História
Revista Brotéria de Ciências Naturais desmentiu impossibilidade de convivência entre fé e investigação avançada
A importância da revista Brotéria para a história cultural portuguesa foi já diversas vezes assinalada por alguns historiadores e, há poucos anos atrás, amplamente reconhecida no livro comemorativo do seu centenário.
Fundada em 1902, em Louriçal do Campo, por Joaquim da Silva Tavares SJ (1866-1932), Cândido Azevedo Mendes SJ (1874-1943) e Carlos Zimmermann SJ (1871-1950), professores do Colégio de São Fiel, a Brotéria – Revista de Sciencias Naturaes destacou-se no panorama das publicações científicas portuguesas entre o ano da sua fundação e 2002.
Apesar da sua inclusão no panorama das publicações periódicas no nosso país, a riqueza científica da Brotéria não foi ainda devidamente salientada. Porém, basta recordar alguns dados estatísticos para que esta riqueza fique imediatamente aparente: na Brotéria publicaram-se mais de 1300 artigos de investigação em áreas como a Botânica, a Zoologia e a Genética, e foram descritas e classificadas sistematicamente 1327 novas espécies zoológicas e 887 novas espécies botânicas, uma clara indicação da relevância científica desta revista em contexto nacional e internacional. Por outro lado, entre 1907 e 1925, foram publicados cerca de 450 artigos de divulgação na série de Vulgarização Científica, em áreas tão díspares como Química, Física, Agricultura, Biologia e Medicina. (...)
Brotéria: A revista de ciências naturais do Colégio de São Fiel
A partir de meados do século XIX, a sociedade portuguesa foi abalada por diversas polémicas em torno de matérias religiosas, entre as quais sobressaíram a bem conhecida "Questão das Irmãs da Caridade" e o "caso Calmon".
A dramaticidade destas controvérsias era reflexo de um fenómeno de profundo anticlericalismo, disseminado por vários setores da sociedade portuguesa. O positivismo de Auguste Comte (1798-1857) influenciava o pensamento, os escritos e a ação pública de personalidades influentes na cultura portuguesa, tais como Adolfo Coelho (1847-1919) e Antero de Quental (1842-1891). Os jesuítas portugueses também estiveram envolvidos nestas polémicas, sendo que uma das mais célebres controvérsias deste período, sobre a origem do homem, opôs Miguel Bombarda (1851-1910) e Manuel Fernandes Santana SJ. (1864-1910).
Neste clima de instabilidade, Afonso Costa (1871-1937) chegou a propor uma lei na Câmara dos Deputados que extinguisse a Companhia de Jesus e os seus colégios, em julho de 1908, algo que, no entanto, só se viria a verificar com a publicação do decreto da República Portuguesa de 8 de outubro de 1910, onde se restabeleciam as leis do Marquês de Pombal e de Joaquim António de Aguiar. (...)
A prática e o ensino científicos ocuparam um lugar de destaque nos Colégios de Campolide (1858-1910) e de São Fiel (1863-1910). Nestes colégios, o ensino das ciências naturais, com uma forte componente experimental, para além de corresponder a um genuíno interesse científico dos naturalistas jesuítas, procurava estimular o gosto dos alunos pelas atividades científicas e demonstrar a possibilidade de concílio entre Ciência e Religião.
Com a fundação da Brotéria, os naturalistas de São Fiel poderiam inverter a lógica do discurso positivista, não só no que dizia respeito à impossibilidade de uma convivência entre Ciência e Religião, mas também no que se referia à crença numa "inabilidade dos religiosos para produzirem conhecimento científico avançado e pertinente". A publicação de uma revista de caráter exclusivamente científico pelos professores do Colégio de São Fiel tentava assim alcançar diversos objetivos, um dos quais era o restabelecimento da reputação científica da Companhia de Jesus, posta em causa pelas campanhas pombalinas desde meados do século XVIII.
De um modo mais amplo, a fundação da Brotéria pode também ser encarada como parte de uma estratégia pastoral vasta de recristianização da cultura, da qual são exemplo a fundação do Centro Académico de Democracia Cristã (CADC) em 1901, a criação da Associação Promotora da Instrução Pública em 1902 e a organização das Liga de Ação Social e Juventudes Católicas, ambas em 1907. Além disso, a publicação da Brotéria não deve ser dissociada das publicações espirituais que estavam a cargo da Companhia de Jesus: o Mensageiro do Coração de Jesus (1881) e o Legionário de Maria (1905). Os jesuítas prosseguiam assim em Portugal aquele que era um empreendimento comum a outros países europeus, como se pode verificar pela fundação dos periódicos La Civiltà Cattolica (Itália, 1850), Eludes (França, 1856) e Razón y Fé (Espanha, 1901).
Por outro lado, o aparecimento da Brotéria deve enquadrar-se no conjunto mais vasto dos periódicos científicos nacionais, cuja publicação, em finais do século XIX, estava associada a instituições como a Real Academia das Ciências e a Universidade de Coimbra. (...)
Acima de tudo, a Brotéria associava-se ao Boletim da Sociedade Broteríana (Coimbra, 1883), fundado e dirigido por Júlio Henriques (1838-1928), periódico que apresentava também uma clara agenda de classificação sistemática e taxonómica. A Brotéria foi instituída em 1902, seguindo a necessidade dos naturalistas jesuítas publicarem os resultados das suas investigações, iniciadas nos anos anteriores. (...)
Analisando as publicações da Brotéria - Sciencias Naturaes entre 1902 e 1932, conclui-se que o primeiro volume da revista é, de certa forma, representativo da agenda científica dos naturalistas jesuítas. Um programa científico de caráter taxonómico que se prendeu, neste período, essencialmente, com a descrição e descoberta de novas espécies botânicas e zoológicas.
Para além de um programa científico de classificação sistemática, o primeiro número da Brotéria anunciava também a intenção apostólica da sua publicação. Retomando a famosa imagem dos "dois livros" em que Deus se revela à humanidade - a Bíblia e o "Livro da Natureza" - esclarecia que o principal objetivo desta revista era o estudo e divulgação das ciências naturais em Portugal, uma atividade que contribuiria para um conhecimento mais completo de Deus:
«A ideia de concorrermos, por pouco que seja, para propagar o gosto das sciencias naturaes em nossa pátria enche-nos de alegria. A natureza é um livro immenso, que tem ainda muitas folhas por abrir. Ora em todas ellas se encontra escrito o nome augusto do Creador. E será acaso pequena satisfacção ao abril-as mostrar nellas a grandeza de Deus, que tanto se estampa na immensidade do mundo, como na extrema pequenez, de myriades de animaes e plantas, cuja existência só o microscópio nos revela?»
Além dos artigos já mencionados, foram criadas três secções em 1902 que tiveram a sua continuidade nos anos que se seguiram à fundação da revista: uma secção de bibliografia, uma secção de biografias de naturalistas portugueses (iniciada com a biografia de Felix d'Avelar Brotero, a quem a revista era dedicada) e uma secção que continha alguma informação relativa aos naturalistas portugueses, incluindo os seus interesses de investigação e a sua morada institucional. Esta última secção dedicada aos naturalistas é uma forte indicação de que os jesuítas de São Fiel se preocupavam com a constituição de uma comunidade científica portuguesa, o que teve expressão em várias outras iniciativas e na colaboração com alguns dos mais destacados naturalistas portugueses. (...)
A Brotéría nascera com um objetivo erudito e científico, mas cinco anos após a sua fundação, em 1907, a revista de Ciências Naturais deu origem a três séries distintas: Vulgarização Científica, Botânica e Zoologia. A série de Vulgarização Científica, totalmente escrita em português, tinha sido especialmente criada para equilibrar a falta de assinantes em Portugal, não pondo, porém, em causa o caráter estritamente científico das séries de Zoologia e de Botânica, onde se continuavam a publicar apenas artigos de investigação originais. (...)
A série de Vulgarização Científica estaria na origem, a partir de 1925, de uma série de propósitos mais culturais, que hoje subsiste com o subtítulo de Cristianismo e Cultura. (...)
De 1962 a 1979, Luís Archer S.J. (1926-2011) assegurou a direção da Série de Ciências Naturais e, a partir de 1980, da Série Genética. Após conclusão da licenciatura em Teologia (Frankfurt, 1960), Archer mudou-se para os Estados Unidos para estudar Genética Molecular na Universidade de Georgetown (Washington), concluindo o doutoramento em 1967 sobre a análise molecular do processo de transformação de Bacittus subtilis por moléculas isoladas de DNA. Ao regressar a Portugal, introduziu o ensino e a investigação em Biologia Molecular e criou e dirigiu o Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência (1971-1991), a sua maior contribuição para o desenvolvimento científico e pedagógico da Biologia em Portugal. Fundador da Sociedade Portuguesa de Genética, Luís Archer publicou, ao longo da sua carreira científica, cerca de 250 trabalhos em áreas como a Genética, a Filosofia das Ciências e a Bioética, uma das principais áreas nas quais se destacou. De facto, desde 1977 que grande parte do seu tempo era dedicado à Bioética, tendo integrado comissões nacionais e internacionais de especial relevo nesta área.
Tal como Luisier em 1957, Archer foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada, em 1991, a mais alta condecoração da República Portuguesa a ser concedida por méritos científicos, artísticos ou literários, uma honra que reflete a notoriedade científica que tinha alcançado no nosso país, pelas suas contribuições pioneiras nas áreas de Biologia Molecular e Bioética.
Sob a direção de Luís Archer, foram publicados na série de Ciências Naturais importantes artigos de Bioquímica, focando temas da maior atualidade científica como metabolismo celular, atividades enzimáticas e eletroforese de proteínas.24 Entre 1965 e 1969, foram também publicadas as teses de doutoramento de Francisco Guerra (1932-), Luís Archer e Roberto Salema (1932-), respetivamente sobre tumefação mitocondrial, transformação genética em bactérias a partir de moléculas de DNA e biogénese e estrutura do amido, permitindo, desta forma, a divulgação do trabalho destes investigadores portugueses que iniciavam o seu percurso académico.
A partir dos anos 70, surgiram os primeiros artigos de Genética Molecular na Brotéria, a maioria dos quais escritos por investigadores estrangeiros, demonstrando o pioneirismo e a influência internacional da revista neste período. Em 1980, reflexo da atualidade da Genética Molecular e da sua importância crescente no panorama científico nacional e internacional, a revista de Ciências Naturais deu origem à série Genética, integrando a necessidade da existência de uma revista desta índole em Portugal com a agenda científica do seu diretor, tal como acontecera anteriormente com Silva Tavares e Luisier, que sempre associaram diretamente os seus interesses de investigação científica com o percurso editorial da revista. Na Brotéria Genética foram publicados cerca de 300 artigos nas áreas da genética bacteriana, genética de melhoramento de plantas, genética de melhoramento animal, genética humana e bioética.
A Brotéria foi acolhida com entusiasmo pela comunidade científica portuguesa e internacional. Nos seus primeiros volumes, os redatores da revista de ciências naturais procuraram publicar excertos de revistas científicas portuguesas e estrangeiras que se referiam à criação da Brotéria (...)
Conclusão
A Brotéria foi uma importante revista científica, de circulação nacional e internacional, desde o período em que os naturalistas jesuítas privilegiavam a descoberta, descrição e classificação sistemática de novas espécies até ao período em que se iniciavam as investigações de Biologia Molecular em Portugal. A relevância das suas publicações foi reconhecida em Portugal e no estrangeiro, e os jesuítas que a dirigiram ou com ela colaboraram estiveram inseridos em comunidades científicas nacionais, como a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, a Sociedade Broteriana e a Academia das Ciências de Lisboa, enquanto que a nível internacional pertenciam a sociedades especializadas de Botânica, Zoologia, Entomologia, Briologia, Microscopia e de Genética, consoante o seu domínio de especialização.
Geralmente, a Brotéria Cientifica é apresentada como uma revista de divulgação científica, numa análise que se apresenta bastante redutora. Na sua história, apenas durante um pequeno período circunscrito no tempo (1907-1925) publicou a Brotéria uma série de Vulgarização Cientifica, posteriormente substituída pela Brotéria Cultural, onde esporadicamente ainda foram escritos alguns artigos de popularização científica. Entre 1907 e 1925 foram publicados cerca de 450 artigos de popularização científica, abrangendo áreas como a Agricultura, a Medicina, a Biologia e a Física. Porém, a grande maioria dos artigos científicos publicados na Brotéria (cerca de 1300) foram artigos de investigação original em áreas como a Botânica, a Zoologia, a Bioquímica e a Biologia Molecular.
Esta transcrição omite as notas de rodapé.
Francisco Malta Romeiras, Henrique Leitão
In Brotéria, abril 2012
Atualizado em 13.08.12

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