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Leitura: “Quebrados”

É uma poderosíssima voz do dissenso a de Don Winslow, escritor norte-americano que, com naturalidade e sem medo de se inimistar do público, faz do seu objetivo talento um caminho para escutar um canto outro. Confirma-o o recente “Quebrados” (480 páginas, 19,90€, ed. HarperCollins), que recolhe seis romances breves. Atormentados, cativantes, sofridos, emocionantes não só pela capacidade de Winslow de construir e narrar a ação, mas sobretudo pela arte de colocar em cena a ferocidade e a poesia da alma humana. E a sua força de dizer «não».

Abrem (“Quebrados”) e fecham (“A última cavalgada”) o livro duas indeléveis figuras de mães, uma daqui e outra de além-fronteiras. Uma, a americana, é a telefonista que vela sobre Nova Orleães (ao transferir as chamadas que, de noite, chegam à sala de operações do pronto socorro sente o desespero humano, «sente o medo, o pânico, a raiva, a fúria, o caos»), é a mãe que fala, desatina, erra e reza. A outra, Gabriela, salvadorenha, é a mãe arrastada por dois mundos (o de partida e aquele a que gostaria de chegar), e cuja única palavra que pronunciará é «obrigada».

Nos seis romances propostos em junho ao público português comparecem os temas centrais da longa produção de Winslow; regressam algumas das personagens que ao longo dos anos aprendemos a conhecer, mas irrompem também figuras novas.

É inesquecível a de Calvin Strickland (protagonista de “A última cavalgada”), o agente de fronteira que diariamente patrulha a fronteira entre o México e os EUA, e que nos migrantes só vê uma massa sem nome a rechaçar. Mas Cal é também um homem que sabe chamar as coisas pelo seu nome. E como aquilo que matou o seu pai não foi um problema de saúde, mas um cancro nos ossos, também o lugar em que está aquela menina que não consegue fazer sair da cabeça não é um centro de detenção, de custódia, de primeiro acolhimento, mas é – simplesmente – uma jaula. Uma jaula «tão cheia que parecia um recinto para os animais, só que aquelas eram pessoas, não vitelos, e não mugiam, mas falavam, gritavam, pediam ajuda ou choravam, como aquela menina».



Em “A última cavalgada” há realmente muito. Há a migração narrada pela perspetiva de quem patrulha diariamente a fronteira como trabalho que voluntariamente se escolheu. Há a solidão causada pela incomunicabilidade, e pela dor que – como os erros – se soma, decuplicando-se. Há quem é capaz de ser verdadeiramente diferente quando ser diferente significa fazer aquilo que é acertado a todo o custo



Cal sabe em quem votou, votou também por causa daquilo. Mas Cal é um homem capaz de chamar as coisas pelo sue nome, e chamar as coisas pelo seu nome é também reconhecer que o homem em quem votou «começou uma guerra sem qualquer projeto sobre como a conduzir, e agora ela aqui está. As crianças têm piolhos, apanham varicela, sarna, choram o tempo todo. É um ruído de fundo contínuo, como a rádio em casa do Bobbie, com a diferença que te esmaga o coração e não podes desligá-lo».

É o seu trabalho, Cal sabe-o, mas alguma coisa não está bem se esse trabalho se tornou a arte de meter as crianças na jaula, arrancando-as aos seus pais. Há qualquer coisa que Cal não pode ignorar, e é o facto de chamar um erro com o seu nome – erro, precisamente. Um erro que é o resultado final de muitos erros que, somados, não se elidem nem se anulam. Cal, o cowboy que chama as coisas pelo seu nome, sabe que a absurdez não é aquilo que ele quer fazer, mas aquilo que lhes estão a fazer. Cal sabe que não pode salvá-las todas, mas pode salvar uma. E talvez seja suficiente.

Em “A última cavalgada” há realmente muito. Há a migração narrada pela perspetiva de quem patrulha diariamente a fronteira como trabalho que voluntariamente se escolheu. Há a solidão causada pela incomunicabilidade, e pela dor que – como os erros – se soma, decuplicando-se. Há o poder da narrativa pública, profundamente ambivalente na sua capacidade de destruir, mas também de salvar. Há quem é capaz de ser verdadeiramente diferente quando ser diferente significa fazer aquilo que é acertado a todo o custo. Há, sobretudo, a nua, radical, extrema verdade de duas cenas: «A primeira vez que a vi, a menina estava na jaula. A última vez que a vi, era livre».

Porque a arte em que desde há muito Don Winslow é superior é a de «fazer explodir a narrativa construída até agora como uma granada de mão». Fá-lo muitíssimo bem, fá-lo como ninguém.

NB: Citações da obra extraídas da edição italiana.



 

Giulia Galeotti
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 28.07.2020

 

 
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