Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Resto do resto do resto: Aconteceu no Antigo Testamento, sucederá também à Igreja?

Resto. Hoje pensa-se no povo de Artsaque, violentamente agredido por turcos e azeris, e forçado a refugiar-se na Arménia, abandonando casas e campos, além de igrejas e mosteiros testemunhas de uma civilização milenar. Nas culturas pré-cristãs, o conceito de “resto” foi aplicado ao que subsistia de uma população após uma guerra ou um desastre natural, e, como se sabe, a Bíblia é abundante em citações relativas ao povo de Israel. Em particular, após a série de cruéis invasões e deportações da parte de assírios e babilónios. Na Antiguidade, com efeito, no termo de um conflito, os vencedores abandonavam-se à destruição quase total dos adversários, a começar pelos seus líderes, mas também das fontes de vida, povoações e vinhas. Um comportamento que ocorreu várias vezes, dos sumérios aos hititas, dos hititas aos egípcios. Todavia, apesar desta sistemática obra de aniquilação dos vencidos, permaneciam sempre alguns sobreviventes. E em algumas circunstâncias, após anos ou décadas, a vida podia retomar-se. É o caso, precisamente, de Israel, que conseguiu ressurgir após períodos de cativeiro na Babilónia. «Busca, rebusca como nas vinhas, resto de Israel», escreve Jeremias depois da invasão babilónica que conduziu, em 586 a.C., à destruição de Jerusalém.

Na realidade, o primeiro a falar de “resto” foi Amós, considerado também o primeiro profeta-escritor. Muito severo para com os israelitas que tinham abandonado o Senhor, pré-anuncia a destruição do Reino do Norte por parte dos assírios, que se verificará em 721 a.C., mas exprime também a esperança que «talvez o Senhor Deus dos exércitos tenha piedade do resto de José». A noção de “resto” ocorre a primeira vez, portanto, em contexto de guerra. É conhecido que os assírios eram particularmente ferozes, visando esmagar completamente os povos conquistados e, nos seus relatórios oficiais, os reis anotavam como “o resto” quem tivesse sido capturado, morto ou deportado, de maneira que os vencidos não pudessem rebelar-se no futuro. Mas havia sempre um “resto” que conseguia fugir para o deserto. Os assírios tiveram de contentar-se em tomar a Samaria, mas não chegaram a Jerusalém, o que se verificou anos depois com Nabucodonosor, primeiro em 597 e depois em 586, quando o templo foi destruído pela fogosidade dos babilónios, e por fim numa última deportação, ordenada por Nabuzaradan, em 582. Nestas circunstâncias, vários profetas, de Isaías a Sofonias, passando por Jeremias, lamentaram a sorte do resto de Israel. Diz Isaías: «De Jerusalém sairá um resto, do monte de Sião um resíduo». E Jeremias faz votos que o seu povo se deixe submeter pelos babilónios para sobreviver. Também Ezequiel, que vê uma esperança e um futuro possível para o povo de Deus inclusive no exílio. Será Ciro, rei da Pérsia, em 538 a.C., a voltar a dar a possibilidade ao resto de Israel de voltar à sua pátria. Assim termina o período de castigo e purificação. Na Bíblia a referência ao resto está também ligado a circunstâncias diversas, como o dilúvio de Noé ou o incêndio de Sodoma (provavelmente consequência de um terramoto), mas todos estes desastres foram devidos ao pecado de Israel, a quem Deus dá, contudo, sempre a possibilidade de reerguer-se.



As pessoas que se colocam dentro da Igreja têm três reações. Há os profetas da desventura, que choram os belos tempos do passado, e colocam sob acusação toda a cultura moderna. Depois há aqueles que olham para a diferente e mais positiva situação da Igreja no resto do mundo, e por isso não se preocupam muito. Por fim, há aqueles que veem nesta situação de crise uma oportunidade, a de voltar às origens



É a partir do exame cuidadoso deste tema bíblico que atravessa todas as Escrituras que o biblista e teólogo Walter Vogels, professor emérito de Antigo Testamento na Universidade de S. Paulo em Otava, Canadá, o aplica ao declínio atual da Igreja: «E se o punhado de fiéis prontos a manter viva a fé em Cristo realizasse hoje a mesma missão dos sobreviventes do Antigo Testamento?» Está diante dos olhos de todos a queda enorme não só da participação nas cerimónias religiosas, ainda mais evidente neste período de pandemia, de maneira que é muito difícil falar ainda de “Europa cristã”. Segundo sondagens recentes, menos de metade das pessoas que vivem no Velho Continente diz-se crente ou religiosa, e os cristãos situam-se entre os 20 e 30 por cento. É diferente a situação no resto do mundo, em particular na América, Ásia e África, onde o cristianismo está em perigo não pelo abandono causado pela secularização, mas pelas perseguições. Vogels enumera o Médio Oriente, que viu os seguidores do Isis assassinar centenas de cristãos, ou a Nigéria, o Paquistão e a Índia, onde muitos sofrem opressões, para não falar de conversões forçadas ao islão ou assassinatos, só porque são cristãos. «Não é surpreendente que o papa Francisco fale da nossa época como a dos mártires. No Ocidente, uma cultura humana e cristã está, da mesma maneira, em vias de extinção, e quem se preocupa?».

As pessoas que se colocam dentro da Igreja têm três reações. Há os profetas da desventura, que choram os belos tempos do passado, e colocam sob acusação toda a cultura moderna. Depois há aqueles que olham para a diferente e mais positiva situação da Igreja no resto do mundo, e por isso não se preocupam muito. Por fim, há aqueles que veem nesta situação de crise uma oportunidade, a de voltar às origens, «uma Igreja humilde e pequena Igreja, fermento na massa, grão de mostarda, luz para o mundo». Abre-se, em síntese, a possibilidade de reencontrar a natureza verdadeira e essencial da Igreja, que se deve purificar abandonando todo o compromisso com o poder. Aqui o tema do “resto” não é injustificado. Como disse Jesus, o Filho do homem, quando voltar, encontrará a fé sobre a Terra?», uma pergunta que não tem uma resposta dada por adquirida, e que deve fazer refletir, porque a perda da fé na Europa poderá ainda não ter atingido o ponto máximo.



A reconstrução deve respeitar duas condições: que seja salvaguardado o pacto entre a Igreja e os direitos humanos, na recusa de toda a violência, e que se testemunhe o primado do ágape, sinal verdadeiro da presença dos cristãos no mundo



Também o povo de Israel sofreu uma terceira deportação e «ficou como resto de um resto de um resto»: acontecerá também assim aos cristãos do Ocidente? Para Vogels, não se trata de procurar consolação na ideia de que agora só vai à missa quem acredita verdadeiramente e que a Igreja é mais pura. Se nisto há verdade, não pode haver ilusões de que o futuro das comunidades cristãs vai ser constituído apenas por poucos eleitos, que talvez se considerem perfeitos. Também aqueles que no passado frequentavam em massa a paróquia e que talvez não fossem aculturados, vivem, no entanto, uma fé sincera e profunda. E transmitiam a fé aos seus filhos.

Vogels, num seu livro recente, examina também as possíveis causas do declínio, entre elas as culpas próprias da Igreja, devidas, por exemplo, aos escândalos e aos abusos, mas também recorda alguns sinais de esperança. «Quando durará este êxodo?», questiona Vogels, e acrescenta: «Após todas as autodefesas dos últimos papas pelas culpas da Igreja, o chamamento constante e fervoroso do papa Francisco à misericórdia de Deus seria uma profecia de que este tempo da misericórdia, que sucederá ao da ira, está próximo?».

Trata-se de voltar a partir precisamente do “resto”; daqueles que permanecem ligados à Igreja e continuam a comprometer-se e a transmitir a fé às novas gerações. Será capaz, este “resto”, graças a um processo de reforma autêntica e a uma nova evangelização, de recuperar pelo menos uma parte daqueles que se foram embora? «O repatriamento não será fácil. Mas não temos o direito de deixar os feridos da vida sozinhos, no exílio, distantes ou excluídos da comunidade». E ainda: «Escancaremos as portas da misericórdia, da compreensão e da tolerância. Deve haver lugar para muitos na casa do Pai, para aqueles que são chamados liberais ou conservadores, tradicionalistas ou revolucionários, de esquerda ou de direita. Haverá do velho e do novo. Nenhuma comunidade é perfeita». Mas a reconstrução deve respeitar duas condições: que seja salvaguardado o pacto entre a Igreja e os direitos humanos, na recusa de toda a violência, e que se testemunhe o primado do ágape, sinal verdadeiro da presença dos cristãos no mundo.


 

Roberto Righetto
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: James Tissot
Publicado em 20.02.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos