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Resistir ao espírito do confinamento

«Se não estivermos confinados até lá…» Quem não viu ou ouviu, nestes dias, esta precaução insinuar-se nas conversas mais simples? Ela está de regresso, como refrão que prepara os espíritos para o inelutável aperto sanitário. E, ao mesmo tempo, desgastando ainda mais os nossos nervos. Como se, semelhantes a Penélope, não nos restasse fazer e desfazer os projetos pessoais numa espera interminável: como não experimentar esse sentimento de um eterno recomeço? Face a uma normalização daquilo que, inicialmente, nos pareceu excecional, constatamos que as medidas impostas para o bem comum não têm o mesmo preço para todos. Penosas mas aceitáveis para os mais afortunados, tornam-se, em contrapartida, dificilmente suportáveis para muitos – estudantes, comerciantes, pessoas sozinhas… O acolhimento dos constrangimentos do presente torna-se doloroso pelo sentimento de a vida estar constantemente a “ir-se abaixo”, em lugar de finalmente voltar a arrancar, mesmo sabendo que só temos uma.

É preciso começar a admitir que esse “mundo pós-“, do qual deixámos de ousar falar, já começou, e que não tem o rosto que dele esperamos. Devemos passar da aceitação e da adaptação a uma forma de ação. Combater não o confinamento em si, como em revoltas que despontam em alguns países, mas o espírito do confinamento. Esse desgaste interior que nos impele a resignar. E tendo em conta que o confinamento é inevitável, é preferível prepará-lo, até porque não se conhece quanto tempo vai durar, em vez de apenas o sofrer.

Que aprendemos dos meses passados? Seria lamentável voltar às mesmas denúncias e aos mesmos debates – fragilização da economia, depressões agravadas pela solidão, querelas paroquiais sobre a suspensão da celebração comunitária das missas, etc. – sem nos comprometermos com mais proximidade, criatividade, fraternidade. Em tudo isto, a repetição não é uma fatalidade. Da mesma maneira que em março se faziam reservas de farinha, de papel higiénico… que reservas interiores, que recursos espirituais podemos mobilizar? Melhor: nos locais onde estamos, tornarmo-nos focos de esperança para os nossos próximos, especialmente os mais frágeis.

Resistir ao espírito de confinamento passa também pela renúncia à espera de uma solução milagrosa. Mais do que aguardar por profetas que deem sentido ao coração da tempestade, coloquemo-nos nós, por fim, e verdadeiramente, à escuta daquilo que a tempestade nos diz do estado do nosso mundo e das nossas sociedades. Perscrutar os sinais dos tempos para desencadear as mudanças necessárias. A pandemia, ao desarrumar as nossas certezas, fala-nos e ensina-nos, se assim o permitirmos, segundo a bela fórmula de Emmanuel Mounier, a tornar-nos nossos mestres interiores.

Quando o exterior se esvai, a nossa conversão pessoal encontra-se ali. Consentir tudo aquilo sobre o qual não temos o menor controle, para melhor encontrar um compromisso concreto sobre aquilo que depende verdadeiramente de nós. Em resumo, decrescer interiormente. Habitar um espaço à nossa medida, para melhor o transformar: voltar a tecer um laço social deteriorado, retomar – mesmo com todas as limitações – o contacto com a natureza. Passar do alarme à atenção. Ao permanecermos abertos ao outro, este decrescimento nada terá de recuo. Pelo contrário: só ele, talvez, nos permitirá deixar, finalmente, este presente circular, para nos projetar novamente para um futuro desejável.


 

Aymeric Christensen
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins:
Imagem: Sam Wordley/Bigstock.com
Publicado em 27.01.2021

 

 
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