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Cinema: “Raya e o último dragão”

Acabou-se o tempo das princesas, inclusive na casa Disney. É o que emerge do novo filme de animação “Raya e o último dragão”, dirigido por Don Hall, prémio Óscar – que também assinou “Big hero 6”, de 2014) –, e Carlos López Estrada, colorida e fascinante narrativa que une fantasia e realismo, quase num cenário de futuro distópico. Todavia, não é alarmante para a visão dos mais pequenos, pelo contrário: é uma história de fundo educativo que coloca no centro temas como a confiança, amizade, solidariedade e perdão, bem como respeito pela Criação, quase em linha com a carta encíclica “Laudato si’”, do papa Francisco.

O mundo de Kumandra é uma terra habitada por seres humanos e mágicos dragões. Um sistema fundado no respeito e harmonia. O advento de uma ameaça maligna divide a comunidade humana em tribos isoladas, fechadas em si mesmas, entre medos e egoísmos, expondo os dragões a um desesperado sacrifício para deter o avanço do mal.

Quinhentos anos após estes acontecimentos, uma nova ameaça torna a precipitar-se sobre a terra, e a única esperança parece residir na jovem Raya, que depois de ter perdido o pai e os membros da sua comunidade, decide não se dar por vencida e põe-se a caminho em busca do último dragão existente, o lendário Sisu (é formidável a interpretação de Awkwafina, atriz conhecida por “Ocean’s 8” e “The farewell”, com que venceu o Globo de Ouro em 2020). A ligar-se à missão (im)possóvel de Raya está um valoroso grupo de últimos prontos para o resgate em prol do bem comum.

As novas heroínas Disney despojam-se das suas vestes de sonho e abeiram-se, obviamente mantendo sempre a aura de charme e magia, da realidade de hoje, expressa numa feminilidade capaz, livre e independente. Uma mudança de paradigma, a julgar também pelo recente “live-action” “Mulan” (2020), que retomou o feliz desenho animado de 1998, mas sobretudo a lenda chinesa sobre a valorosa guerreira Hua Mulan, primeira mulher no exército do imperador e salvadora contra a ameaça de despiedadas tribos nómadas.



Não se destaca unicamente como a esperança é uma “mulher”, reiterando o seu valor na sociedade contemporânea, que ainda tem dificuldades em reconhecê-lo; no filme insere-se também uma cativante metáfora para os nossos tempos, um convite a reencontrar a confiança no outro, assim como a dar impulso à solidariedade e ao perdão



Em “Raya e o último dragão” o cenário, mais do que ser o da história passada, acerca-se ao imaginário fantástico orientado para um futuro de condições funestas, a partir de uma civilização humana dispersa e reduzida a pequenas comunidades que lutam pela sobrevivência, e em que a natureza se tornou hostil, por durante muito tempo ter sido depredada e maltratada. Um cenário árido e marcado pela desilusão, que quase chega a conjugar-se com o universo de “Star wars”, em que a última heroína era precisamente uma jovem mulher, Ray (que, coincidentemente, só se diferencia de Raya pela junção de uma vogal).

Raya parece ser o conseguido alter ego de heroínas contemporâneas como Katniss Everdeen, da saga “Hunger games” (2012-15), Beatrice (Tris) Prior, da trilogia “Divergent” (2014-16), ou até Arya Stark, inesquecível rosto da série de culto “A guerra dos tronos” (2011-19).

As referências estão lá todas: uma jovem que fica só, chamada a um destino, uma missão, decididamente maior que ela, de incomparável alcance; uma mulher ferida, privada da sua família, mas que não fica parada, antes é resiliente, capaz de reunir um numeroso grupo de pessoas junto a ela, uma comunidade de descartados, prontos a tudo para tornar real um sonho que lhes fala de confiança e resgate.

Porém, diferentemente das suas colegas de ecrã, Raya move-se num cenário de resolutas pinceladas educativas. Além disso, em “Raya e o último dragão” não se destaca unicamente como a esperança é uma “mulher”, reiterando o seu valor na sociedade contemporânea, que ainda tem dificuldades em reconhecê-lo; no filme insere-se também uma cativante metáfora para os nossos tempos, um convite a reencontrar a confiança no outro, assim como a dar impulso à solidariedade e ao perdão.



A narrativa carrega-se de uma conseguida advertência-exortação ao respeito para com a natureza e a Criação, uma mensagem de matriz ecologista, até pastoral, que vê entreabrir-se a salvação coletiva a partir do esforço comum de mudança



Vistas bem as coisas, Raya não é modo algum uma heroína perfeita. Sabe ser obstinada, solitária, endurecida pela perda do pai, habituada a fazer tudo sozinha, desconfiando portanto de gentilezas ou de apoios que possam vir de outros. Raya é igualmente rancorosa para com a rival de infância, Namaari. Quando, contudo, está prestes a perder tudo, inclusive a última possibilidade para salvar a comunidade, compreende finalmente os seus limites, amplia o olhar e afasta-se da rota do “eu”, optando pelo passo do “nós”. Rava compreende que precisa do próximo, do grupo de ajudantes-amigos que se juntou em torno a ela, e começa assim a tecer novas relações, partindo primeiro do perdão, de si e do outro.

Em tudo isto, a narrativa carrega-se de uma conseguida advertência-exortação ao respeito para com a natureza e a Criação, uma mensagem de matriz ecologista, até pastoral, que vê entreabrir-se a salvação coletiva a partir do esforço comum de mudança. Uma mudança de passo não só a nível antropológico, nas relações entre as pessoas, mas existencial, na relação com a natureza.

No conjunto, a narração move-se ao longo do trilho do perfeito desenho animado Disney, capaz de condensar ação e fascínio, momentos de (contida) tensão e lampejos de divertido humorismo, delineando uma fábula social que abre para os valores fundadores da vida partilhada.















 

Sergio Perugini
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Raya e o último dragão" | D.R.
Publicado em 06.03.2021

 

 

 
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