado em 04.04.2019

 

 
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