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Regressar a Bach: breve apologia da vida pascal aquém do digital

«Este é o ouvinte paciente, sem pressas.
O outro é surdo.» (1)

Entrar no mundo de Bach é como ter uma vertigem na escalada de uma montanha altíssima. É impossível olhar para trás, se se quer avançar. Nele a música faz-se louvor e a adoração torna-se música pura. Bach é um clássico que jamais passará, ao qual todos os grandes compositores ou maestros regressam sempre lá. Não há programação das grandes casas da música ou da cultura que não tenham na sua programação as suas cantatas ou Paixões evangélicas de Mateus e de João. Não há adjetivos que possam titular em absoluto o seu génio. A questão que se coloca é radicalmente esta: Porque será que Bach, e outros que tais, desapareceram da cultura ou da experiência religiosa contemporânea? Porque será que estes clássicos, ou testemunhas audíveis da Palavra, não são propostos como paradigma de adesão à vida crente ou do caminho espiritual das comunidades eclesiais hodiernas? Porque será que a própria teologia académica ainda não estuda Bach como um verdadeiro teólogo ou místico da qualidade da vida sensível e espiritual?

Na escuta de Bach seduz-nos a vida do espírito no corpo da dramática tonal, a fúria de uma sonoridade serena à procura de ouvintes da Palavra, o silêncio das palavras indizíveis mas que fendem o nosso corpo de carne para a habitação do Espírito. Regressar a Bach significa voltar a todos os grandes clássicos da literatura, da pintura ou da música. Eles fazem-nos avançar vagarosa e novamente na inauguração do novum, de uma densidade humana e espiritual algo perdida num certo estilo contemporâneo sem herança, sem memória e sem história. Almada Negreiros escrevia que «isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade». A rutura pela rutura, o desejo de ser moderno contra o antigo, produziu em muitos casos uma arte panfletária, comercial e até utilitarista, na ânsia desesperada de anulação da própria realidade, do que é intensamente humano na sua mais alta complexidade.



Uma grande parte das lideranças religiosas hodiernas parece recusar o pensamento e recusar a grande arte ou a música sacra de excelência em nome de uma adesão juvenil à música "techno" ou à "pop" religiosa, esquecendo a numerosa multidão dos que apreciam a música que eleva o silêncio do espírito e a vida do corpo



A própria experiência religiosa contemporânea parece sofrer desta erosão, que banaliza a qualidade espiritual da proposta em função do auditório. Emigrando facilmente para plataformas de massificação digital, reduz o seu espírito crítico e a criatividade autêntica, fazendo aquilo que qualquer instituição ou empresa faz: a comercialização de um produto para atrair o máximo de “likes” ou de vendas. As propostas cristãs parecem preferir a quantidade, a infantilização dos ouvintes, a exaltação bem-intencionada dos méritos próprios, à qualidade de processos germinais; o favorecimento da adesão emocional imediata ao produto religioso oferecido em detrimento da gestação lenta do si mesmo no encontro corpo-a-corpo com as várias alteridades do mundo. Todos desejam aparecer sem cuidar o ser do aparecer. É a era do divertimento e da comédia do “como se”, onde já não existe sequer as fronteiras do copyright! Tudo é de todos e nada é de ninguém! Tudo aquilo que tenha gravidade é rejeitado, porque não diverte nem anima a fé dos crentes. É o “simplex da fé”! Mais do que nunca é o próprio religioso global que está dar razão a Nietzsche, quando este afirmava que “o cristianismo é um platonismo de massas”. Não o era, seguramente, mas tornou-se, poderemos contrapor ao filósofo alemão.

Como diria T.S. Eliot, esta realidade pobre é a expressão de uma «terra devastada» que a visão utilitarista exacerbou. Uma grande parte das lideranças religiosas hodiernas parece recusar o pensamento e recusar a grande arte ou a música sacra de excelência em nome de uma adesão juvenil à música techno ou à pop religiosa, esquecendo a numerosa multidão dos que apreciam a música que eleva o silêncio do espírito e a vida do corpo, como aqueles que estudam e trabalham arduamente nos conservatórios de música ou das crianças que fazem parte dos numerosos e excelentes escolas monásticas ou catedralícias. Na comparação com outros tempos, o poeta dizia que, apesar de tudo, eles “amavam as artes”, e por isso, toda a arte era metáfora de um pensamento humanista! O poeta, o escritor, o pensador, o artista ou o filósofo são hoje postos à margem da discussão das grandes questões humanas em favorecimento da retórica fácil do jornalista, do técnico especializado ou dos fazedores de opinião pública.



Quando todos estes grandes nomes voltarem a entrar dentro das igrejas, e na própria Igreja, não como apêndice ou somente oferta cultural, creio que algo se transformará, algo de novo aparecerá, um renascimento eclesial tornará possível uma nova presença de Deus no meio da carne ferida do humano



Todo este posicionamento de rejeição dos clássicos que nos fazem ver mais alto do que a nossa própria sombra resulta de uma conceção ideológica perigosa. O argumento é que as pessoas não percebem ou nem entendem esta linguagem, como se o melhor da criação humana e espiritual só fosse acessível a uma elite ou grupo social. Todavia, na visão cristã do mundo, é o pobre ou o desfavorecido que merece o melhor que se possa dar e oferecer, como esse outro rosto de Cristo a ser acolhido e hospedado como glória de Deus. Ninguém merece os restos da mesa farta! Bach, Mozart, Arvo Pärt ou Karl Jenkins, entre outros, são para todos, e em particular, para os que vivem na penúria existencial., ou na escuridão sem vislumbre de futuro fecundo. A cultura que cultiva não é nem pode ser privilégio de uma burguesia acomodada. Muitas destas obras de arte nasceram das ruínas, do sofrimento, do abandono ou da angústia dos seus criadores. Na verdade, só os pobres poderão compreender verdadeiramente a Paixão segundo S. Mateus de Bach, tal como são os famintos e exasperados compreendiam o toque salvífico dos gestos e palavras de Jesus o Cristo. Tudo nele é performativo, faz o que diz e diz o que faz. Tudo se faz corpo de comunhão e empatia da carne pascal de Cristo com a nossa carne entreaberta à espera de salvação última e final, muito além da útil emergência sanitária.

Quando todos estes grandes nomes voltarem a entrar dentro das igrejas, e na própria Igreja, não como apêndice ou somente oferta cultural, creio que algo se transformará, algo de novo aparecerá, um renascimento eclesial tornará possível uma nova presença de Deus no meio da carne ferida do humano. Bach é um artista teólogo, talvez o maior teólogo vivo, o mais escutado ainda hoje. Toda a grande arte encerra em si uma ética, ou melhor, uma força espiritual capaz de mobilizar o que há de melhor em nós para a construção de um templo, para o dom de si ao outro, para a harmonia entre as nações, para a qualificação do tempo e dos lugares. No pensamento musical de Bach acedemos à polaridade irresolúvel entre a fé crente e a confiança agnóstica, que eleve o desejo da imanência ao atrito da transcendência absoluta, como o desejo mais forte do que a própria morte. Como afirma Markus Gabriel, um dos grandes filósofos emergentes da atualidade: «A nós, seres humanos, a arte não nos pergunta se gostamos ou não. Somos fascinados, ou não, pelas obras de arte. Tal é o poder da arte.» (2)

Se a Páscoa é na verdadeira aceção da palavra “passagem”, êxodo de um tempo antigo para a vida nova futura, de nascimento de si para a dádiva, fica o convite para escutar silenciosa e atentamente, tanto quanto seja possível, a Paixão segundo S. Mateus/São João de J.S. Bach. Ninguém sairá defraudado, apenas estremecido com a epifania do mistério absoluto a que chamamos Deus! Mesmo sem ouvir Bach, Paulo de Tarso dizia que «a fé vem da escuta» (fides ex auditu). A fé faz-se música e a música faz-se teologia (3), diálogo musical com Deus, drama e gozo, desconsolo e consolo, consonância e dissonância…. As suas notas musicais são orantes, e cada uma delas, dirigidas ao orante, empenha a nossa atenção toda! Converter-se (μετᾰ́νοιᾰ), no sentido de se deixar espantar e transformar pela visitação de algo até ao si mesmo mais profundo, na escola da audição de Bach, é um dos modos da palavra divina se encarnar na horizontalidade da vida do mundo e dos humanos. Desperdiçar este fragmento de pão seria um pecado contra o Espírito Santo, pois, como diria o jovem poeta Rimbaud: “Nos lameiros, passava a mão de Deus” (4).



(1)  Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre música, Relógio d’Água, Lisboa 2015, p. 15.  
(2) Markus Gabriel, El poder del arte, Roneo, Santiago de Chile 2019, p. 91.  
(3) Para o aprofundamento do pensamento musical e teológico de Bach, o livro germinal e singular de Philippe Charru-Christoph Theobald, L'esprit créateur dans la pensée musicale de Jean-Sébastien Bach: les chorals pour orgue de l'"autographe de Leipzig, Editions Mardaga, Paris 2002.  
(4) Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Uma cerveja no Inferno, trad. Mário de Cesariny, Assírio&Alvim, Lisboa 2007, p. 149.















 

Jean Delaunay
Imagem: Bach | D.R.
Publicado em 14.04.2020

 

 
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