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Leitura: “Religião na sociedade portuguesa”

«Quando hoje perguntamos o que é ser-se católico em Portugal, a resposta desenha-se num espectro de incertezas. Neste caso, a afirmação de uma cultura do indivíduo produz tanto a erosão como a diversificação das práticas, tornando a religião menos visível enquanto presença social compacta. De um catolicismo “confessante” até às franjas de um catolicismo cultural, diversificaram-se os modos de exprimir a articulação entre crer e pertencer.»

Esta é uma das conclusões que o antropólogo e teólogo Alfredo Teixeira propõe no ensaio “Religião na sociedade portuguesa”, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que vai ser apresentado esta quinta-feira, em Lisboa.

O docente e membro da Direção da Faculdade de Teologia da Universidade Católica nota que «os indivíduos podem permanecer ligados à Igreja em que foram socializados, independentemente da evolução das suas próprias posições pessoais», e constata que «o peso do religioso como obrigação diminuiu, mas o seu lugar enquanto memória e referência pode sofrer moldagens diversas».

«Observou-se que o século XX português foi ainda marcado pelas estruturas da religiosidade tradicional, contexto em que as imagens e as narrativas do Deus cristão sofreram moldagens diversas, na plasticidade própria de um “Deus da nossa terra”, analisa.



«A crescente afirmação de uma pluriconfessionalidade cristã, na nossa sociedade, com particular relevância para a Área Metropolitana de Lisboa, pode assinalar-se como um dos fenómenos sociais mais relevantes»,



Os «estratos de uma cultura do campesinato, a religiosidade da bênção, da promessa e da festa» enquadraram «parte da socialização de muitos portugueses», mas, alerta Alfredo Teixeira, «a tradição incorpora a mudança, a mudança carrega a tradição, dinâmica particularmente visível nas formas religiosas, judaicas, cristãs ou pré-cristãs, mais enraizadas».

«O fenómeno de Fátima é, neste trânsito histórico, um lugar paradoxal. Estabelecendo uma forte relação com essas práticas e imaginários tradicionais, inscreve-se também nas lógicas de mudança social. O capital simbólico do Santuário de Fátima centra-se numa mensagem – a trama ideológica é, precisamente, um dos legados da modernidade. Por outro lado, apesar de ser um espaço muito regulado institucionalmente, é facilmente moldável pela biografia dos crentes. Fátima tornou-se uma referência para muitos percursos de vida segundo ritmos moldáveis às trajetórias pessoais, num quadro de menor rigidez institucional. Fátima é, hoje, o resultado de uma ampla “hibridificação” das práticas», aponta.

O itinerário histórico da religião em Portugal «não conduziu necessariamente a uma “exculturação” do catolicismo», mas a «uma “descatolicização”»: «Subsistem os sinais da presença de iniciativas católicas nas instâncias de socialização e nos contextos de maior vulnerabilidade social. Mas isso não quer dizer que as instituições católicas sejam o dossel sagrado de uma estrutura social. Essa capacidade agregadora convive com o fenómeno de pluralização das identidades crentes e das posições face à religião».

A investigação que Alfredo Teixeira tem desenvolvido nos últimos anos, em parte sintetizada nesta edição, indica que «a diversificação religiosa da sociedade portuguesa foi marcada pelas recomposições provocadas por diferentes fluxos migratórios», começando pelas «mobilidades coloniais e pós-coloniais», e, depois, «pelas diversas conjunturas globais» que fizeram do Portugal contemporâneo «uma sociedade de acolhimento».



Não se pode ignorar que, «atualmente, cerca de 80% da população se autorrepresenta como católica» ou que «a sociedade portuguesa caminha, num ritmo próprio, para uma situação social de maior diversidade religiosa»



«A crescente afirmação de uma pluriconfessionalidade cristã, na nossa sociedade, com particular relevância para a Área Metropolitana de Lisboa, pode assinalar-se como um dos fenómenos sociais mais relevantes», salienta.

O ensaio elege «três lugares de observação: destradicionalização, individualização, diversificação», dado que cada um «permite uma leitura transversal da paisagem religiosa portuguesa, desencadeada por algumas perguntas».

«O mapa» do itinerário traçado pelo autor «é a sociedade portuguesa, nas suas dinâmicas sociais, e não o perímetro de cada um dos grupos religiosos, tomados como um universo», o que «não significa que não seja necessário deter o olhar sobre algumas comunidades de pertença religiosa», nem ignorar que, «atualmente, cerca de 80% da população se autorrepresenta como católica» ou que «a sociedade portuguesa caminha, num ritmo próprio, para uma situação social de maior diversidade religiosa».

Com a convicção de que é impossível «escrever sobre toda a geografia do diverso», porque o ensaio é «necessariamente incompleto, mas também porque o conhecimento construído cientificamente sobre algumas configurações do religioso» em Portugal «é ainda escasso», Alfredo Teixeira apresenta a obra como um «campo de possibilidades».

«A construção que proponho favorece o jogo das escalas – entre a abordagem extensiva e a intensiva, entre a teoria e o caso, entre o retrato sincrónico e a perspetiva longitudinal, entre o corte no presente e a atenção aos substratos históricos, entre os modelos interpretativos e o interesse pela religião “a fazer-se”. Creio que esse vaivém, numa perspetiva multiscópica, se revela adequado quando estamos perante um objeto tão complexo como este», explica.

A apresentação do ensaio no dia 12 de abril, às 18h30, no Centro Nacional de Cultura, decorre no contexto de um debate entre Alfredo Teixeira e Fr. Bento Domingues, OP, com moderação do jornalista António Marujo. A entrada é livre, mediante inscrição.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: weyo/Bigstock.com
Publicado em 08.04.2019

 

 

 
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