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Robert Schuman, o realista místico

Declarado Venerável pelo papa Francisco neste sábado, 19 de junho, Robert Schuman está na história como um dos pais fundadores da Europa, a par de Adenauer e De Gasperi. Foi fundamental o seu papel na criação do primeiro núcleo da comunidade europeia, a CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço –, que evoluirá passo a passo para o Mercado Comum, Comunidade Económica Europeia e, por fim, União Europeia.

À cabeça do governo francês em 1947, e ministro dos Negócios Estrangeiros de 1948 a 1953, Schuman (1886-1963) possuía uma dupla cultura, alemã e francesa. Como os maiores promotores da ideia europeia, era um homem de fronteiro. O pai, soldado francês em 1870, tornou-se cidadão do “Reich” aquando da anexação alemã da Alsácia-Lorena, mas de seguida mudou-se para o Luxemburgo, não contente por residir em terra germânica. Robert, nascido cidadão alemão, estudará direito nas maiores universidades germânicas, tornando-se advogado. Em 1918, Alsácia e Lorena regressam à França, e ele, que domina o francês (com alguns acentos teutónicos), empreende a carreira política como deputado do departamento de Mosella. Cadeira que manteve, pode dizer-se, toda a vida.

Investido de altas responsabilidades governativas, Schuman sentia muito a necessidade de uma reconciliação entre França e Alemanha, depois que as três guerras de 1870, 1914-1918 e 1939-1045 terem radicado uma profunda inimizade entre os dois países. Era a sua questão crucial enquanto responsável pela pasta das relações como exterior. Que atitude para com a Alemanha? O curso natural da política francesa tendia a replicar a atitude punitiva para com a Alemanha derrotada praticada após a primeira guerra mundial, com tudo o que sucedeu até à subida de Hitler. Schuman via o irromper da guerra fria e a necessidade de envolver a Alemanha na frente ocidental, mas ao mesmo tempo constatava como o seu país insistia na oposição à reabilitação do inimigo histórico, opondo-se-lhe em numerosos contenciosos (carvão do Reno, soberania sobre o Sarre, reparações de guerra, controlos sobre medidas legislativas, reconstituição de uma força militar).



Sonhador da paz, tocado pelos horrores da grande guerra, idealista da reconciliação entre os dois povos carolíngios a cujas culturas pertencia, movido pela universalidade da sua fé e da profundidade das suas convicções espirituais, Schuman rejeitou o fácil e populista nacionalismo antialemão



A ideia foi a de integrar a Alemanha num projeto europeu comum para lhe diluir o grande potencial, mas também para operar uma reconciliação. Pela sua dupla cultura, Schuman era credível quer em Paris quem em Bona. Propõe a Adenauer, alemão, o plano daquela que será a CECA, para colocar em comum os maiores recursos estratégicos de que a Europa ocidental dispunha então, e o chanceler, que nele confiava, reage com entusiasmo. A proposta de Schuman consistia numa generosa partilha de soberania. O carvão do Reno ficava disponível para a retoma industrial europeia ocidental, a França prevenia uma utilização nacionalista da indústria pesada alemã, a Alemanha via-se internacionalmente reabilitada num quando ocidental, e sobretudo afastava o pesadelo de um pós-guerra semelhante àquele, vingativo da parte francesa, sofrido pela República de Weimar.

O projeto da CECA – sugerido a Schuman pelo génio de Jean Monnet – aconteceu após o fracasso da primeira tentativa de avançar para uma Europa federal mediante o Conselho da Europa, que tinha demonstrado a sua ineficácia. Verificada a impossibilidade de cedências de soberania no plano político, desejava-se tentá-la no plano económico. Schuman assume a plena responsabilidade do projeto e consegue, com grande habilidade, conduzi-lo a bom porto. Foi a famosa Delcaração de 9 de maio de 1950, que ficou nos anais, impropriamente, como “bomba Schuman”. A história haveria de atestar a importância da CECA, que colocou as relações franco-alemãs numa inimaginada direção da paz e serviu de pedra angular para a construção europeia.

Sonhador da paz, tocado pelos horrores da grande guerra, idealista da reconciliação entre os dois povos carolíngios a cujas culturas pertencia, movido pela universalidade da sua fé e da profundidade das suas convicções espirituais, Schuman rejeitou o fácil e populista nacionalismo antialemão à maneira de Clemenceau.

Foi toda a vida um militante católico, com o sentido de uma missão. Homem austero e piedoso, concebia o compromisso político como um serviço absoluto. Não dava azo a mexericos, não tendo vida privada. Não se casou. Fora da cena política viveu com sobriedade, fiel à sua Mosella onde manteve a residência, ainda que durante anos tivesse vivido em Paris, arrendatário de um modesto apartamento no sexto piso sem elevador na rue de Bac.

«Humilde, falso ingénuo, cinzento, afastado», assim o define o biógrafo Poidevin, que dele assinala as medíocres qualidades oratórias e o escasso fascínio da sua figura física («parecia um homem que nasceu velho»), mas também a tenacidade na argumentação, a habilidade para desencadear processos e construir estratégias, a simplicidade de vida, a tensão ideal do grande estadista. Schuman era um provinciano, mas também um cosmopolita, leitor apaixonado de livros de teologia, filosofia, história. «Realista místico», capaz de escuta e de reflexão, aberto a soluções novas, não se deixava intimidar pelas críticas e perseguia a sua missão essencialmente de paz.


 

Roberto Morozzo della Rocca
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Robert Schuman | D.R.
Publicado em 21.06.2021

 

 
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