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Retalhos da vida de um capelão hospitalar

«A minha paróquia é este hospital, que se tornou também a minha casa, com duas mil almas entre médicos e pessoal sanitário variado, os doentes que agora são 480 porque as camas diminuíram um pouco, os familiares que vêm ao seu encontro. Procuro encontrá-los da maneira mais natural possível: passando nas unidades ou nos corredores, ou diante da máquina do café; antes das limitações por causa da pandemia, fazia-o no bar, punha-me à porta e… era ali que apanhava todos! Se, depois, nos habituamos à dor e ao sofrimento? Não, não deve acontecer. Porque se acontecesse, então pediria imediatamente para ser padre noutro lugar.»

O P. Tullio Prosepio, capelão no Instituto de Oncologia de Milão desde 2003, acabou de clicar no rato do computador para enviar a médicos, enfermeiros e muitos amigos, inclusive de fora do hospital, o pensamento espiritual da manhã, «que é uma outra maneira de encontrar as pessoas». E é precisamente a palavra «encontro» que ressoará várias vezes durante este encontro como sacerdote, que é também consultor do projeto de cuidados paliativos para a Academia Pontifícia para a Vida e membro do Departamento da Pastoral da Saúde da Conferência Episcopal Italiana, além de ser fundador e incansável animador da página www.curaspirituale.it.

«Eu era o clássico padre diocesano de oratório quando o cardeal Martini me propôs ser capelão hospitalar. Não aceitei logo, porque temia não ter a formação adequada. Aqui não é como estar numa paróquia, onde escutas todos mas no fim és tu que decides. Não, aqui chegas e és um de muitos. Levei um ano para decidir, pensava que não estava preparado. E sabes qual foi o mandato que recebi? Vai e encontra as pessoas.»



«Aqui dentro encontras pessoas de quem sabes que a perspetiva de vida não é longa, talvez apenas poucos meses. É verdade que estou aqui e falo com eles, brinco com elas, inclusive, mas à noite custa-me a adormecer, porque o dia que passou não foi como beber um copo de água. Também os médicos e os enfermeiros vivem esta realidade»



Como uma espécie de bicho-carpinteiro, mas positivo, a “missão” de encontrar as pessoas, e não só os doentes, começou a ganhar profundidade no P. Tullio. Que hoje, após 18 anos de experiência como capelão hospitalar, pode dizer que foi a melhor formação. «Compreendi, e reencontro este entendimento todos os dias, que o desejo das pessoas é encontrar o humano. A minha aposta inicial foi precisamente a de enviar pequenos pensamentos diariamente por correio eletrónico, uma coisa muito simples, como o primeiro encontro do dia. Raramente cito o Evangelho, mas só porque me agrada que sejam reflexões que partam de qualquer pessoa: leio uma frase, toca-me e envio-a. Pode parecer uma banalidade, mas abriu um mundo de encontros, e já me fez compreender que muitos não estavam zangados com a Igreja enquanto tal, mas que neles havia o desejo de encontrar alguma coisa de novo, de substancial.»

«Muitas vezes fazemos muitos raciocínios, mas o discurso de fundo é um: que podemos fazer diante de alguém que não está bem? Estou aqui como padre, e encontro as pessoas sobretudo quando estou próximo da cama do doente, onde muitos muros acabam, inevitavelmente, por cair. Em geral nunca é fácil o encontro com uma pessoa, hoje damo-lo por adquirido, mas devemos recordar-nos do que o papa diz: quando ajudares uma pessoa, olha-a no rosto. Mas nem sempre acontece assim, e não porque essa pessoa é um doente, mas porque não estamos habituados a isso. E então o outro torna-se simplesmente um instrumento para a minha vantagem, para meu ganho.»

O P. Tullio sublinha como esta disponibilidade para o encontro e para a escuta resiste ao tempo. E por vezes representa-se também de formas inesperadas: «Há poucos dias chegou-me uma mensagem pelo WhatsApp, respondo «obrigado, mas ajude-me a compreender quem é, porque não tenho o seu número gravado», e diz-me que é a mãe de uma jovem que morreu há u m ano. Eu, todavia, desde então nunca mais tinha ouvido aquela família, e pensei que se tinham tornado a contactar talvez tenha sido porque se recordaram daquele padre que tinha estado ao lado dela. É assim, muitas vezes no hospital acontecem encontros distantes dos esquemas que temos em mente. Não gostaria de parecer dessacralizador, mas quando encontro uma pessoa não é que me interesse que se confesse de imediato ou que diga as orações… Não, interessa-me encontrar o outro, porque todos somos guardados pelo amor de Deus.»



«Mesmo a melhor investigação não é capaz de responder completamente ao humano se falta aquela relação que, infelizmente, não é tomada em consideração na pasta clínica. E isso é importante com os doentes e os seus familiares: redescobrir o humano»



«Se penso no que continuam a viver aqueles pais que me procuraram após um ano, digo que não, que não me habituo ao sofrimento. Aqui dentro encontras pessoas de quem sabes que a perspetiva de vida não é longa, talvez apenas poucos meses. É verdade que estou aqui e falo com eles, brinco com elas, inclusive, mas à noite custa-me a adormecer, porque o dia que passou não foi como beber um copo de água. Também os médicos e os enfermeiros vivem esta realidade. Depois também é verdade que se não te estruturas um pouco é pior, porque as pessoas continuam a estar mal, e se eu também estou mal, eu que procuro partilhar o seu caminho, então o problema torna-se duplo. Por isso é preciso também encontrar um “descarrego”. E a oração, naturalmente, ajuda, mas igualmente sair com amigos, para depois viver de maneira suficientemente “serena”, mesmo que esta seja uma palavra grosseira, diria melhor “pacificada”.»

Terminamos falando da pandemia: «O que aconteceu, ainda que pareça um paradoxo, fez emergir como bastou um vírus para fazer desorientar todo o sistema. Mesmo a melhor investigação não é capaz de responder completamente ao humano se falta aquela relação que, infelizmente, não é tomada em consideração na pasta clínica. E isso é importante com os doentes e os seus familiares: redescobrir o humano», conclui o P. Tullio, antes de se dirigir à máquina do café, porque é também aí que há um encontro a fazer.


 

Igor Traboni
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: MongtaStudio/Bigstock.com
Publicado em 22.02.2022

 

 
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